"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um livro dificil...

Quero apresentar-vos hoje um livro do século XVI, que considero difícil, não pela sua extrema raridade, é efectivamente um livro raro e de uma grande qualidade tipográfica do qual não tenho conhecimento de que tenha sido vendido algum exemplar nos últimos 30 anos, mas sobretudo pela sua classificação e data de tiragem...o que constitui um grande desafio para qualquer bibliófilo.
Trata-se de:

AEMILIUS (PAULUS) - PAULI AEMILII VERONENSIS DE REBUS GESTIS FRANCORUM. LIBRI IIII.

Regio privilegio cautum est nequis intra triennium in Regno Franciae hoc opus rursus imprimat:aut alibi impressum vendat.

Venundantur in aedibus Iodoci Badii Ascensii. s.l.n.d. (Paris, Josse Bade, ca 1516-1519)


Nascido em Verona, Paolo Emili veio para França durante o reinado de Carlos VIII. Pensionista do rei desde 1489, foi encarregue de redigir um História da Monarquia Francesa, em latim. Levou quase trinta anos na sua redacção: os seis primeiros livros apareceram em 1517 e 1519 (edições consideradas raras); a sequência, redigida, conforme as suas notas, pelo seu amigo Zavarizzi, foram anexadas às edições de 1539 e 1544.

Josse Badius Ascensius (1462-1535), nascido em Lyon foi um impressor famoso assim como um grande humanista.


Trata-se de um volume pequeno in-fólio (30 x 21,5 cm) de CCLXXXVIII fls. incluindo o titulo. Título com uma cercadura historiada gravada em madeira, com a marca do impressor (imagem do sua oficina). Encadernação inteira de pele castanha com decorações a frio (restauro antigo na lombada), as capas tem algum desgaste esbatido, mas a encadernação mantem-se bastante sólida. O interior é impecável sem manchas ou picos de humidade. Exemplar com grandes margens.




Apresenta um ex-libris manuscrito dos Camilianos, nome usual da Ordem dos Ministros dos Enfermos (MI), fundada em 1590 pelo religioso italiano S. Camilo de Lellis e voltada à assistência espiritual e corporal dos doentes. Um outro ex-libris manuscrito, com nome não decifrável, mas com caligrafia do início do séc. XVI, (provavelmente o seu primeiro proprietário), carimbo de tinta antigo com D e M, com uma cruz, inscritos dentro de um círculo (provavelmente anterior ao séc. XVIII) e o ex-libris de Mathieu Lützenkirchen (1862-1924) actor dramático austríaco.

Estas marcas permitem-nos seguir um pouco o percurso e a posse do livro.




Mas agora é que começa a dificuldade bibliófila da sua datação, pois esta só é possível, segundo Ph. Renouard fazer-se de acordo com o número de folhas do exemplar.

Resumidamente:
1º estado: CXXIIII fls. O volume só contem os quatro primeiros livros
2º estado: CXXIIII fls. O volume contem os sete livros, em vez dos quatro.
3º estado: CCLXXXVIII fls. Compreende os nove livros
4º estado: A colação é a mesma, que a do terceiro estado, mas os quatro primeiros livros e o título são de uma nova impressão com os erros assinalados nos estados anteriores corrigidos.
5º estado: Idêntico ao quarto, mas a Operis impressi recognitio, as adendas, etc., são suprimidas e substituídas por uma nova errata, em 2 fls. assinaladas * : In septem libris reponenda. // colocado no fim do volume, depois do nono livro. Estas duas fls. faltam neste exemplar. Uma carta de Erasmo a Josse Badius, de 21 fevereiro de 1517 (n. st.) indica que os quatro primeiros livros estavam já publicados nesta data; uma outra carta de Pierre Aegidius a Erasmo, de 19 junho de 1519 informa que nesta época: Paulus Aemilius reliquos historiarum suarum libros formulis excudendos Badio tradidit.

Concluo tratar-se da obra no seu quinto estado, com a falta das referidas folhas de errata, e como tal impressa entre 1516 e 1519, muito provavelmente em 1518.



Referências : Ph. Renouard, Bibliographie des impressions de Josse Badius Ascencius (1462-1535), Paris, 1908, voir tome II, p. 2-3. Michaud, Biographie universelle, tome XIII, p. 119-120 (éd. 1815).
Quero expressar aqui a minha gratidão aos meus amigos Bertrand H.- R. e a Alain M., pela sua preciosa colaboração, sem as quais não poderia ter escrito este artigo


No entanto, apesar da minha exposição, os livros em latim só devem merecer a nossa atenção quando impressos pelos grandes impressores Josse Bade, Alde, Estienne, Colines, Kerver, etc., visto a sua procura não ser a mesma de há alguns anos atrás (ler latim é sempre um grande problema, e, como sempre disse, um livro vale, sobretudo, pelo prazer da sua leitura!)

