"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 9 de maio de 2009

Camilo Castelo Branco




Hoje vou falar do escritor que ilustra o meu Blog: Camilo Castelo Branco.
Para mim, ao ler um livro, leva-me sempre a pensar no homem que o escreveu, como viveu, quais as suas posições perante a sociedade do seu tempo, quais as suas paixões e interesses, pois creio que tudo isto se reflecte na sua obra.
E no caso concreto de Camilo podemos verificar, que a sua vida, bastante agitada, ficou bem espelhada na sua vastíssima obra literária, que se estendeu pelo romance, teatro, poesia e jornalismo; participou em várias polémicas sobre temas do seu tempo. Foi um cidadão activo na sua época.
Em relação ao escritor refira-se que "Amor de Perdição", a sua obra mais conhecida, faz parte da chamada segunda fase do romantismo, em que o amor pode levar até as últimas consequências (como a própria morte). É o grande romancista do Romantismo português "Romance de um Homem Rico" (1861), experimentou também as novas técnicas da escola realista com intuitos jocosos "Eusébio Macário" (1879) e num texto de final de carreira, que é um dos seus mais belos romances: "A Brasileira de Prazins" (1882. Magistral nos lances arrebatados e místicos da paixão exacerbada e dos laços familiares conflituosos "O Retrato de Ricardina" (1868), assim como na sátira social "A Queda dum Anjo" (1866) e na autocrítica, nomeadamente literária.
Saliento como as maiores raridades bibliofilas:” Bico de Gaz” (1854), “Infanta Capellista” (1872), “Caleche”, “Folhas Cahidas”, a folha solta de setim de “Laura Geordano”, os raríssimos folhetos “Hosanna", "Maria não me mates que sou tua mãi", “Folhas cahidas apanhadas da lama” e o “Folhetim do Nacional”. Um folheto de poesia, da mais alta raridade, desconhecido de alguns dos seus bibliógrafos “As duas actrizes” (1849). E os seus romances mais conhecidos. “Amor de Perdição”(1862), ”Carlota Angela”(1858), “Anathema” (1851) e as “Scenas Contemporâneas” (1855). Entre as obras poéticas e teatrais destacam-se: “Juízo Final” ( 1845) “Inspirações” (1851) “Murraça” “Pundonores Desagravados” (tiragem de 5 exemplares) “Revelações” (1852) "Agostinho de Ceuta” (1847)”Marquez de Torres Novas”(1849) ”Abençoadas Lágrimas” (1861). Nas traduções destaque para as de Chateaubriand.
Deixo propositadamente a descrição e apresentação destas obras para um outro artigo, agora interessa apenas o homem.
Não posso deixar de referir que Camilo, foi igualmente bibliófilo, pois reuniu uma importante biblioteca, cujo catálogo foi escrito pelo seu punho e publicado em 1883:
CATALOGO DA PRECIOSA LIVRARIA DO EMINENTE ESCRIPTOR CAMILLO CASTELLO BRANCO, contendo grande numero de livros raros, em diversas línguas, e muitos manuscriptos importantes, a qual será vendida em leilão, em Lisboa, no proximo mez de dezembro de 1883 no local opportunamente annuciado sob a direcção da casa editora de Mattos Moreira & Cardosos. Lisboa, Typographia de Mattos Moreira & Cardosos. 15, Largo do Passeio Público,16. 1883


Actual casa da Rua da Rosa, em Lisboa, onde nasceu o romancista

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, num prédio da Rua da Rosa, actualmente com os n.º 5 a 13. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, foi baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825. Os seus padrinhos foram o Dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.
Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, pelo que se diz, porque o seu pai e a sua avó não queriam que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com alguém de tão humilde condição.
Camilo fica orfão aos dez anos de idade. Jacinta morre dois anos depois do seu nascimento, a 6 de Fevereiro de 1827, e o pai morre em Lisboa, a 22 de Dezembro de 1835. Como era uma criança sensível e muito inteligente, vai sofrer grandes perturbações com todos os acontecimentos da sua infância.
Camilo inicia os estudos primários, em 1830, em Lisboa, primeiro na escola de mestre Inácio Minas, na rua dos Calafates, depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.
Após a morte do pai, Camilo e a sua irmã Carolina são enviados para Vila Real ficando ao cuidado da sua tia Rita Emília da Veiga Castelo Branco e do seu amante João Pinto da Cunha, este nomeado tutor dos menores.
Ao longo da sua existência revelou-se um falhado nos estudos e nos amores. As vicissitudes da vida fazem-lhe despoletar a ideia de que a fatalidade e a desgraça são destinos a que não podia escapar.
Em 1841 casa-se com Joaquina Pereira de França e passa a viver em Ribeira de Pena. Dois anos depois, a 25 de Agosto de 1843, nasce Rosa Pereira de França, filha de Camilo com Joaquina.
Camilo prossegue os estudos com o padre Manuel Rodrigues, conhecido por padre Manuel da Lixa e, em 1843, já no Porto é aprovado na Escola Médica e na Academia Politécnica. Contudo, na Escola Médica do Porto perde o ano por faltas e tenta o curso de Direito em Coimbra.
Camilo desloca-se a Lisboa na tentativa de entrar na posse da sua parte da herança paterna e em condições pouco claras consegue, em 1846, ficar com o que restava da herança.
Volta a Vila Real, apaixona-se por Patrícia Emília de Barros e foge com ela para o Porto. João Pinto da Cunha, que entretanto tinha legalizado a sua ligação com Rita Emília, manda-os prender alegando que Camilo lhe roubara 20.000 cruzados, situação que mais tarde e publicamente se virá a retratar-se.
Camilo e Patrícia permanecem na Cadeia da Relação do Porto de 12 a 23 de Outubro e escreve a Alexandre Herculano pedindo-lhe protecção.
Em 1847 Camilo e Patrícia vivem em Vila Real enquanto que em Friume morre Joaquina Pereira de França e um ano depois a filha Rosa. Nesse mesmo ano nasce Bernardina Emília da sua ligação com Patrícia e instalam-se no Porto, onde Camilo leva uma vida de boémia.
Em 1850 vai para Lisboa onde começa a publicar na “A Semana” o seu primeiro romance “Anátema”. Camilo regressa ao Porto e matricula-se no Seminário Episcopal, desistindo um ano depois.
No Porto, onde Pinheiro Alves mantinha os seus negócios, casou, em 1850, com Ana Plácido. Ao fim de oito anos de vida conjugal, nasceu Manuel Plácido. Antes deste nascimento, porém, já as alegadas ligações amorosas de Ana com Camilo eram objecto de comentários públicos pouco abonatórios, e após várias tentativas para a demover dessa paixão, o marido traído desencadeou um processo judicial por crime de adultério. Camilo e Ana foram presos, julgados e estranhamente absolvidos.

