"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 19 de junho de 2010

Morreu Saramago!




José Saramago

"Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12h30 na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença (1). O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", lê-se num comunicado da Fundação Saramago.


José Saramago

Este dia ficará marcado pelo desaparecimento de um homem vertical e de caracter afável mas sempre coerente consigo mesmo.

Quem teve o privilegio de com ele privar, mesmo o cidadão ou leitor comum, sentia a sua capacidade de comunicar e a sua grande sensibilidade humana

Os portugueses perderam um grande escritor, um dos maiores do século XX, as Letras perderam um artista da palavra escrita e escritor de renome mundial que torna a sua obra património de toda a humanidade.

Alguns daqueles que foram seus detractores hoje louvam-no com rasgados elogios ... a memória é curta como acontece sempre nestes momentos.

Pode gostar-se ou não de Saramago como pessoa, pode-se gostar ou não de Saramago como escritor ... não se pode é ficar indiferente perante a sua obra!
Como singela homenagem nesta data triste para nós portugueses, mas também para a comunidade literária internacional, deixo aqui o que sobre ele escreveu Maria Alzira Seixo (2), pois nunca conseguiria expressar com tanto rgor este quadro:


Maria Alzira Seixo

"O essencial da nossa atenção, (...), concentrar-se-á, (...) sobre os escritos que compõem Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante. Costuma dizer o autor, referindo-se à relação que as crónicas entretecem com a sua restante obra, que «está lá tudo»; e, com efeito, quase tudo, pelo menos, parece já lá estar. Não só no que diz respeito à temática: a relação identidade/alteridade; a articulação entre o homem e a terra; o projecto humano e a sua transposição, ou transcendência; a concepção do homo viator e a sua incidência temporal; não só também no que diz respeito à constelação de motivos preferenciais que preenchem essa temática: a água, a embarcação, a estrela, o silêncio, a pedra, o rumor - mas também nas atitudes dominantes: cepticismo radical no limite do desengano em fulgurações entretecido por um ilimitado entusiasmo na capacidade de construção humana, no projecto que é o sonho; mas também ainda na frase tensa que não se fecha completamente à irrupção lírica, na mordacidade que não exclui a ternura, na ironia que quase sempre traz a cumplicidade do afago.


A arte da palavra escrita

Estes dois livros, de leitura fascinante, põem-se em contacto com esse tempo essencial que a crónica assume (simultaneamente fragmentado e intenso, dada a brevidade contida de cada texto) - «descobre-se que só violentamente se enchem os dias da vida. E então todo o passado aparece sob uma nova iluminação» DMO, 126 -, percebido por uma sensibilidade, toda olhos e inteligência, que capta o sentido das coisas - «Aqui só se fala de simplezas quotidianas, pequenos acontecimentos, leves fantasias» ou «de verdades que parecem mentiras», B.V., 56- e que se afina de muito perto pela do leitor, quer em atitude de sincronia quer em atitude de provocação - «travo o mais que posso para não me estatelar no tom da gravidade cúmplice, entre cronista e leitor que alguma coisa viveram e que, por isso mesmo, não se tomam demasiadamente a sério», DMO, 79- relatando factos, não tanto pelo amor do relato, mas para fazer vibrar as coisas, o seu sentido, a sua visão, a nossa passagem por elas e o abrir delas em nós, num estado de permanente reconsideração e de descoberta, na abertura de todos os possíveis ao outro lado deles - «cair da tarde (...) gosto de andar pelas ruas da cidade, distraído para os que me conhecem, agudamente atento para todo o desconhecido, como se procurasse decididamente outro mundo», B.V., 99.

Que campos cobrem as crónicas de José Saramago? Os da actualidade (parte-se por vezes de uma notícia nos jornais); os da memória (regressa-se à infância, suas marcas, suas recordações, suas nostalgias); os do ambiente (evoca-se a cidade, outras cidades conhecidas, o campo, os vários tipos de ruralidade); os da tipologia humana (o amola-tesouras, o cego do harmónio, os frequentadores de café, etc., etc.); os de sugestão frásica e vocabular (um verso, uma frase - a sua capacidade evocativa poderão ser matéria para uma crónica); os da cultura (domínio da arte, vultos de escritores, leituras, etc.); miúdas situações do quotidiano anónimo; efabulações de tipo onírico que hesitam entre a vocação para um destinatário infantil e uma acentuada propensão do escritor para os domínios do maravilhoso e do fantástico que mais tarde veremos concretizar-se melhor na sua restante obra. (...)"


