"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

terça-feira, 13 de abril de 2010

Eugénio de Castro – «Oaristos» e o simbolismo em Portugal




Eugénio de Castro

Eugénio de Castro e Almeida nasceu em 4 de março de 1869 em Coimbra e, aqui faleceu, em 17 de agosto de 1944.

Por volta de 1889 formou-se em Letras pela Universidade de Coimbra e, mais tarde, após uma curta carreira diplomática, foi professor nesta Faculdade.


Rua Ferreira Borges em Coimbra
(Onde nasceu Eugénio de Castro)

Iniciou a publicação das suas obras de poesia em 1884.

Em 1895, funda, com Manuel da Silva Gaio, a revista internacional «Arte», da qual foi director, entre 1895 e 1896, aqui foram publicados textos de escritores portugueses e estrangeiros da época, caso de Gustave Khan, Verlaine e Mallarmé.

Mais tarde, 1897, colaborou no jornal «O Dia».


Placa comemorativa na casa
onde Eugénio de Castro nasceu

Eugénio de Castro, considerado pela crítica em geral como um poeta modesto, teve um contributo evidente para a renovação da literatura em Portugal, aproximando-a das modernas concepções europeias.
Não quero deixar de citar a opinião de António Bettencourt, filólogo e estudioso da nossa literatura, mas, sobretudo, amigo e “conselheiro” de algumas das minhas “aventuras” literárias:


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
[Anterrosto com dedicatória autógrafa do autor a Remy de Gourmont]
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

“Realmente eu não aprecio muito o Eugénio de Castro, mas o Simbolismo é uma corrente muito importante a que, na época, até o consagradíssimo Guerra Junqueiro aderiu. O problema do simbolismo português é que nunca foi muito além. Não temos um poeta simbolista da dimensão de um Mallarmé ou de um Verlaine a não ser talvez Camilo Pessanha, um dos nossos maiores escritores, sem dúvida o maior dos simbolistas. Para alguns críticos é aliás o único poeta verdadeiramente simbolista.


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
(Página de rosto)
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

“Reconheço-lhe importância no decurso da Literatura Portuguesa de final de séc. XIX e início do XX, mas o Simbolismo todo feito de musicalidades, estados etéreos, etc. nunca foi algo que me motivasse grandemente.
Porque é tão importante o Simbolismo na história da Literatura? Porque pela primeira vez, em toda a literatura, a palavra perde o seu referente. Ou seja a palavra está muitas vezes na poema apenas pelo seu som e não pelo seu significado, ou está muitas vezes apenas por aquilo que simboliza e não por aquilo que significa. Isto é um corte radical com tudo o que antes existia na Literatura, é quase como aquilo que o abstraccionismo representou na pintura. Isto veio abrir o espaço e a consciência para muitos outros voos poéticos.”


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
[Na messe , que enlourece, estremece a quermesse] (1) pp 37
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

Sinceramente, isto (2) a mim diz-me pouco. Digamos que aprecio um certo trabalho do léxico, um certo exotismo requintado... Tudo vive das sonoridades, aliterações, consonâncias, etc. Não é o género de poesia que aprecio.”

A sua obra pode ser dividida em duas fases: na primeira, a fase simbolista, que corresponde a sua produção poética até o fim do século XIX.

Na história da nossa literatura, Eugénio de Castro ficará para sempre ligado à introdução do simbolismo em Portugal, quando em 1890 publica, após uma estadia em França, o seu livro «Oaristos».

Durante esta estadia em Paris, no desempenho da missão diplomática para que fora nomeado, contactou intimamente com grandes poetas simbolistas franceses. Tornou-se amigo de Jean Moréas e Henri de Régnier.
Oaristos pretendia revolucionar, do ponto de vista formal, a poesia portuguesa (introdução de inovações ao nível das imagens, da rima e do trabalho do verso em geral e exploração da musicalidade da língua, num esteticismo que visava contrapor-se à tradição romântica portuguesa).

No prólogo, o autor diz que «este livro é o primeiro que em Portugal aparece defendendo a liberdade do Ritmo contra os dogmáticos e estultos decretos dos velhos prosadistas».


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
[Na messe , que enlourece, estremece a quermesse] pp 38
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

Diz Eugénio de Castro que «o vocabulário dos Oaristos é escolhido e variado. Emprega vocábulos raros porque às perífrases prefere o termo preciso», porque pensa «como Baudelaire, que as palavras, independentemente da ideia que representam, têm a sua beleza própria».

