"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 26 de junho de 2010

Graciliano Ramos – Características da Obra: aspectos bibliográficos e bibliófilos



Para Marco Pedrosa
pelo seu contributo
que conseguiu estreitar o oceano
o meu agradecimento


Graciliano Ramos

Graciliano Ramos foi um escritor extremamente cuidadoso, quanto à forma de seus livros. Rescrevia os seus livros sem cessar, procurando retirar deles tudo àquilo que considerasse excesso. De estilo delicado Graciliano sempre foi considerado como exemplo de elegância e de elaboração.
O estilo formal de escrita e a caracterização do eu em constante conflito (até mesmo violento) com o mundo, a opressão e a dor são as marcas das suas obras.


O estilo formal de escrita

De maneira geral, os seus romances caracterizam-se pelo inter-relacionamento entre as condições sociais e a psicologia das personagens; ao que se soma uma linguagem precisa , “enxuta” e despojada, de períodos curtos mas de grande força expressiva.


Cahetes (1ª edição)

O seu romance de estreia, “Caetés” (1933), gira em torno de um caso de adultério ocorrido numa pequena cidade do interior nordestino e não está à altura das obras subsequentes.


 S. Bernardo (1ª edição)

“São Bernardo” (1934), uma de suas obras-primas, narra a ascensão de Paulo Honório, rico proprietário da fazenda São Bernardo. Com o objectivo de ter um herdeiro Paulo Honório casa-se com Madalena, uma professora de ideias progressistas. Incapaz de entender a forma humanitária pela qual a mulher vê o mundo, ele tenta anulá-la com seu autoritarismo. O ciúme e a incompreensão de Paulo Honório levam-na ao suicídio. Com este personagem, Graciliano Ramos traça o perfil da vida e do carácter de um homem rude e egoísta, do jogo de poder e do vazio da solidão, em que não há espaço nem para a amizade, nem para o amor. Trata-se de um romance admirável, não só pela caracterização da personagem, mas também pelo tratamento dado à problemática da “coisificação” dos indivíduos.


Angústia (1ª edição)

“Angústia”, é a história de uma só personagem, que vive a remoer a sua angústia por ter cometido um crime passional.

O livro “Vidas Secas” (1) mantém uma estrutura descontinua não-linear, como que reafirmando o isolamento, a instabilidade da família de retirantes. Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia.

Formado por treze capítulos que sem nexo lógico, o enredo de “Vidas Secas” organiza-se principalmente pela proximidade, pelo primeiro: Mudanças – a chegada da família de retirantes a uma velha fazenda abandonada arruinada – e o último, Fuga – a saída da família, que diante de um novo período de seca, foge para o sul.


Vidas Secas (1ª edição)

Além da tortura gerada pela lembrança do passado e pelo medo do futuro, o romance foca outras faces da opressão que se exerce sobre os membros da família.
A questão central do romance não está nos acontecimentos, mas nas criaturas que o povoam nas gravuras de madeira. O narrador vai revelando a sua humanidade embotada, confundida com a paisagem áspera do sertão, neste romance transcende o regionalismo e seu contexto específico – a seca do Nordeste, a opressão dos pobres, a condição animalesca em que vivem e para esculpir o ser humano e universal.


Memórias Do Cárcere: I – Viagens (1ª edição)

Entre suas obras auto-biográficas, destaca-se “Memórias do Cárcere” (1953), depoimento sobre as condições dramáticas de sua prisão durante o governo do ditador Getúlio Vargas. Num dos seus outros livros autobiográficos "Infância", refere-se assim a seus pais: "Um homem sério, de testa larga (...), dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza (...), olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura".


 Memórias Do Cárcere: II – Pavilhão dos Primários (1ª edição)

O crítico António Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias:

  • a) Romances narrados em primeira pessoa (“Caetés”, “São Bernardo” e “Angústia”), nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana, ao lado do retrato e da análise social.

  • b) Romance narrado em terceira pessoa (“Vidas Secas”), no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência, segundo uma visão distanciada da realidade.

