"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Charles Dickens – Apontamentos para um estudo


Charles Dickens

Para os interessados nas obras de Charles Dickens, ou para aqueles que já estão um pouco por dentro desta temática, mas que queiram aprofundar um pouco os seus conhecimentos, deixo aqui duas obras que se encontram disponíveis para consulta na Internet.

Estão sobretudo viradas para as ilustrações, e ilustradores, das suas obras, que, na minha opinião, são um complemento imprescindível das mesmas, pois nos dão uma visão bem clara da sociedade do seu tempo.

Como já disse, o coleccionismo, e o estudo das obras de Charles Dickens, é um mundo dentro da bibliofilia.

Com efeito, só para se conhecerem as múltiplas edições que teve, é preciso estudar muito e conhecer-se bem a matéria, pois ao pretender-se adquirir algum livro via Internet, por exemplo e que não seja manipulado por nós, muitas questões têm que se colocar ao vendedor as quais devem ser por ele respondidas com a máxima exactidão.


«Scenes and Characters from the works of Charles Dickens»

Charles John Huffam Dickens nasceu, em Moure, a 7 de Fevereiro de 1812, adoptou no início da sua actividade literária, também o pseudónimo “Boz”.
A fama dos seus romances e contos, tanto durante a sua vida como depois, até aos dias de hoje, só aumentou.
Apesar de os seus romances não serem considerados, pelos parâmetros actuais, muito realistas, Dickens contribuiu em grande parte para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa.

Entre os seus maiores clássicos podemos destacar «David Copperfield» e «Oliver Twist».


«Scenes and Characters from the works of Charles Dickens»

Descrever-se-ia a si mesmo, mais tarde, como uma criança não particularmente muito mimada. Ensinado por sua mãe, passava muito do seu tempo a ler infindavelmente – e, com especial devoção as novelas picarescas de Tobias Smollett e Henry Fielding. Entre os livros da sua infância encontravam-se também obras de Daniel Defoe, Goldsmith, bem como o «Dom Quixote», «Gil Blas» e «As Mil e uma noites».

A sua memória fotográfica serviria, mais tarde, para conceber as suas personagens e enredos ficcionais, baseando-se muito nas pessoas e acontecimentos que foram marcando a sua vida.

A sua família pode ser considerada como remediada em termos económicos, o que lhe permitiu frequentar uma escola particular durante três anos; no entanto, esta situação piorou quando o seu pai foi preso por dívidas, depois de gastar os recursos da família no afã de manter uma posição social periclitante.

Com dez anos de idade, a família mudou-se para o bairro popular de Camden Town em Londres, onde ocupavam quartos baratos e, para fazer face aos gastos, empenharam os talheres de prata e venderam a biblioteca familiar que tinha feito as delícias do jovem rapaz.


KITTON, Frederic G. – «Dickens and his Illustrators»
London, George Redway, 1899
(Página de título)

Com doze anos, Dickens já tinha a idade considerada necessária para trabalhar na empresa Warren’s onde se produzia graxa para os sapatos com betume, junto à actual Estação ferroviária de Charing Cross. O seu trabalho consistia em colar rótulos nos frascos de graxa, ganhando, por isso, seis xelins por semana. Com o dinheiro, sustentava a família, encarcerada na prisão para devedores, onde ia dormir.

Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou consideravelmente, graças a uma herança recebida pelo seu pai. A sua família deixou a prisão, mas a mãe não o retirou logo da fábrica, que pertencia a um amigo.

Dickens jamais perdoaria a mãe por essa injustiça. O tema das más condições de trabalho da classe operária inglesa tornar-se-iam, mais tarde, um dos mais recorrentes da sua obra.


KITTON, Frederic G. – «Dickens and his Illustrators»
London, George Redway, 1899
(Retrato de ante-rosto)

Dickens começou a trabalhar num escritório, emprego que lhe poderia valer, mais tarde, a posição de advogado. Não gostou, no entanto, do trabalho nos tribunais e, depois de aprender taquigrafia, foi, por um breve período, estenógrafo do tribunal.

Com dezoito anos de idade, começou outro período de leituras intensas tendo-se inscrito na biblioteca do British Museum.

Tornou-se, depois, jornalista, começando como cronista judicial e, depois, fazendo relatos dos debates parlamentares e cobrindo as campanhas eleitorais pela Grã-Bretanha fora, de diligência. Os seus «Sketches by Boz» - Boz era a alcunha do seu irmão mais novo que não era capaz de pronunciar devidamente "Moses” são fruto desta época e são constituídos por pequenas peças jornalísticas em forma de retratos de costumes, originalmente escritas para o "Morning Chronicle". Ao longo da sua carreira, Dickens continuou, durante muito tempo, a escrever para jornais.

Com pouco mais de vinte anos, o seu «The Pickwick Papers» estabeleceu o seu nome como escritor.

Faleceu, de morte cerebral, a 9 de Junho de 1870. Foi sepultado no Poets' Corner, na Abadia de Westminster. Na sua sepultura está gravado: "Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos; e com a sua morte, um dos maiores escritores de Inglaterra desaparecia para o mundo."