É um «livro de revolta, feito com alma ardente e mocidade viva, pendão vermelho de combate contra a sensaboria, contra a chateza da poesia do meu tempo. (...) Livro novo, diferente de todos os livros, abrindo um caminho, achando uma solução, dizendo coisas novas por processos novos» (3).


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
[Na messe que enlourece, estremece a quermesse] pp 39
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

O seu livro é uma tomada de posição contra os lugares-comuns que caracterizavam a poesia portuguesa, as rimas habituais, o vocabulário pobre. E propõe uma «nova maneira». Não adopta os princípios filosóficos dos simbolistas franceses, a fonte de inspiração da época, nem o espirito de “décadence”, assimilou apenas o aspecto expressivo e inovador do estilo e dos temas. Nada do velho culto romântico da natureza, do idealismo amoroso, nada de emotividades exaltadas e ocas, desprezo pela postura e linguagem solenes. Horas (1891) é a sua continuação natural.
Ninguém nessa altura lhe augurou grandes êxitos, mas a verdade é que foi entusiástica a adesão ao movimento por parte de jovens poetas, como M. da Silva Gaio, A. de Oliveira Soares, Alberto de Oliveira, D. João de Castro, Julio Brandão, António Nobre, João Barreira, Justino de Montalvão, Alberto Osório de Castro, que, ao lado do mestre e sob os seus ditames, assumiram corajosa e galhardamente os títulos pejorativos de decadentes e «nefelibatas».


CASTRO, Eugénio de – Oaristos
[Na messe , que enlourece, estremece a quermesse] pp 40
Coimbra, Livraria Portugueza e Estrangeira de Manuel d'Almeida Cabral, 1890.
VIII + 51 pp. Tiragem de 300 exemplares.

Estas primeiras obras suscitaram uma acesa polémica, o que ajudou à difusão do simbolismo em Portugal, corrente apoiada e difundida pelas revistas "Os insubmissos", fundada pelo escritor em 1889, e "Boémia nova".
Nestas revistas entre os seus colaboradorescontam-se António Nobre, Alberto de Oliveira e A. Osório e Castro.
Alguns destes poetas transitaram posteriormente para outras formas de escrit e para outras revistas mais inovadoras. Mas o prestígio de Eugénio de Castro permanece intacto e o seu trabalho literário nunca esmorece.


Capa da revista «Contemporânea» n.º 5 (4)

Na segunda fase ou neoclássica, que corresponde aos poemas escritos já no século XX, vemos um poeta voltado à Antiguidade Clássica e ao passado português, revelando um certo saudosismo, característico das primeiras décadas do século XX em Portugal.

Na opinião do crítico João Mendes esta mudança para um neoclassicismo de tipo barroco deve-se a: «o temperamento sensorial de Eugénio de Castro, amante das claridades soalheiras da beleza, chamou-o para fora, distraiu-o da grande tormenta humana que ressoava no coração humanístico dos poetas. Alma helénica, harmoniosa, a época em que melhor se enquadra teria sido o Renascimento». Desta fase da sua poesia é exemplo Constança (1900).


Mais Leve que a Borboleta [Eugénio de Castro]
Contemporânea N.º 5  (5) pp. 44


Bibliografia activa:

Cristalizações da Morte (1884), Canções de Abril (1884), Jesus de Nazareth (1885), Per Umbram (1887), Horas Tristes (1888), Oaristos (1890), Horas (1891), Sylva (1894), Interlúnio (1894), Belkiss (1894), Tirésias (1895), Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), A Nereide de Harlém (1896), O Rei Galaor (1897), Saudades do Céu (1899), Constança (1900), Depois da Ceifa (1901), A Sombra do Quadrante (1906), O Anel de Polícrates (1907), A Fonte do Sátiro (1908), O Cavaleiro das Mãos Irresistíveis (1916), Camafeus Romanos (1921), tentação de São Macário (1922), Canções desta Negra Vida (1922), Cravos de Papel (1922), A mantilha de Medronhos (1923), A Caixinha das Cem Conchas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas duma Candeia Velha (1925), Éclogas (1929), Últimos Versos (1938).

Em 1987 foi publicada uma Antologia, organizada por Albano Martins.

Eugénio de Castro foi, ainda, tradutor de obras de Goethe e da “Arte de Ler”, de Émile Faguet.


