"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 15 de maio de 2010

“Athena” e Fernando Pessoa – apontamentos para o estudo das revistas literárias em Portugal




Pintura (1917)

As revistas funcionam como banco de ensaios para os diversos movimentos literários, desde sempre, pois constituem os seus porta-vozes e as suas tribunas. Exemplos nítidos poder-se-iam citar dezenas.

Porém, refiro apenas alguns: o romantismo português teve no Panorama Literário e no Toucador, para não referir outros, poderosos amplificadores; o realismo, na Revista de Portugal de Eça de Queirós; o primeiro Modernismo, no Orfeu e no Portugal Futurista; o segundo Modernismo, na Presença; o neo-realismo, no Diabo, Sol Nascente e Vértice; o surrealismo na Prisma.


Revista Athena n.º 1

Ainda que os exemplos referidos sejam os mais conhecidos, trago-vos hoje a revista “Athena”.

Trata-se de uma revista de arte mensal, saída em Lisboa em Outubro de 1924 e chega aos cinco números, com direcção de Fernando Pessoa e direcção artística de Ruy Vaz. O penúltimo número de Athena sai em Janeiro de 1925, e o último, apesar de datado de Fevereiro, só sai de facto em Junho, o que se pode dever ao falecimento da morte da mãe do poeta em 17 de Março.


Fernando Pessoa

Esta é a segunda revista de que Fernando Pessoa é director, dez anos antes tinha dirigido a revista Orpheu, a qual sobrevivera apenas dois números nunca chegando a ser publicado o material reunido para o seu n.º 3.

A Athena surgiu, de certo modo apesar das divergências, no seguimento da linha de orientação do Orpheu, e constituiu um símbolo do Modernismo português, devendo-se o seu interesse literário maioritariamente aos textos de Pessoa.


Revista Orpheu n.º 1
 
Enquanto na primeira – Orpheu – tinha surgido sob o nome de Álvaro de Campos, além do seu próprio, em Athena, virá revelar finalmente os nomes de Ricardo Reis e Alberto Caeiro. É por isso que se pode dizer que existe uma grande diferença entre ambas: a primeiras é de combate e escândalo; a segunda de explanação e construção – “antes de tudo da própria heteronomia como sistema dos poetas”. (1)

Com efeito são publicados vários dos seus poemas à medida que vão saindo os números da revista.

Tem uma outra componente importante: a parte dedicada às artes plásticas e arquitectura, dirigida por Ruy Vaz, que inclui artigos e várias páginas de reproduções, e em que surgem com muito relevo Almada Negreiros e Mily Possoz.


Revista Contemporânea n.º 1
(Desenho da capa de Almada Negreiros)

Em entrevista ao Diário de Lisboa, em Novembro de 1924, Fernando Pessoa explicava que o objectivo da publicação era "Dar ao público português, tanto quanto possível, uma revista puramente de arte, isto é, nem de ocasião e início como o Orpheu, nem quase de pura decoração como a admirável Contemporânea." Tratava-se, assim, de uma alternativa no campo da revista literária, que não pretendia promover um projecto cultural, nem accionar um movimento, nem ser apreciada apenas pelo seu aspecto estético, mas sim ser um espaço de reflexão teórica, de balanço do itinerário percorrido desde Orpheu e de apresentação de novas vias para o modernismo.


Almada Negreiros
Auto-retrato
 
Contou com a colaboração de alguns modernistas, como Almada Negreiros, Mily Posoz, Lino António, António Botto, Luiz de Montalvor, Raul Leal, Mário Saa ou Mário de Sá-Carneiro (a quem é consagrado o n.° 2) (2), a colaboração literária foi em grande parte assegurada por Fernando Pessoa e pelos seus heterónimos, como já se disse: desde Ricardo Reis, cujo Livro I das Odes é publicado no n.° 1, a Álvaro de Campos, que nos n.º 2, 3 e 4 publica textos teóricos, com destaque para os "Apontamentos para uma estética não-aristotélica", à publicação, nos n.º 4 e 5, de poemas de Alberto Caeiro, até Fernando Pessoa ortónimo, com poemas, textos de reflexão estética e tradução.