KITTON, Frederic G. – «Dickens and his Illustrators»
London, George Redway, 1899
(Pormenor da introdução)

Numa altura em que o Império Britânico era a maior potência política e económica do mundo, Dickens conseguiu apontar para a vida dos esquecidos e desfavorecidos, mesmo no coração do império. Na sua breve carreira de jornalista já tinha batalhado pelo saneamento básico e pelas condições de trabalho, mas foram, claramente, as suas obras ficcionais que mais despertaram a opinião pública para estes problemas. À conta de um contexto literário bem humorado e de vendas avultadas, denunciava a vida agreste dos pobres e satirizava os indivíduos que permitiam que tais abusos continuassem e conseguia mover opiniões. Crê-se que a sua influência foi importante para o fecho das prisões de Marshalsea e da Prisão de Fleet.

A própria era vitoriana pode-se designar de era dickensiana, se pensarmos na forma como foi perenemente descrita por este escritor. Depois da sua morte em 1870 a literatura inglesa tornou-se muito mais realista, talvez em reacção à tendência de Dickens para o picaresco e o ridículo. Outros romancistas da era vitoriana que o seguiram, como Samuel Butler, Thomas Hardy ou George Gissing demonstram-se claramente influenciados por Dickens, ainda que a sua escrita seja mais sóbria e menos melodramática.

Dickens continua, contudo, a ser um dos mais geniais criadores da literatura mundial de todos os tempos, sendo dificilmente superado na popularidade e acessibilidade da sua escrita.

Como exemplos do coleccionismo das suas obras deixo aqui algumas imagens. Começo pela edição de 1870, em fascículos, de «Edwin Drood».


«Edwin Drood»
Um fascículo

Como já disse acima, os anúncios incluídos nos fascículos são fundamentais para se estabelecer o seu valor (quanto mais completos maior o seu valor obviamente!)


«Edwin Drood»
Um dos vários anúncios

Temos igualmente edições em livro, de que fica aqui uma 1ª edição, neste caso de «The Life and Adventures of Nicholas Nickleby» de 1839.


DICKENS, Charles - «Life and Adventures of Nicholas Nickleby»
Ilustrações de Phiz
London, Chapman and Hall, 1839


DICKENS, Charles - «Life and Adventures of Nicholas Nickleby»
Retrato do autor no ante-rosto

E, para terminar, uma 1ª edição, com uma encadernação luxuosa, de «The Personal History of David Copperfielf». London, Bradbury & Evans, 1850. Ilustrações de H. K. Browne


«David Copperfield»
Encadernação


«David Copperfield»
Encadernação - Lombada


«David Copperfield»
Página de título


«David Copperfield»
Interior – Ilustrações


Espero, pelo menos, ter conseguido despertar o vosso interesse para este autor inglês, que marcou toda uma época e foi extremamente popular no seu tempo.

Saudações bibliófilas.

4 comentários:

Marco Pedrosa disse...

Obrigado pelo seu comentário, de fato não conheço nenhum outro blog em português que trate desse assunto. Desejo lhe os mesmo votos! Também trabalho com encadernações clássicas e em breve postarei outros trabalhos, enquanto isso, visite meu site oficial e conheça um pouco mais do meu trabalho no link galeria. Só precisa de um pouco de paciência.

www.marcopedrosa.com.br

Saudações.

Marco Pedrosa.

Galderich disse...

Rui,
Fantàstica y resumida vida de Dickens y hermoso libro de David Copperfield.
Y que epitafio más hermoso.

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.
Dice Carlos Fuentes , "la novela es la historia privada de los pueblos" sin duda la obra de Dickens es el mejor ejemplo de tal afirmación. Muy buena introducción y excelentes imágenes de la bibliografía de Dickens, el ejemplar de David Copperfield es soberbio.
Saludos y gracias por la nota.

rui disse...

Obrigado pelos vossos comentários.
Apenas pretendi fazer uma descrição sumário da biografia de Dickens para se poder entender um pouco melhor a sua obra.
De facto o «David Copperfield» tem uma encadernação excelente, não sendo, no entanto, o livro mais raro de Dickens. (1)
Para se poderem compreender, e analisar bem os seus livros, não podemos deixar de admirar as suas ilustrações – alguns dos ilustradores podem considerar-se tão notáveis como o próprio escritor! (2)
Obrigado Marco por recordares esse expoente máximo da literatura mexicana que é Carlos Fuentes
Espero poder-vos apresentar outros livros e ilustrações para poderem compreender um pouco mais da minha atracção por este escritor (e, pelo que vejo, não só minha...). Estes eram apenas simples exemplificativos dos tipos mais correntes.
Retenham no entanto que os fascículos, em óptimas condições, e os livros com encadernações em tela são uma peça sempre muito apetecível por qualquer coleccionador dickensiano.

(1) Leia-se: Bauman Rare Books – «Catalogue October Holiday 2009»
(2) Há uma sintonia como, por exemplo, nos livros de Jorge Amado ilustrados por Carybé.

Saudações bibliófilas.