José Saramago

A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, parte ao final da tarde desta sexta-feira para Lanzarote, num avião militar C-295, para ir buscar o corpo do escritor, em representação do Governo português.

Na sexta-feira,  o corpo de José Saramago vai estar em câmara ardente, a partir das 17h00 (hora portuguesa) na biblioteca José Saramago, localizada em Tías, na ilha espanhola de Lanzarote onde o escritor residia desde 1993.

Os restos mortais de José Saramago devem chegar às 12h45 de amanhã ao aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa.

O corpo de José Saramago vai ser velado, a partir de sábado, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, onde permanecerá até às 12h00 de domingo, saindo depois para Cemitério do Alto de São João, para ser cremado.

Depois das cerimónias fúnebres em Lisboa, as cinzas do escritor poderão ser repartidas entre a sua terra natal, Azinhaga no Ribatejo, e, outra parte enterrada junto a uma oliveira no jardim do que foi a sua casa em Tías, Lanzarote.


José Saramago
Prémio Nobel da Literatura 1998

José Saramago foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Deixa uma vasta obra onde se incluem géneros distintos.

Publicou o seu primeiro livro em 1944 e esteve quase duas décadas sem voltar a publicar. Em 1966 reaparece no panorama literário com um conjunto de poemas.
Conquistou leitores, prémios e distinções em todo o mundo. Uma das suas obras, 'Ensaio sobre a Cegueira' foi adaptado ao grande ecrã pela mão do realizador brasileiro Fernando Meireles. Em Portugal, os seus textos constam nos programas oficiais de Língua Portuguesa nos liceus.


Casados Bicos
Sede da Fundação José Saramago

Criou a Fundação José Saramago, que ocupa a Casa dos Bicos por cedência da Câmara Municipal de Lisboa.

Contrariando o que aqui se escreveu, mas já foi largamente referido pela imprensa, as cinzas de José Saramago ficarão em Lisboa.


Último adeus a Saramago
(Aspecto do Salão Nobre
dos Paços do Concelho de Lisboa)

Com efeito, na mensagem que leu no Salão Nobre dos Paços do Concelho, António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, recordou a ligação de Saramago à cidade de Lisboa, onde viveu, trabalhou, tendo presidido à Assembleia Municipal. O autarca sublinhou ainda que:

"Lisboa foi uma das personagens mais queridas, mais amadas, em toda a sua obra".
(...)
"As cinzas de José Saramago descansarão na cidade de Lisboa, mas a sua obra é uma obra que é património de toda a humanidade e a sua mensagem, o seu desassossego, continuarão a desinquietar-nos e a desinquietar todos aqueles que lerem a sua obra".


António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa,
com o vereador Ruben de Carvalho,
no velório a José Saramago

António Costa revelou o desejo de apresentar a cidade de Lisboa como última morada ao Prémio Nobel da Literatura, depois de ontem Pilar del Rio, viúva do escritor, ter esclarecido que as cinzas de Saramago iam ficam em Portugal, onde "pudesse de vez em quando depositar uma flor".

O local mais previsível é o Panteão Nacional, onde já repousam outras dez ilustres figuras nacionais.

No entanto, esta deposição das cinzas do escritor só pode ocorrer um ano após a sua morte e por proposta da Assembleia da República.


Saudações bibliófilas

(1) O escritor sofria de leucemia e há várias semanas que não saía de casa.

(2) SEIXO, Maria Alzira- O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 15-17.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Francisco Moita Flores – «Mataram o Sidónio!»



“A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!”
Fernando Pessoa



“Mataram o Sidónio!”


Estou a ler!

No ano em que se comemora o I Centenário da República têm saído alguns títulos com inegável interesse.

Com se trata de um autor de que já li, por exemplo: “A Fúria das Vinhas” (1) , o qual me despertou grande interesse, decidi ler também o seu último romance.

Trata-se de “Um romance que vem da história. Uma história única para um romance inquietante e arrebatador.” como vem, e bem, anunciado na contracapa.


“A Fúria das Vinhas”

O assassínio do Presidente da República Sidónio Pais, ocorrido em 14 de Dezembro de 1918, é um mistério. Apesar de a polícia ter prendido um suspeito, este nunca foi julgado.

