"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

terça-feira, 25 de maio de 2010

Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro




Real Gabinete Português de Leitura
Fachada

O Real Gabinete Português de Leitura, tradicional biblioteca e instituição cultural lusófona, situa-se na rua Luís de Camões bem no centro da cidade do Rio de Janeiro, Brasil.

Pelo seu prestígio nos meios intelectuais, pela beleza arquitetónica do edifício da sua sede, pela importância do acervo bibliográfico (reúne cerca de 350 mil livros catalogados) e ainda pelas actividades que desenvolve, o Real Gabinete Português de Leitura é, a todos os títulos, uma instituição notável.

A instituição foi fundada em 14 de Maio de 1837, por um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro - e sublinhe-se acontecimento se deu somente 15 anos depois da Independência do Brasil – que se reuniram na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), n.º 20, e resolveram criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos dos seus sócios e promover a cultura entre a comunidade portuguesa aqui residente.


Real Gabinete Português de Leitura
Portada - Pormenor

Entre esses homens, cuja maioria era composta de comerciantes da praça, e onde figuravam alguns refugiados políticos, que haviam sido perseguidos em Portugal pelo absolutismo e que tinham emigrado para o Brasil, como era a situação de José Marcelino Rocha Cabral, advogado e jornalista, que iria ser eleito o primeiro presidente da instituição.

Entre os seus fundadores para além de José Marcelino da Rocha Cabral devem referir-se também os nomes de Francisco Eduardo Alves Viana e José Maria do Amaral Vergueiro.
O edifício da actual sede foi concebido por Rafael da Silva e Castro, arquitecto português, no estilo neomanuelino. Teve como principal preocupação realçar a majestade do monumento. Também a obra de cantaria bem como os adornos internos incluindo-se um magnífico lustre datado do século anterior, foram trazidos de Portugal.

Este estilo evoca o exuberante estilo gótico-renascentista vigente na época dos Descobrimentos portugueses, denominado como manuelino em Portugal por haver coincidido com o reinado de D. Manuel I (1495-1521).


Real Gabinete Português de Leitura
Clarabóia e lustre

Aquando das comemorações do Tricentenário de Camões, 10 de junho de 1880, teve lugar o lançamento da primeira pedra para a construção do edifício. Foi o ponto alto da cerimónia. A pedra foi, simbolicamente, transportada por D. Pedro II, seguido pelo Ministro do Império, Barão Homem de Melo, o Presidente da Câmara Municipal, Adolfo Bezerra e o então presidente do Real Gabinete, Eduardo Rodrigues de Lemos.

A sua filha, a Princesa Isabel, acompanhada pelo seu marido, o Conde d'Eu, inauguraram-no em 10 de setembro de 1887,


Real Gabinete Português de Leitura
Fachada iluminada

A fachada, inspirada no Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa, foi trabalhada por Germano José Salle em pedra de lioz em Lisboa e trazida de navio para o Rio. As quatro estátuas que a adornam, retratam na seguinte ordem: Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Infante D. Henrique e Vasco da Gama, e os medalhões, os escritores Fernão Lopes, Gil Vicente, Alexandre Herculano e Almeida Garrett.

O interior também segue o estilo neomanuelino nas portadas, estantes de madeira para os livros e monumentos comemorativos. O tecto do Salão de Leitura tem um belo candelabro e uma clarabóia em estrutura de ferro, o primeiro exemplar desse tipo de arquitectura no Brasil. O salão possui também um belíssimo monumento de prata, marfim e mármore (o Altar da Pátria), de 1,7 metros de altura, que celebra a época dos descobrimentos, realizado na Casa Reis & Filhos no Porto pelo ourives António Maria Ribeiro, e adquirido em 1923 pelo Real Gabinete.

Aberta ao público desde 1900, a biblioteca do Real Gabinete possui a maior colecção de obras portuguesas fora de Portugal.
Em 12 de setembro de 1906, um decreto do Governo português autorizou a instituição a denominar-se "Real Gabinete Português de Leitura" e foi, mais tarde, considerada de utilidade pública.

Em 15 de Março de 1935, pelo decreto nº25.134, o governo português concede ao Real Gabinete o benefício de receber de todos os editores portugueses um exemplar das obras por eles impressas. Esse estatuto permite uma actualização permanente da biblioteca em termos do que se edita em Portugal.