Como curiosidade, anexo a Ficha de Identificação deste mesmo livro na Biblioteca Nacional de França:

Emili , Paolo (1460-1529) , Auteur
Titre
Pauli Aemilii Veronensis De Rebus gestio Francorum libri IV...
Publication
[Parisiis] : vaenundantur in aedibus Jodoci Badii , [circa 1518]
Description
287 [sic pour 288]-[2]ff. : titre dans un encadr. gravé 2°
Notes
H 146
Impr. par., II, 751
Moreau, Inv. éd. par., II, 1810
Renouard, Badius, II, pp. 2-3
Marque de Bade (Renouard, 22, état IV]
Ed. comprenant les 8e et 9e livre, probablement citée dans une lettre d'Erasme du
19 juin 1518)

Obrigado pela vossa paciente leitura e comentários

8 comentários:

Galderich disse...

Como dices un ejemplar con una hermosa tipografia y unas hermosas capitulares.
El grabado de la imprenta de la portada es maravilloso.
Gracias Rui por compartir la investigación intentado concretar la edición a la que corresponde.

lamberto palmart disse...

Estimado Rui, hay ocasiones en las que el hecho de que un libro esté escrito en latín y nos dificulte la lectura hasta limites insospechados no es impedimento para apreciarlo. En este caso hay multitud de factores que lo hacen un libro delicioso. Su sobria encuadernación, sus multiples sellos y marcas de propiedad, que son referencia del camino recorrido por el tiempo. Y que decir del interior, amplio, limpio y marginoso, con esa tipografía clara y precisa, las preciosas y anudadas capitulares que tanto me recuerdan a las de Diego Gumiel o Erhardt Ratdolt.

Elementos suficientes para sumergirnos en el difrute de un libro del XVI. ¡Enhorabuena por tu ejemplar!

Saludos bibliófilos.

rui disse...

Gracias Galderich y Lamberto por vuestros comentarios.
Pero, como añade hoy, he olvidado ayer, los libros en latín son siempre difíciles de lectura.
Yo presenté este solamente por su calidad tipográfica y, sobretodo, pelo problema de identificación qué pone al bibliófilo.
Se disfruta el placer de su aspecto, pero no de su lectura, para mí lo más importante!
Un abrazo

DIEGO MALLÉN disse...

¡Qué libro tan estupendo y en que condición lo presentas! Las prensas de J. Badius fue uno de los grandes impresores franceses, con clarísima influencia humanista en su quehacer: la tipografía de sus obras, lo cuidado de su composición, las bellas capitulares hacen patente la buena calidad y la preocupación del impresor por ofrecer obras elegantemente impresas.

Viendo otros ejemplares salidos de sus prensas pienso que es común en ellos el bello grabado xilográfico de la portada mostrando una imprenta de la época y la prensa en pleno funcionamiento.

La condición de tu ejemplar es estupenda conservando la encuadernación original, siempre aspecto bien difícil cuando caminamos entre ejemplares de comienzo del siglo XVI.

Enhorabuena por el ejemplar y por la colación.

Saludos bibliófilos.

Bertrand disse...

Bonjour Rui,
le livre, cet amant infidèle, que vous croyez tenir dans vos bras et puis qui finit sur les rayons d'un inconnu...
cela me fait toujours cet effet étrange lorsque je revois quelques temps après un livre qui sort de mes rayons...

Amitiés,
Bertrand

rui disse...

Diego te agradezco tu comentario.
El grabado xilográfico de la portada mostrando una imprenta de la época y la prensa en pleno funcionamiento, es la marca del impresor.
Saludos bibliófilos.

rui disse...

Bonsoir Bertrand
Dans mon opinion, un livre qui nous laisse, pour habiter dans une autre maison, dans ce cas je crois que n’est pas chez un inconnu, est toujours un grand dégout pour nous, mais doit être avec un certain orgueil quand nous le verrons de nouveaux bien soigné et partagé avec les autres bibliophiles…
Amitiés.
Rui

Bertrand disse...

Vous avez raison Rui.

C'est la vie d'un livre, à tous et à personne. C'est ainsi que le livre et son histoire nous permet de relativiser beaucoup de choses sur cette pauvre terre sur laquelle nous ne sommes que des passagers clandestins...

B.