Nesse dia, após jantar no Restaurante Silva, localizado no Chiado, José Júlio da Costa dirigiu-se para a Estação do Rossio, onde aguardou a chegada do Chefe de Estado que devia partir rumo ao Porto no intento de resolver os problemas levantados pelas Juntas Militares. Quando Sidónio Pais se preparava para o embarque, no primeiro-andar da Estação, furou o duplo e compacto cordão policial que o protegia, ao mesmo tempo que disparava uma pistola, dissimulada pelo seu capote alentejano. O primeiro projéctil alojou-se junto do braço direito do Presidente, e o segundo, fatalmente, no ventre, fazendo com que a vítima caísse de imediato por terra.


José Júlio da Costa
(presumível assassino de Sidónio)

Apesar da enorme confusão que de imediato se instalou, e de resultaram quatro mortos, não tentou fugir, deixando-se capturar. Faleceu depois de 28 anos de prisão sem direito a julgamento.


Sidónio Pais:
“ Morro, mas morro bem.
Salvem a Pátria!”

A tragédia ocorreu quando Lisboa estava a braços com a pneumónica, a mais mortífera epidemia que atravessou o séc. XX e, ainda, na ressaca da Primeira Guerra Mundial. A cidade estava exaurida de fome e sofrimento. É neste ambiente magoado e receoso que Sidónio Pais é assassinado na estação do Rossio em Dezembro de 1918.

“A Polícia confundira todos aqueles que odiavam Sidónio e a sua política cesariana com assassinos em potência. A Maçonaria queria vê-lo destituído, a Carbonária talvez o quisesse desfeito em migalhas, os católicos queriam mais do o espavento das missas em que o Presidente participava, os integralistas exigiam uma política de ruptura, os democratas odiavam-no e por aí fora.

É neste quadroo de ódios, os resultados a que chegara apontavam para um miúdo de 22 anos, fascinado pelo turbilhão das sucessivas rebeliões sindicais, vaidoso da arma que mostrara a Ana Rosa, qu, num momento fortuíto da sua vida, conseguira estar próximo do objecto detodos os ódios e disoparar fortuitamente. E Asdrubal vivia com essa angústia dilacerante. Nem a arma fora recuperada, nem o rapaz, abatido como um cão, poderia ser interrogado”

 

Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores constrói um romance de amor e morte. Fundamentado em documentos da época, reconstrói o homicídio do Presidente-Rei, utilizando as técnicas forenses.

Os resultados são inesperados e "Mataram o Sidonio!" (2) é um verdadeiro confronto com esse tempo e as verdades históricas que ao longo de décadas foram divulgadas, onde o leitor percorre os medos e as esperanças mais fascinantes dessa Lisboa republicana que despertava para a cidade que hoje vivemos. E sendo polémico, é terno, protagonizado por personagens que poucos escritores sabem criar.

Não sendo um escritor de recorte estilístico elaborado; no entanto, como um dos mestres da técnica de diálogo, Moita Flores compensa largamente esse facto, e consegue provocar no leitor as mais desencontradas emoções que vão da gargalhada hilariante ao intenso sofrimento.

Para todos aqueles que gostam de uma boa prosa, num fundo histórico, é um romance que não devem deixar de ler.

Boa leitura!
Saudações bibliómanas.

 
(1) FLORES, Francisco Moita – “A Fúria das Vinhas”. Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2007. 318 (3) pp. 1 ª edição. Brochado. Capa cartonada com badanas.
 
(2) FLORES, Francisco Moita – “Mataram o Sidónio!”. Alfragide, Casa das Letras, 2010. 295 (2) pp. 1ª edição. Brochado. Capa cartonada com badanas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

L'intersigne / Livres Anciens – Catalogue n. º 119: Varia



O novo Catalogue n°119 : VARIA (Catalogue de Livres anciens & de Livres rares), editado por Alain Marchiset, reúne um conjunto de obras de várias temáticas, como é habitual neste livreiro-antiquário parisiense, de que se salienta: literatura, “colportages”, calão, criminologia, economia, história, viagens, jogos, gastronomia, etc.

Como convidativo à sua consulta proponho algumas das suas páginas.


Catalogue n. º 119 – pp. 3

Trata-se de um Catálogo sempre simpático de ler e consultar pois reunindo um leque variado de opções encontramos sempre títulos que nos fazem recordar algum acontecimento ou enredo, ou mesmo aquele livro quase desconhecido, mas que poderá completar nalgum ponto a nossa colecção.