É a única biblioteca fora do território português que recebe um exemplar de todas as obras impressas em Portugal.


Real Gabinete Português de Leitura
Sala de Leitura

No salão nobre localiza-se 36 brasões de armas que assinalam as casas e as cidades de Portugal no Continente e nas Províncias. Sua biblioteca está contida num grande salão, forrado de estantes em madeira, que  se dividem em mais de 4 mil compartimentos.
O Real Gabinete possui a mais completa colecção de livros do Continente havendo inclusive, obras completas de quase todos os intelectuais portugueses, bem como trabalhos sobre os seus artistas e poetas. Além disso, é de grande importância o número e a qualidade de obras estrangeiras que ali se encontram.

Pelos seus corredores transitaram também, alguns dos maiores nomes da cultura brasileira. Machado de Assis, por exemplo, comparecia periodicamente ao salão de leitura para realizar consultas demoradas. Outros como João do Rio, Pedro Calmon, Macedo Soares, Gustavo Barroso e Gilberto Freire, também foram seus frequentadores.

Quanto aos portugueses, refira-se que Gago Coutinho, Ferreira de Castro, Hernani Cidade e Damião Peres também fizeram o Real Gabinete Português, o seu ponto ideal para estudos.


Real Gabinete Português de Leitura
Biblioteca

Entre os cerca de 350.000 volumes, nacionais e estrangeiros, encontram-se obras raras como um exemplar da edição "princeps" de "Os Lusíadas" de Camões (1572), que pertenceu à Companhia de Jesus, as Ordenações de D. Manuel (1521), os Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram (1539), a Verdadeira informaçam das terras do Preste Joam, segundo vio e escreveo ho padre Francisco Alvarez (1540), um manuscrito da comédia "Tu, só tu, puro amor" de Machado de Assis, um manuscrito de "Amor e Perdição" de Camilo Castelo Branco, "Viagens do Brasil", de Debret, com gravuras do artista. entre muitas outras.

No seu interior tem uma importante colecção de pinturas de José Malhoa, Carlos Reis, Oswaldo Teixeira, Eduardo Malta e Henrique Medina.

O Real Gabinete edita a revista Convergência Lusíada (semestral) e promove cursos sobre Literatura, Língua Portuguesa, História, Antropologia e Artes, destinados principalmente a estudantes universitários.


Machado de Assis (c. 1880)

A história da Academia Brasileira de Letras (1) também se encontra ligada à do Real Gabinete, uma vez que as cinco primeiras sessões solenes da Academia, sob a presidência de Machado de Assis, foram aqui realizadas.

Espero que este breve resenha vos tenha despertado o interesse, pois prometo voltar com mais informações sobre a sua actividade e investigadores a ela ligados.

Saudações bibliófilas.


(1) A Academia Brasileira de Letras é uma instituição fundada no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1897 pelo escritor Machado de Assis, por iniciativa de Lúcio de Mendonça. Composta por 40 membros efectivos e perpétuos e 20 sócios estrangeiros, tem por fim "o cultivo da língua e a literatura nacional".

3 comentários:

Galderich disse...

Sin lugar a dudas una de las bibliotecas más hermosas del mundo.
Y de su contenido... ¡qué decir!
Me gustó esto que recibe un ejemplar de cada libro publicado en Portugal a pesar de estar en Brasil.

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.

Un edificio verdaderamente precioso.

¡No podía existir mejor nombre para la calle en la que se encuentra que Luis Camoes!

Saludos.

rui disse...

Caros Galderich e Marco Fabrizio
Há acasos, encontros/desencontros, na vida que nos fazem repensar aquilo que de bom se tem feito.
Após troca de informações com um investigador brasileiro, esta fez-me recordar o Real Gabinete, que já conhecia de leituras e outras citações, e pareceu-me ser importante deixar um breve apontamento sobre a sua história.
É de facto uma das mais belas Bibliotecas (figura entre as 20 mais belas) do Mundo. Quanto ao seu acervo é notável sobretudo para a cultura de língua portuguesa (onde incluo obviamente a brasileira).
Será um tema a não perder de vista...
Um abraço