Athena, História e Tempo
Solimena (1700)
Londres, The National Gallery
(Athena, deusa da sabedoria, está sentada num leão à esquerda,
e aponta um medalhão sem nada para a figura alada da História,
cujo livro é suportado nas costas do Tempo)

É nessa medida que Teresa Sousa de Almeida no prefácio à edição fac-similada de Athena (Lisboa, Contexto, 1983) vê na criação de Athena “uma encenação do escritor que planeadamente estabelece uma relação inter-textual entre textos teóricos e produções dos heterónimos”.

Deste modo, o editorial que abre o n.° 1, da autoria de Fernando Pessoa, explicando o título da publicação e o tipo de arte que preconiza, serve também de introdução à afirmação da modernidade do classicismo de Ricardo Reis: "[Os Gregos] Figuraram em a deusa Atena a união da arte e da ciência, em cujo efeito a arte (como também a ciência) tem origem como perfeição (...) é pois ao nível da abstracção que a arte e a ciência, ambas se alçando, se conjugam, como dois caminhos no píncaro para que ambos tendam. É este o império de Athena, cuja acção é a harmonia. (...) Não se aprende a ser artista; aprende-se, porém, a saber sê-lo (...) Cada um tem o Apolo que busca, e terá a Atena que buscar"


Almada Negreiros
Auto-retrato com o grupo da Brasileira (1925)

Numa breve resenha dos movimentos literários e das revistas, que foram os seus arautos, deixo estes apontamentos sobre algumas das mais marcantes no nosso panorama cultural.


Gazeta n.º 1

"GAZETA em qve se Relatam as Novas Todas, qve ovve nesta Corte, e qve vieram de varias partes do mes de Nouembro de 1641". – Em Lisboa: Na Officina de Lourenço Anueres, 1641. - [ ]//1, A//5; [6] ff.; 195 mm.
Bibliografia: Samodães, 1370; Inocêncio, III, p.137; ibidem, IX, 418; Dicionário História de Portugal, III, p. 246.
Trata-se do primeiro número do primeiro periódico português. A Gazeta é considerada a primeira publicação "que reúne as três condições indispensáveis para que uma publicação posse ser considerada jornal: periodicidade, encadeamento e conteúdo específico, diverso do livro ou do panfleto" (Dicionário História de Portugal, III, p. 246.)

No entanto, no que diz respeito às revistas “especificamente literárias”, teremos de esperar ainda mais um século.
(...) A primeira revista literária portuguesa foi publicada em 1761 e chamava-se Gazeta Literária ou notícia exacta dos principais escriptos modernos, comforme a analisys que delles fazem os melhores críticos e diaristas da Europa.(...) foi dirigida por Francisco Bernardo de Lima e publicada no Porto - os primeiros treze números - e, posteriormente, em Lisboa, durante dois anos.. No seu número de abertura, podia-se ler nomeadamente: "É a crítica uma arte que, sendo exercitada com prudência e justiça serve de apurar mais o bom gosto das Ciências e Belas-Artes, e de fazer aparecer a verdade, que as mais das vezes se encobre ainda aos olhos mais perspicazes. Com o uso dela, cuidam os Escritores em aparecer com mais decência diante do público, porque o receio de desagradarem aos críticos os obriga a buscarem as aprovações do público ..."

(...) Um enorme surto de revistas aparece com o advento do Romantismo: em Fevereiro e Março de 1822, publica-se em Lisboa, o Toucador - periódico sem política dedicado às senhoras Portuguesas, redigido por Almeida Garrett - que na altura tinha 23 anos - e por Francisco Midosi, tendo sido editados sete números e um prospecto. Redigido por Alexandre Herculano, totalizando 24 números, o Repositório Litterário - da Sociedade das Sciencias Médicas e de Literatura do Porto.