Sombra e Clarão [Eugénio de Castro]
Contemporânea N.º 6 pp. 85
(Natal de 1922)

Espero que o artigo tenha sido do vosso agrado, e que a recordação deste autor, que apesar de não ser um dos grandes nomes das nossas Letras, e hoje talvez um pouco esquecido, mereça ser (re)avaliado com outro sentido critico por todos aqueles que se interessam pela nossa Literatura.

Refira-se que em termos bibliófilos é fácil encontrá-lo representado em quase todas as colecções. Vejam-se, por exemplo, os últimos catálogos de leilões.
Mas aos seus livros voltarei em breve...

Saudações bibliófilas.

(1) Este é considerado como um dos seus melhores poemas, senão mesmo o melhor, da fase simbolista.

(2) Sobre este poema: [Na messe , que enlourece, estremece a quermesse]

(3) Carta a Pinheiro Chagas sobre o seu livro «Oaristos»

(4) Desta revista mensal – «Contemporânea» – foram publicados 14 números entre 1915 e 1926. Editada por Agostinho Fernandes, foi seu director José Pacheco. Era composta e impressa na conceituada Imprensa Libânio da Silva, em Lisboa.. Encerra colaboração de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada, Camilo Pessanha, Carlos Queiroz, António Botto, Raul Leal, Mário Saa, Eugénio de Castro, Teixeira de Pascoaes, José Régio, Amadeu de Sousa Cardoso, etc. Ilustrações de Jorge Barradas, Mily Possoz, Bernardo Marques, Diogo de Macedo, Stvart e muitos outros. O n.º 14, que se encontrava inédito foi publicado por Invicta Livro em 2005. (Cf. lote 103 do Leilão da Renascimento – “Colecção Joaquim Pessoa” pp.16)

(5) Leia-se igualmente este artigo de Rita Correia “CONTEMPORÂNEA – Em Junho de 1922, quinze dias após o lançamento ...”

5 comentários:

Galderich disse...

Curiosas las dos fases de este poeta. No me lo había planteado nunca pero creo que seria más lógico pasar del simbolismo al clasicismo.
Buena entrada.

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.
Otro magnífico artículo.acompañado como siempre de bellas ilustraciones.
Saludos.

António Bettencourt disse...

Caro Rui,

muito obrigado pelas citações. Está um excelente artigo e bastante informativo sobre Eugénio de Castro. Mas quer saber uma coisa curiosa? Depois da nossa troca de impressões, reli o Oaristos e já não o achei tão detestável. Coisas da maturidade? E que tal um artigo sobre o Camilo Pessanha?

rui disse...

Estimados amigos

Galderich e Marco Fabrizio julgo ser importante divulgar os autores da literatura do meu país assim como os acontecimentos que os marcaram, ou melhor ainda, as marcas que estes deixaram na sua época.
O simbolismo, apesar da sua curta duração, marcou toda uma geração, e não só na literatura como noutras expressões de arte, e foi importante no despontar do modernismo.

António os gostos pela leitura são um pouco como os bons vinhos, com a idade vão amadurecendo e ganhando qualidades que no início passavam despercebidas...

Ah! quanto ao Camilo Pessanha isso é outra conversa, pelo que já pesquisara é um mundo a desvendar e a descrever (ou melhor dois, a sua vida em Portugal e a estadia em Macau...), quanto a livros ... só escreveu a bem dizer um: «Clepsydra«!
A ver vamos

Um abraço para vocês

Valdecy Alves disse...

Amigos poetas blogueiros, parabéns por utilizarem a internet como forma de dividir com o mundo o seu pensar, o seu compreender, desempenhando a missão do poeta que é se afirmar como ser humano, sobretudo perante si mesmo, captar os arquétipos coletivos de sua época e princípios universais, permitindo após compreender-se ou não compreender-se, que pela sua obra os da sua época tenham referência alternativa para fazer a leitura do mundo e as gerações posteriores entenderem a própria história da humanidade. Tudo temperado pelo sonho, pela sensibilidade e pela utopia. PASSOU A ÉPOCA DE ESCREVERMOS E GUARDAR NA GAVETA NOSSAS CRIAÇÕES DEPOIS DOS MAIS PRÓXIMOS FINGIREM TER LIDO PARA NOS AGRADAR. Através do meu blog quero aprensentar-lhes a video-poesia, que usa várias linguagens de uma só feita, a serviço do texto. Se gostar divulgue e compartilhe com os seus contatos. Acessar em:

www.valdecyalves.blogspot.com