Catalogue n. º 119 – pp. 6

Alain Marchiset tem sempre a preocupação de oferecer livros para todos e não só para os grandes coleccionadores ... uma opção bem pessoal em meu entender.


Catalogue n. º 119 – pp. 18

A Criminologia é um tema quase sempre presente e com obras bastante interessantes.


Catalogue n. º 119 – pp. 22

De História eis algumas das suas propostas:


Catalogue n. º 119 – pp. 28

No capítulo das Viagens encontramos uma obra da “Bibliothèque du château de Säfstaholm” temos a tradução dum clássico português de Jeronimo Lobo:

LOBO (R.P. Jérome) – Voyage historique d'Abissinie, Traduit du portugais, continué & augmenté de plusieurs dissertations, lettres & mémoires, par M. Le Grand.


Catalogue n. º 119 – pp. 37

Por último, nas Curiosidades e Jogos porque não analisarmos estas ofertas?


Catalogue n. º 119 – pp. 45

Resta-me esperar que a sua consulta vos seja útil, ou pelo menos, interessante. Pelo menos vamos sempre contactando com outras “bibliofilias” bem como com a oferta e a procura do seu mercado. È sempre um aspecto a ter em consideração e que julgo ser de interesse para todos.

Saudações bibliófilas.

sábado, 12 de junho de 2010

Livraria Luís Burnay – Leilão de Manuscritos / Junho de 2010


A Livraria Luís Burnay vai realizar mais um Leilão de Manuscritos, Autógrafos, Fotografias e Efémera no próximo dia 19 de Junho.

O leilão realiza-se pelas 15:00 horas, na Sala Veneza do Hotel Roma, entrada pela Rua Infante D. Pedro, n.º 6 em Lisboa.


Aspecto da sala onde decorrem os leilões
(Hotel Roma em Lisboa)

As obras encontram-se em exposição na livraria nos dias 17 e 18 no horário normal de funcionamento e no dia 19 no local do leilão entre as 10:00 e as 13:00 horas.

Este Catálogo reúne um leque bastante variado de lotes para venda, dos quais destaco sobretudo o conjunto de manuscritos.

Da minha "leitura" pessoal do Catálogo, aqui ficam alguns dos lotes que me parecem mais interessantes.

Começo por uma cata de Gomes Freire de Andrade, documentos sempre de interesse para a História e os primórdios do Liberalismo.




12 - ANDRADE, Gomes Freire de.- 1 Documento autógrafo (1p.; 17cm.)

Carta de recomendação autógrafa do notável marechal de campo, para o Alferes d’Avila “… Je cértifie que Monsieur d’Avilla sous Lieutenant au ci devant cinquiéme Reg.nt d’Inf.e de la Légion portugaise a toujours eu une conduite irréprochable, et qu’il a été proposé par son 6 Colonel pour être emmené au grade de Lieutenant. Grenoble le 28 de Juillet 1811. Le Lieutenant Général Commandant la Légion portugaise – Gomes Freyre.”

Assinado e datado de Grenoble 28 de Julho 1811. O notável militar que viria a ser supliciado em São Julião da Barra seis anos depois, era nesta época comandante dos três batalhões da “Legião portuguesa” e dirigia-se para a Alemanha e Polónia ao serviço de Napoleão que o nomeou governador de Danzigue. Conserva o lacre.


Catálogo – pp. 13

De António Botto, reúne dois preciosos documentos, de que destaco: Original autógrafo de uma poesia De António Botto, reúne dois preciosos documentos, de que destaco o  original autógrafo de uma poesia “Canção”. Assinado. “Não encontrámos esta canção publicada. Inédita?” (lotes 32 e 33)


Catálogo – pp. 14

Do Major C.R. Boxer aparece um conjunto de correspondência para o Livreiro Coelho, constituída por 65 cartas e 13 bilhetes postais todos autógrafos que abragem um período de 21 / 7 /1946 a 23 / 5 /59.


Catálogo – pp. 15

Esta interessante sequência de cartas espelha bem os esforços que o grande historiador fazia ao adquirir obras para a sua famosa biblioteca, deixando também transparecer ao longo do tempo o apuramento progressivo no domínio da língua portuguesa, e o refinamento na selecção das obras a adquirir, cada vez mais raras e valiosas.