 
Revista Universal Lisbonense n.º 1


Revista Universal Lisbonense
Capa para 1841

(...) A Revista Universal Lisbonense, "jornal de interesses físicos, morais e literários", foi redigida em Lisboa por António Feliciano de Castilho ... (...) O Bardo, "Jornal de poesias inéditas", veio a lume no Porto, de 1852 a 1854 e apresenta poemas de Camilo Castelo Branco ...(...) A Revista Contemporânea de Portugal e Brasil publicou-se em Lisboa, de 1 de Abril de 1859 a Março de 1865 e teve colaboração literária de António Feliciano de Castilho, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco, Ernesto Biester, Latino Coelho, Machado de Assis, Pinheiro Chagas e Teófilo Braga. O Attila, semanário coimbrão, publicado em 1863 e 1864 prolongou-se por catorze números e teve colaboração de Antero de Quental, João de Deus e Teófilo Braga. De A Folha, "microcosmos litterário", dirigida em Coimbra por João Penha, (...) , com textos de Antero de Quental, António Feliciano de Castilho, Camilo Castelo Branco, Gomes Leal, Gonçalo Crespo, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga.


Revista Occidental n.º 1

A Revista Occidental foi dirigida por Antero de Quental e Jaime Batalha Reis (...) Em Coimbra, em 1890, publicou-se o número único da Revista Anathema que constituiu um rasgado protesto lavrado por Antero de Quental, Basílio Teles, Bernardino Machado, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco, Fialho de Almeida, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Jaime Magalhães Lima, João de Deus, João Penha, Oliveira Martins e Teófilo Braga, contra o ultimato inglês. Dirigidos por Eça de Queirós, no Porto, saíram 24 números em 4 volumes, de 1 de Junho de 1889 a Maio de 1892, da Revista de Portugal ...(...) A Revista Portuguesa foi publicada em simultâneo no Porto e em Lisboa, de Dezembro de 1894 a Maio de 1895;...(...) A Arte, publicada no Porto em 1898 e 1899, foi o "órgão do movimento intellectivo Internacional": apresenta colaboração de Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, Buhão Pato, Carlos Malheiro Dias, Columbano Bordalo Pinheiro, Eça de Queirós, Eugénio de Castro, ...(...) » (3)


Revista Presença n.º 39

« A Presença ... Esta é efectivamente a revista que sobressai entre muitas outras (...) não só pela sua continuidade - de 1927 a 1940 saíram 56 números, mas também por uma intenção de reassumir uma modernidade que, à primeira vista, parecia ser a da geração de 1915.

(...) Em alguma páginas da Presença poderíamos encontrar indicações que parecem apontar para uma tentativa de se retomar um certo tempo romântico (...) marcado por uma experiência estética mais actual, a qual se reporta tanto à evolução do Simbolismo e, sobretudo, do Decadentismo, como ao aparecimento do Expressionismo. O Simbolismo e o Decadentismo representam aquela renovada sensibilidade (...) que os presencistas, muitas vezes, souberam assumir dramaticamente numa linha expressionista.
 
(...) Ora estas direcções (...) já se prefiguravam em várias revistas dos anos 20 (...) como as revistas Tríptico e Bysancio, outras mais próximas duma tradição simbolista e decadente, como a Ícaro (1915-20) ou a Nova Phenix Renascida (1921). Nos três números de Ícaro colaboraram Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira, Cabral do Nascimento (que reaparece na Nova Phenix), Américo Cortez Pinto, Albino de Menezes (um dos colaboradores do terceiro número do Orpheu, que não saiu para o público, apesar de impresso), Alfredo Brochado, etc. (...) Esta revista [Bysancio] surge em 1923 e prolonga-se, com a publicação de seis números, até Janeiro do ano seguinte. Nela colaboraram Alexandre de Aragão, Fausto José (assina ainda Fausto dos Santos), José Régio, Vitorino Nemésio, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt, etc...