  • c) Autobiografias (“Infância” e “Memórias do Cárcere”), em que o autor se coloca como problema e como caso humano; nelas transparece uma irresistível necessidade de depor.  
Numa análise final este crítico afirma:

"(...) no âmago da sua arte, há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, é que tanto os personagens criados quanto, em seguida, ele próprio, são projecções deste impulso fundamental, que constitui a unidade profunda dos seus livros."
Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca, o latifúndio, o drama dos retirantes, a caatinga, a cidade. Seus personagens são seres oprimidos, moldados pelo meio - Luís da Silva, pela cidade; Paulo Honório e Fabiano, pelo sertão.
E, dentro das estruturas vigentes, não há nada a fazer a não ser aceitar a força do "inevitável". Daí Rolando Morel Pinto, em brilhante tese sobre o autor, afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e, principalmente, na palavra inútil:
"Parece que, dentro da posição pessimista e negativista do autor, segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejam, mas o que as circunstâncias impõem, gestos, intenções, desejos e esforços, tudo se torna inútil."
"A única saída seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição, o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos, estes últimos símbolo da ditadura de Vargas. "

Do ponto de vista formal, Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Em seus textos enxutos, a concisão atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. Trabalha a narração com a mesma mestria, tanto em primeira como em terceira pessoa.


Memórias Do Cárcere: III – Colónia Correcional (1ª edição)

Finalmente, vamos tentar uma abordagem dos livros de Graciliano Ramos na perspectiva do bibliófilo, ou seja, pela sua procura, como autor de colecção, e raridade (2) das suas obras, pois quanto às suas características literárias já se deu alguma noticia.

No que concerne às edições de Graciliano Ramos, apenas as primeiras edições de cada obra dele atingem cifras altas e mesmo alguma outra edição com características extrínsecas distintas.
Isto deve-se ao facto de ele ainda ser um autor muito lido no Brasil. Os seus livros fazem parte, há anos. de bibliografias de concursos de ingressos nas universidades e ainda fazem parte de currículos de várias disciplinas. Razão pela qual as edições se têm multiplicado ao longo dos anos.

Graciliano Ramos – Cahetés. Rio de Janeiro, Editora Schmidt, 1933, 1ª edição. Encadernação original brochura. 229 pp. (R$ 1.350,00)

Graciliano Ramos – S. Bernardo. Rio de Janeiro, Ariel, 1934. 1ª edição. Encadernação original brochura. 218 pp. (R$ 595,00)

Graciliano Ramos – Angústia. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1936, 1ª edição. Capa de Santa Rosa. Encadernação original brochura. 268 páginas. (R$ 475,00)

Graciliano Ramos – Vidas Secas. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1938. 1ª edição. (nenhum exemplar da 1ª edição encontrado à venda)



Brandão entre o Mar e o Amor (1ª edição)

Aníbal Machado, Graciliano Ramos e Outros – Brandão Entre o Mar e o Amor. Rio de Janeiro, Livraria Martins Editora, s.d. (1942). 1ª edição. Encadernação original brochura. 154 pp. (R$ 210,00)
Romance escrito por Aníbal Machado, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Raquel de Queiroz.

 
Infância (1ª edição)

Graciliano Ramos – Infância. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1945. 1ª edição. Encadernação original brochura. 279 (3) pp. (R$ 80/155,00)


Histórias Incompletas (1ª edição)

Graciliano Ramos – Histórias Incompletas. Rio de Janeiro, Livraria do Globo, 1946, 1ª edição. Encadernação original brochura. 145 pp. (R$ 220,00)


Insónia (1ª edição)

Graciliano Ramos – Insónia. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1947. 1ª edição. Encadernação original brochura. 188 pp. (R$ 70,00)


 Memórias Do Cárcere: IV – Casa de Correcção (1ª edição)

Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere. (póstuma). Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1953. 1a.edição. Encadernação original brochura. 4 vols., il. 231, 243, 234 e 164 pp.
Volume I: Viagens, Volume II: Pavilhão dos Primários, Volume III: Colónia Correcional e Volume IV: Casa de Correcção. (R$ 300,00/500,00 – Obra rara)