Camilo Castelo Branco e Ana Plácido

Em 1856 assume o cargo de director literário da “A Verdade”. Nesse mesmo ano sente os primeiros sintomas de cegueira, mas continua a publicar obras.
Após a morte de Pinheiro Alves a 17 de Março de 1863, Camilo instala-se, no inverno desse mesmo ano, com a família na Quinta de S. Miguel de Ceide, propriedade que coube, por herança, a Manuel Plácido, suposto filho de Pinheiro Alves. Em Lisboa, a 28 de Junho de 1863, nasce Jorge Plácido Castelo Branco e um ano depois, a 15 de Agosto, Nuno Plácido Castelo Branco.
Com a colaboração de Ana Plácido funda e dirige em 1868 a “Gaseta Literária” do Porto. Nesse mesmo ano reconhece a loucura do seu filho Jorge e os sintomas de cegueira agrava-se cada vez mais. O que o leva a deslocar-se, em 1886 e em 1887, a Lisboa em busca da cura para a cegueira que se avizinha.
Por iniciativa de João de Deus, Camilo recebe em Lisboa no dia do seu aniversário a consagração de escritores, artistas e estudantes. Em 23 de Dezembro é visitado pelo destronado Imperador do Brasil, D. Pedro II.
Depois da visita do oftalmologista Dr. Edmundo Magalhães Machado, a 1 de Junho de 1890, Camilo suicida-se com um tiro na cabeça, na freguesia de Ceide, Vila Nova de Famalicão.

Casa de S. Miguel de Seide onde Camilo viveu e se suicidou em 1890

Para os mais curiosos deixo o link para a Casa Museu de Camilo Castelo Branco, aonde podem espreitar um pouco da sua intimidade: http://www.geira.pt/CMCamilo/


Bibliografia:
CARVALHO, Miguel de – Descrição bibliográfica Camiliana, de uma importante e valiosa colecção de bibliografia activa e passiva de Camillo Castello Branco. Coimbra, 2003
CABRAL, Alexandre – Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa, 1989

DICIONÁRIO CRONOLÓGICO de AUTORES PORTUGUESES - LISBOA (Eugénio) e ROCHA (Ilídio) Coordenação. 5 Volumes. Mem Martins, I.P.L.N. / I.P.L.B. - Publicações Europa América, s.d. - 1998.

Obrigado pela leitura paciente deste extenso artigo, ma o escritor merece-o, e pelos vossos comentários

Saudações bibliófilas

2 comentários:

Galderich disse...

Estaba seguro que esta página nos depararia grandes sorpresas porque mi incultura con la cultura (valga la redundancia) portuguesa es oceánica.
Gracias por darnos a conocer un personaje de este calibre y que me tenía con cierta curiosidad en presidir tu página.
Cuando leo estas biografias no sé si lamentarme de la vida tranquila que llevo o dar gracias a los dioses por esta tranquilidad!

rui disse...

Una de las ideas básicas del mío blog era divulgar en vuestro país los autores portugueses (considerémonos como pueblos hermanos, pero en la cultura y, sobretodo, en la literatura, yo creo qué nos ignoramos un poco…para no decir algo más!).
A Camilo lo escogí, por ser un grande escritor portugués con libros muy buscados y ser tanbien un bibliófilo.
Pero hay otros escritores que me fascinan por su biografía: Camões, Bocage, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa (un mito en la literatura portuguesa); Cervantes y Garcia de Lorca en España; Jorge Amado, Pablo Neruda y García Márquez en America Latina; Balzac, Victor Hugo y Emile Zola en Francia.
Todos los genios tienen un poco de locos, por eso sus vidas son normalmente muy atribuladas…