"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Bibliofilia – uma outra análise


“No fundo, o mundo é feito para acabar num belo livro.”
Mallarmé (1842/1898)



Biblioteca de um coleccionador
Fotografia ©Bauman Rare Books

Voltando ao tema iniciado no princípio do ano com o artigo: Bibliofilia - o que pensam os “outros” de nós, proponho-vos hoje uma outra leitura que se debruça sobre a bibliofilia e a compra de livros pelos bibliófilos.

Trata-se de: O Consumidor de Livros de Segunda Mão – Perfil do Cliente dos Sebos por Aníbal Bragança, Eliane Ganem, Maria Virgínia M. de Arana e Shirley Dias da Silva, da Escola de Comunicações e Artes – ECA / Universidade de São Paulo – USP. São Paulo – Brasil. Niterói, Rio de Janeiro, Novembro de 2005.

 

O Consumidor de Livros de Segunda Mão – Perfil do Cliente dos Sebos

Segundo os seus autores é uma “Pesquisa realizada em São Paulo e Rio de Janeiro, dentro do projeto “O Público da Cultura”, coordenado pelo Prof. Dr. Teixeira Coelho, como atividade acadêmica dos autores no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de São Paulo-USP, no primeiro semestre de 1992. […] Levamos em conta que desde sua realização o trabalho tem sido aproveitado por colegas pesquisadores, certamente por se tratar de um trabalho pioneiro e que se mantém, até agora, sem continuidade. Constituindo-se assim, talvez, na única pesquisa empírica na área e uma das poucas fontes existentes no país sobre o público consumidor de livros de segunda mão, acrescido de breves notas sobre a bibliofilia.”

Parece-me um trabalho bastante interessante pela forma como os autores analisam esta questão, ainda que mais uma vez os bibliófilos sejam analisados de fora, permite-nos compreender algumas das nossas atitudes, que como se disse no artigo anterior, agem como se formassem uma “confraria” com os seus rituais e princípios muito próprios.


Bauman Rare Books
Livraria em Madison Avenue – New York
Fotografia ©Bauman Rare Books

Antes de terminar esta proposta de leitura, deixo mais uma citação retirada deste mesmo texto:

“... a posse é a mais íntima relação que se pode ter com as coisas que estejam vivas dentro dele; é ele que vive dentro delas. (...). Pois para o colecionador a verdadeira liberdade de todo livro é estar em alguma parte de suas estantes”.
Walter Benjamin

Prometo, num próximo artigo mostrar-vos um trabalho de um bibliófilo português onde ele analise o coleccionismo e as “regras de boa conduta para se estimar e saber valorizar um livro” … mas isso ficará para depois.


Charles Dickens – The Posthumous Papers of the Pickwick Club. London, 1837.
Thick octavo, early 20th-century full green morocco gilt, elaborately gilt-decorated spine;
red morocco onlay to front board, red morocco doublures,
Cosway-style portrait mounted on front doublure, watered silk endpapers;
housed in a custom clamshell box.
Fotografia ©Bauman Rare Books

Boa leitura deste texto que, em minha opinião, merece não cair no esquecimento. E, se me permitem a ousadia, porque não responderem ao questionário do trabalho de pesquisa (pp. 47-53)? Talvez este auto-exame nos possa dizer algo de curioso.

Quero expressar as minhas felicitações aos autores pelo seu trabalho que conseguiu superar quase duas décadas e manter uma grande actualidade.

Saudações bibliófilas.


4 comentários:

Aníbal Bragança disse...

Rui,
É com grande alegria que veja a recomendação da leitura de nosso trabalho sobre a bibliofilia. Isto, vindo de quem vive a experiência de ser bibliófilo, é algo muito especial.
Para quem tiver interesse em conhecer outros trabalhos nossos, ligados aos estudos do livro, recomendo acessar www.uff.br/lihed ou o blog Ler, escrever e contar (pouco atualizado infelizmente).
Vivo no Brasil e irei a Portugal nos próximos dias de fevereiro. Passarei por Óbidos, enfim, perto de Lourinhã. Quem sabe nos encontraremos pessoalmente?
De todo modo voltarei mais vezes ao seu blog.
Fraternalmente,
Aníbal Bragança

rui disse...

Caro Aníbal Bragança,

Muito me agradou ler o seu comentário ao considerar de relevante o meu artigo, mas o que me despertou bastante interesse foi a sua informação.

Já fiz uma primeira visita ao Lihed e fiquei bastante interessado no que descobri. Como já se apercebeu o meu blogue difere um pouco dos outros, pois tento falar um pouco da história do livro e da paixão pela sua colecção – como bibliófilo que o sou – pois que a minha actividade é bem diversa da literatura.

Os livros que apresento ilustram apenas os aspectos que me interessam divulgar (seja um escritor, um editor ou um encadernador).

“Arco do Cego e Impressão Régia (Lisboa e Rio de Janeiro): sobre rupturas e continuidades na implantação da imprensa no Brasil” e “António Isidoro da Fonseca, Frei Veloso e as origens da história editorial brasileira” despertaram vivamente o meu interesse, numa primeira leitura, para além de um bom leque de livros sempre de interesse, mais que não seja para consulta, lamentavelmente pouco divulgados em Portugal.

Quem sabe se nos poderemos encontrar aquando da sua estadia por cá. Teria muito prazer nisso.

Com amizade

Bach disse...

É sempre interessante ver uma outra perspectiva. Parece um trabalho sério. O problema é que meu Português não é muito bom. Saudações

rui disse...

Bach,

Obrigado pelo teu comentário.

Quanto ao português parece fácil, mas é um pouco difícil, pelo menos é o que já me apercebi e o tradutor Google é um desastre! Se te interessa o que escrevo aos poucos conseguirás ler – repara no Marco Fabrizio.

Eu tento ler o Galderich em catalão e já aprendi alguma coisa (mas aqui para nós espero que ele nunca queira falar comigo em catalão!)

Um abraço