Graciliano Ramos – Viagem: Checoslováquia – URSS. (póstuma). Rio de Janeiro, José Olympio Editora, n.d. (1954) 1ª Edição. Edição ilustrada, capa de Cândido Portinari Encadernação original brochura. 200 pp. (R$ 150,00)


Alexandre e outros heróis (1ª edição)

Graciliano Ramos – Alexandre e outros heróis. (póstuma). Rio de Janeiro, Livraria Martins Editora, 1962. 1ª edição. Capa de Clóvis Graciano. Encadernação original brochura. 184 pp. (R$ 55,00/150,00)


Linhas Tortas (1ª edição)

Graciliano Ramos – Linhas Tortas: crónicas. (póstuma). Rio de Janeiro, Livraria Martins Editora, 1962. 1ª edição. Capa de Clóvis Graciano. Encadernação original brochura. 282 pp. (R$ 40,00/120,00)
(O livro praticamente reúne toda a produção do autor no género crónicas.)



Viventes de Alagoas (1ª edição)

Graciliano Ramos – Viventes de Alagoas (póstuma). Rio de Janeiro, Livraria Martins Editora, 1962. 1ª edição. Encadernação original brochura. 184 pp.

Graciliano Ramos – Cartas. (póstuma). Rio de Janeiro, Record, 1980. 1ª edição. Encadernação original brochura. 208 p. il desenhos Cândido Portinari... [et al.]; caricaturas de Augusto Rodrigues, Mendez, Alvarus, fac-síms., retrs. (Obra rara)

Graciliano Ramos – Cartas a Heloísa. (póstuma). São Paulo, SMC. Dep. de Bibliotecas Públicas, 1992. 1ª edição. Encadernação original brochura. 85, (6) pp. : il. retrs. Edição comemorativa do centenário de Graciliano Ramos.

Espero que estes apontamentos sejam de algum proveito para todos aqueles que queiram aprofundar um pouco mais sobre o estudo da sua obra, bem como para os bibliófilos que tenham em apreço a sua obra e este autor seja um dos seus eleitos para coleccionismo.

Para mim, foi muito gratificante a sua realização, pois permitiu-me estabelecer contactos com estudiosos brasileiros e conseguir ampliar um pouco mais os meus conhecimentos.

Saudações bibliófilas.


Bibliografia passiva para consultas posteriores:

Sobre a obra de Graciliano Ramos:

MAIA, Prof. Dr. João Roberto – “Apontamentos sobre a obra de Graciliano Ramos”

MEDEIROS, Ana Vera Raposo de e MACIEL, Sheila Dias – “A Configuração das Memórias em “S. Bernardo” e “Memórias do Cárcere”

Sobre a Livraria José Olympio Editora, que por si só merece um estudo, sugiro a consulta de:

  
Cartaz da Exposição da Livraria José Olympio
(Exposição na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro)

“José Olympio: uma instituição feita de homens e livros.” – um descritivo da Exposição em curso na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.


(1) O romance originalmente chamar-se-ia "O Mundo Coberto de Penas", título do penúltimo capítulo, em referências às penas negras dos corvos cobrindo o chão seco. No texto original está escrito assim. Porém o próprio Graciliano Ramos riscou o título original e escreveu à mão "Vidas Secas".


(2) Os preços apresentados são apenas os encontrados em alguns “sebos” / livreiros-antiquários e, como tal, constituem mera referência para se poder aquilatar da sua raridade. Como o grau de conservação não é sempre o melhor é evidente que para exemplares em muito bom estado os valores deverão ser mais elevados.

6 comentários:

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Excelente complemento al artículo anterior, la información que proporcionas será de gran utilidad para los interesados en las primeras ediciones de Graciliano Ramos.

El diseño de las portadas de "Cahetes","Vidas secas" y las de "Memorias do Carcére" me parecen muy atractivas.

Momento muy adecuado para recordar a un autor que afirmó que:
"El fútbol es una hoguera de paja"


Saludos bibliófilos.

rui disse...

Amigo Marco Fabrizio

Obrigado pelo teu comentário.
Penso que a literatura brasileira e portuguesa, para além da língua, têm outras raízes e tendências comuns, ainda que as suas vivências sejam obviamente diferentes.