Catálogo – pp. 16

Eugénio de Castro, de quem já demos notícia, aparece com três cartas. (lotes 70 a 72)




77 - CATARINA, Dona (Rainha de Portugal, Princesa de Castela).- 1 Carta ( 1p.; 30cm.)

Carta dirigida a Felipe de Aguilar, castelhano militar em Ceuta. Na qualidade de Regente do Reino pela menoridade de D. Sebastião , e por saber que a esquadra turca que ameaçava a Catalunha estava nas imediações de Génova já sem mantimentos e por isso não representar grande perigo para os nossos territórios, ordena-lhe que regresse a Portugal: “…. Por cartas de Martim Correa meu embaixador na corte de castella feitas a XVII [dias] do presente que agora recebi soube como de Barcelona era chegado um correo com cartas do Viso-Rey de Catalunha para a princesa minha nora em que dizia ser alevantada a armada dos Turcos [… …] sem aver feito nela damno algum E que se hia na volta de levante e fora vista na paragem de Génova É [… …] grande presa por haver em toda a dita armada muita falta de mantimentos. Pelo que […. ….] Por este anno nam descera destes mares. E porque ele desde já nam ser por agora necessária vossa estada em cepta / vos encomendo muito que com esta vos for dada vos venhaes logo embora escripta em Lx a XXVIII d’Agosto Pantaliam Rebelo a fez 1558.”

Assinatura autógrafa da Rainha. Datada de Lisboa 28 de Agosto 1558. Autógrafos de D. Catarina Regente são muito raros.
De Almeida Garrett temos quatro cartas de correspondência com o Livreiro Bertrand, sobre a publicação das suas obras. (lotes 135 aa 138)
Desta mesma época surgem duas cartas de Alexandre Herculano, igualmente dirigidas ao Livreiro Bertrand (lotes 141 e 142), o que nos dá uma informação curiosa do seu relacionamento com as figuras mais salientes do Romantismo em Portugal.


Catálogo – pp. 58

De Júlio César Machado apafreem vários documentos, com bastante interesse. (lotes 171 a 174)

Do nosso rei D. Manuel II, grande bibliófilo, como já se deu igualmente notícia, temos três cartas, de que chamo a atenção para a segunda, uma extensa carta dirigida ao Dr. Reinaldo dos Santos, onde D. Manuel aborda um interessante tema de bibliografia antiga. (lotes 184 a 186)


Catálogo – pp. 68

De Wenceslau de Moraes temos quatro bons manuscritos. Refira-se o original do artigo PORTUGAL – MACAU publicado em 1951 no opúsculo “ Camões nas paisagens orientais”. Alguns trechos foram aproveitados também para o livro “ Paisagens da China e do Japão”. (lotes 201 a 204)


Catálogo – pp. 75

Ramalho Ortigão é o autor que reúne o maior número de manuscritos disponibilizados neste Leilão. (lotes 219 a 223).

De Luís Pacheco, como tem acontecido sempre nos últimos Leilões, aparece um conjunto variado de documentos. (lotes 225 a 230)

Refira-se, pela temática abordada, a correspondência entre Mariano Pina e Rafael Bordalo Pinheiro. (lotes 241 a 245), que também tem cartas escritas pelo seu punho neste Leilão (lotes 247 a 249)


Catálogo – pp. 93

Da “Revista Lusitânia” temos um excelente conjunto de documentos do seu Espólio.


Catálogo – pp. 94

Documentação referente a esta importante Revista Literaria, composta por mais de 70 documentos vários ( facturas de tipografia, listas de assinantes, vales de caixa, procurações, rascunhos de constituição de sociedade comercial, existências em armazém, recortes de jornal, cartas de correspondentes estrangeiros, capas, índices, sumários, etc.)


Catálogo – pp. 95

De particular interesse a evolução dos conflitos que foram surgindo entre os diversos redactores, agravados com a morte de Carolina Michaelis Vasconcelos e Luciano Pereira da Silva acompanhados de um lento cansaço editorial.