Revista A Águia n.º 1

(...) Mas nos anos 20 e 30 há outras revistas que também circulam: A Águia, que vinha de 1910 e se apresentava quase como um orgão oficial do Saudosismo, continuará a publicar-se até 1932; Dyonisos fundada por Aarão de Lacerda em 1912, continua a sair até 1928 e será continuada por Museu (1934) e Prisma (1936-41). Paralelamente, o impulso da nossa Vanguarda de 1915 está ainda presente, mas dum modo já atenuado, em revistas publicadas nos anos 20 e 30 que, de certo modo, estão na continuidade do Orpheu: Contemporânea (1922-26), Athena (1924-25), tendo esta última à sua frente o próprio Fernando Pessoa, e Sudoeste (1935), dirigida e em grande parte escrita por Almada Negreiros. E, poderíamos, talvez, falar no "semanário literário" Fradique (1934-35), onde a colaboração de António Pedro retoma um experimentalismo - a aposta numa poesia dimensionista - em que se procura um vivo sentido provocatório e de subversão de formas, embora não tenha sido totalmente logrado. Outras revistas há menos marcadas que estas.


Revista Seara Nova n.º 111
Ilustração de José Tagarro para a capa desta revista
(8 de Dezembro de 1927)
 
São as que não estão voltadas exclusivamente para o domínio da literatura: Seara Nova (a partir de 1921), Lusitânia (1924-27) (...) Diabo (1934-40) (...) Portucale (1928-62), Solução Editora (1929-31), Descobrimento (1931-32), Momento (1932-36), Ocidente (1938-73). Apontem-se finalmente duas outras direcções (...) as quais se orientam ou para o então nascente movimento neo-realista, como Sol Nascente (1937-40) ou Altitude (1939), ou para uma afirmação literária que se encontra mais próxima das intenções estéticas da revista Presença, como acontece com Sinal (1930), Manifesto (1936-38) e a Revista de Portugal (1937-40), embora as duas primeiras, onde Miguel Torga assume uma posição central, tenham nascido duma dissidência, mais ou menos clamorosa, ao tempo, que ocorreu no próprio grupo presencista.


Revista Sol Nascente n.º 1

O caso da Revista de Portugal, dirigida por Vitorino Nemésio, é diferente. (...) » (4)


Revista de Portugal n.º1
(dirigida por Vitorino Nemésio)

Aqui fica este esboço de apontamentos para vossa reflexão sobre o interesse cultural e histórico das mesmas.
Como já se devem ter apercebido, este artigo vem a propósito de algumas destas revistas terem aparecido em leilões recentes e serem invariavelmente muito disputadas.


Saudações bibliófilas.

(1) Fernando Cabral MARTINS (Coord.) – “Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo Português”. Editorial Caminho, 2008.
(2) Amigo intimo de Fernando Pessoa e com quem troca um correspondência vasta até ao seu suicídio, ocorrido em Paris, aonde vivia.
Mário de SÁ-CARNEIRO – “Cartas a Fernando Pessoa”. Lisboa, Ática, 1958-59. 2 vols.
(3) Daniel PIRES – "Dicionário das Revistas Literárias Portuguesas do Século XX". Contexto Editora, 1986
(4) Fernando GUIMARÃES – "Revistas Literárias dos Anos 20 e 30". Publicado no N.º 3, da Revista Sema, Outono de 1979.

2 comentários:

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.

¡Excelente artículo!

Los impresos publicados en los veintes del siglo pasado son de mis favoritos. Tratándose de revistas literarias, las cualidades se multiplican tanto por el contenido como por los diseños y recursos tipográficos utilizados. Las portadas de "Contemporáneos" "Athena" y "Orpheus" sorprendentes.



Saludos.

rui disse...

Marco
Gracias por tu comentario.
Estas revistas / periódicos son de grande interés para el estudio de la cultura y literatura de esto periodo.
La mayoría tiene la colaboración de artistas plásticos (por ejemplo Almada Negreiros) que le dan otro interés además del bibliófilo.
Te invito a leer todos los ejemplares de “Contemporánea” para poderes hacer una buena idea del desarrollo intelectual en Portugal (tienes el enlace para los ejemplares digitalizados…)
Un fuerte abrazo.