É um pouco nesse sentido que escrevi este, e provavelmente escreverei outros artigos, sobre escritores brasileiros.

Não quero deixar passar esta oportunidade para transmitir o meu pesar sobre o que aconteceu em Quebrangulo, Alagoas.

Primeiro, e fundamentalmente, pelo sofrimento humano que a população atravessa com as perdas que a atingiram; e claro, que como bibliófilo, lamentar profundamente o que sucedeu ao espólio de Graciliano Ramos na biblioteca da cidade, onde estavam as primeiras edições das suas obras, algumas autografadas, o que não seria tão incomum se não fosse o facto de que Graciliano na sua misantropia odiava autografar livros o que só fez para uns poucos amigos, portanto autógrafos do "velho Graça" são raríssimos.

Eis o relatava o “Jornal de Notícias”:

“O Jornal Nacional foi a Quebrangulo, em Alagoas, onde nasceu o romancista Graciliano Ramos. Ele escreveu “Vidas Secas”, mas foi a água que destruiu as ruas centrais da sua cidade natal.
A marca da enchente chegou bem perto da fotografia de Graciliano Ramos, na parede da biblioteca municipal que tem o seu nome. Mas a obra do autor e todos os outros livros foram destruídos. A correnteza passou por dentro dela.

Toda a parte interna da biblioteca ainda está coberta de lama. Andrea Maia, secretária de Educação da cidade, lamenta: “Tudo isso foi destruído e o que restou não tem condições nem de reaproveitar”.

“Linhas Tortas”, “Vidas Secas”, “Angústia” são obras de Graciliano. Ele tinha inspiração na vida triste do povo nordestino. Mas nenhum drama tão mais real quanto às enchentes nas cidades alagoanas.

Três pontes foram destruídas, os trilhos da linha férrea ficaram completamente retorcidos, postes de iluminação pública estão no chão, mais de 800 casas foram invadidas pela cheia do Rio Paraíba. Vidas secas, com tanta chuva, na terra de Graciliano.”

Um abraço

PS: O meu agradecimento ao Marco Pedrosa por me dar pormenores do acontecido.

Angelo disse...

Caro Rui, excelente texto e uma preciosidade para aqueles que desejam se dedicar a colecionar os livros de Graciliano Ramos.

Apenas acrescentaria que a razão para que apenas as primeiras edições de suas principais obras alcancem valores significativos não é exclusivamente as muitas publicações anteriores.

A bibliofilia, no Brasil, é bastante incipiente, quando comparada com a européia (ou a portuguesa, sendo mais específico).

Bom, sorte a nossa que moramos por aqui e podemos adquirir obras muito interessantes, gastando (relativamente) pouco.

Abraços de longe.

rui disse...

Obrigado pelo comentário.

Em minha opinião, as 1ª edições das obras de Graciliano Ramos são raras, não pelo elevado número de edições posteriores, mas porque ele só teve o seu valor verdadeiramente reconhecido depois de morto (morreu pobre e doente) e, com o seu feitio de misantropo com difícil relacionamento, ainda complicava mais a situação, pelo que estas tinham tiragens muito pequenas e daí o reduzido mumero que sobreviveram até aos nossos dias.

Se a procura crescer, como penso que acontecerá, o seu valor subirá bastante.

Abraços deste lado do oceano.

Angelo disse...

Caro Rui, aproveito para lhe fornecer o link de um vídeo sobre colecionismo de obras de Graciliano Ramos: http://www.youtube.com/watch#!v=LIpZPAfhtV8&feature=channel

Abraços de além-mar,

Angelo

rui disse...

Caro Angelo:

Obrigado pelo excelente link que referenciou.

Bastante completo e informativo o trabalho de Luís Pio pelo seu apanhado da obra completa do escritor Graciliano Ramos.
Bela colecção de livros da qual retive o exemplar da 1ª edição de “Vidas Seccas” com dedicatória autografa do Graciliano ... uma raridade dupla!

A reter também a raridade de “A Terra dos Meninos Pelados” – livro infantil, que, como ele próprio afirma, raramente se guardam e daí a dificuldade de se encontrarem.

Um abraço