"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

domingo, 24 de maio de 2009

Encadernação: Gravadores esses desconhecidos.

Proponho-vos hoje uma análise diferente sobre a encadernação. Vamos ver o grupo de artesões, mais esquecidos, mas não menos importantes, envolvidos na sua confecção.


Quando se olha para um conjunto de livros como este somos forçados a admirar a sua diversidade de tipos e estilos de encadernação.
Primeiramente, analisamos os materiais: temos encadernações em tecido, percalina e, evidentemente, em pele.
Depois, com mais cuidado, interrogamo-nos sobre os seus encadernadores: serão encadernações assinadas?
E, perante esta análise, ressalta-nos logo outra dúvida, de que época são estas mesmas encadernações, em face da diversidade de tipos presente?

Curiosamente, ninguém se vai interrogar sobre um dos pontos fundamentais para a estética deste conjunto...quem fez os ferros de dourar?
Os gravadores, são os verdadeiros herdeiros dos primeiros encadernadores, feitas pelos ourives, quando estas eram feitas em marfim cinzelado ou prata lavrada e com incrustações de pedras preciosas.

Antes da invenção da técnica de impressão, os manuscritos, livros das horas, e missais, eram enriquecidos por coberturas em marfim esculpido, ou de prata com incrustações de gemas minerais. Mesmo após a invenção da impressão, esta ocupava-se somente das folhas do livro, toda a decoração adicional era privilégio do ourives.
Por exemplo, Benvenuto Cellini recebeu seis mil coroas para realizar a capa dourada, gravada e enriquecia com pedras preciosas, que fez para um livro que o de Cardial de Medici quis oferecer a Carlos V.


Florão do Século XVII
Em França, onde a encadernação teve grande expansão e desenvolvimento, depois das experiências italianas, os ourives reivindicaram o monopólio de encadernar, e também de negociar nos materiais mais finos para esse efeito.
O ferro de dourar, ou matriz de impressão a quente, igualmente nomeado ferro “para imprimir” (porque não há ainda a adição da folha de ouro), aparece no século XII, na Europa da Idade Média.
Florão de canto do Século XVIII

Os ferros na sua origem todos eram gravados em partes côncavas. Nomeia-se hoje em dia este estilo “monástico”, porque a utilização deste instrumento era feita, na época, pelos monges encadernadores que viviam em mosteiros

Florão em forma de borboleta romântico

É necessário igualmente precisar que “Ferro” não é, no seu início, uma peça de bronze ou de latão gravado, mas uma placa de madeira, que era posta sob impressão a frio com moldagem no couro. Seguidamente foram placas de ferro macio ou cobre que se aquecia, antes de chegarmos aos ferros com cabos, em cobre ou ferro macio, já no meio da Idade Média, e que se denominavam punções. Os ferros em bronze são bastante mais tardios.

Florão decoração de folhagem romântico

O ferro a dourar desenvolve-se muito rapidamente e espalha-se em toda a Europa. Mas vai sobretudo conhecer o seu momento decisivo ao século XV.
Só uma certeza, é que o ferro de dourar e a aplicação da folha de ouro aparecem na Europa com a chegada de artesões Persas à Itália e Veneza.
Em França, onde a encadernação teve grande expansão e desenvolvimento, depois das experiências italianas, os ourives reivindicaram o monopólio de encadernar, e também de negociar nos materiais mais finos para esse efeito.

Florão em forma de cesto


No que respeita aos gravadores, chamavam-se no início em França, "Maîtres Tailleurs Graveurs de Sceaux et Cachets sur Métaux", que obtiveram estatuto por cartas de patente de Luís XI, em Junho de 1467. Seguidamente, em 1751, outras corporações adquiriram a possibilidade de gravar ferros na condição de terem uma profissão que tivesse a ver com os metais.
Só no século XIX, é que gravar ferros se tornou um ofício específico com o desaparecimento das corporações.

Florão romântico

Há dois documentos legais: a "Loi Le Chapelier" e o "Décret d'Allarde" que determinam o termo das corporações, publicados em 2 e 17 de Março de 1791.
Em França existiram grandes gravadores, como ADAM, BEAREL, DAMY, HAARHAUS, LECLERC, LONGIEN, MORAND, SOUZE… Infelizmente já todos desaparecidos....


Florão com assinatura de R. Haarhaus

Obrigado por me acompanharem nesta divagação e desejos de um bom domingo.

Saudações bibliófilas

9 comentários:

O.t. Manary disse...

WOW!!!
Nice blog...


Maravilhoso....

Amei tudo que voce postou aqui....

Muito interessante...

rui disse...

Hi O. Manary
Many thanks for your commentary!
But you can believe, everything I wrote it’s for the pleasure that it gives to me to talk about my hobby and my passion: old books and bibliophile, and of course, the Portuguese writers and its works.
Friendly

Galderich disse...

Rui,
Qué hierros más maravillosos. Es curioso como los elementos alrededor del libro también guardan una belleza sin igual.

lamberto palmart disse...

La encuadernación es el máximo exponente del amor al libro. Se le mima dándole un vestido suntuario que revaloriza su contenido y lo protege del paso del tiempo.
Verdaderas obras de arte que podríamos denominar "orfebrería en piel", herederas como tú dices de aquellas encuadernaciones medievales, con incrustaciones de piedras preciosas.
Muy interesante la colección de hierros que nos aportas y muy bellas las encuadernaciones.

Saludos bibiófilos

DIEGO MALLÉN disse...

¡Admirable conjunto de encuadernaciones, enhorabuenas bibliófilas!

Se nota la calidad y sensibilidad del bibliófilo que las ha reunido: magníficos exponentes del XVIII y de la perfección sublime del XIX.

¡Y qué decir de la colección de hierros! Pues más y más enhorabuenas.

Saludos cordiales.

DIEGO MALLÉN disse...

¡Ah, amigo Rui, dejé una reflexión. La pasión por las bellas encuadernaciones es tentadora, la pasión por "les doublès" arrastra al abismo!

rui disse...

Amigos
Yo confeso el mío pecado: las encuadernaciones son la joya de una biblioteca, pero no solamente las de los siglos XVIII y XIX.
Me atraen también las encuadernaciones de época.
Y qué decir de un libro del siglo XVI en su encuadernación en pergamino!
Los hierros son mí otro atractivo. Se puede hacer una hermosa colección de los varios tipos, y de esto modo, comprender un poco mejor el trabajo artesanal del encuadernador
Saludos bibliófilos a vosotros

Inês disse...

Olá,
vou começar agora um curso de gravação e decoração de livros e adorei o seu post! Ainda fiquei mais entusiasmada!
sabe onde posso encontrar mais informação?
Obrigada

Patricia Justino disse...

Inês eu sei que já passou algum tempo mas onde fez o curso de gravação e decoração de livros.Não encontro nenhum sitio onde possa fazer. Obrigada