Assinatura de Mário Sá-Carneiro

De Mário de Sá-Carneiro constam duas cartas de que a mais significativa é o original autógrafo duma carta interessantíssima, dirigida a Fernando Pessoa, e escrita de Paris quatro meses antes da sua morte, que foi publicada no II Vol. das “ Cartas a Fernando Pessoa” das “ Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro” das edições Ática. (lotes 281 e 282)


Afonso lopes Vieira
Bilhete postal dirigido ao Dr. Reinaldo dos Santos

Afonso Lopes Vieira tem um conjunto de seis documentos (lotes 315 a 320)

Muitos outros documentos se encontram à vossa disposição neste bom Catálogo, pelo que me pare bastante importante a sua consulta e leitura atenta.

Saudações bibliófilas.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia de Camões: «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades»




"Camões e as Ninfas”
Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro


Hoje dia 10 de Junho em que se celebra oficialmente o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas (1), coincide com a data do falecimento de Luís Vaz de Camões em 1580 é utilizada para relembrar os feitos passados.


Luis Vaz de Camões
por François Geratd

Luís Vaz de Camões é frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade. O seu génio é comparável ao de Virgílio, Dante, Cervantes ou Shakespeare; das suas obras, a epopeia «Os Lusíadas» é a mais significativa.

Deste poeta imortal, no 430º aniversário da sua morte, fica aqui talvez um dos seus poemas mais conhecidos.




Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"


«Camões na prisão de Goa»
Óleo sobre tela de Maureaux

Nunca sendo demais relembrar este poeta épico da língua portuguesa, qualquer estudo que sobre ele se faça corre sempre o risco de ser uma repetição.

Como para esse tipo de estudos, e não só, “não tenho engenho nem arte”, resta-me render-lhe a minha homenagem divulgando a sua poesia.

Que nestes tempos de mudança que vivemos espero que consigamos mudar mesmo as nossas vontades e criar um mundo melhor.

Saudações bibliófilas.


(1) Até ao 25 de Abril de 1974 era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça.

«Promessa» de Vergílio Ferreira




Promessa – Vergílio Ferreira

Como tem sido escrito nos jornais, Vergílio Ferreira deixou o seu espólio preparado para aqueles que vieram estudar a sua obra.

Terá sido essa a principal razão, pela qual foi possível encontrar dois inéditos e, entre eles, este romance. «Promessa», que é o seu primeiro “romance de ideias”, concluído entre «Vagão J» e «Mudança».
«Promessa» permite adivinhar já um dos temas fundamentais da obra de Vergílio Ferreira, o herói existencialista: os seus conflitos e dramas interiores, o combate pela liberdade e pela generosidade, o confronto com o racionalismo.


Vergílio Ferreira

Teve como primeiro título "Sequência" – foi escrito em 1947 e não chegou a ser publicado. Trata-se do único romance inédito completo que existe no espólio de Vergílio Ferreira.

A sua publicação deve-se ao trabalho da equipa de investigadores e professores dirigida por Helder Godinho (com as professoras Fernanda Irene Fonseca e Ana Isabel Turíbio), que está a estudar, catalogar e anotar o espólio do escritor português.

É este romance inédito de Vergílio Ferreira, que Francisco José Viegas, editor da Quetzal (1), que está a reeditar a Obra Completa do Prémio Camões 1992, vai publicar no dia 11 de Junho.


 
QUETZAL - Logotipo 

QUETZAL – Ave trepadora da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz e origem de Quetzalcoatl (serpente emplumada com penas de quetzal), divindade dos Toltecas, cuja alma, segundo reza a lenda, teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.



 Quetzal – Ave trepadora da América Central

Refira-se que o escritor, já na sua «Conta-Corrente», escreveu que, na sua opinião, "um autor não dá garantias quase nenhumas (mormente quando grande autor) sobre a valia do que realiza" e que "se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele." Há cerca de 30 anos, falou da existência deste romance inédito a Helder Godinho (que estava na altura a preparar uma tese de doutoramento sobre a sua obra) e emprestou-lhe o original dactiloscrito.

Como se noticiou, a novela inédita intitulada «A Curva de Uma Vida», a primeira história que Vergílio Ferreira escreveu, já está nas livrarias. publicada igualmente pela Quetzal e integrada na sua Obra Completa.

Espero que esta “promessa” se mostre um prazer de  boa leitura., pois que, para os apaixonados pela obra deste escritor, será mais uma peça importante na composição do intricado dos escritos que compõem a sua bibliografia.

Saudações bibliómanas.

(1) A Quetzal foi fundada em 1987 por Francisco Faria Paulino, Maria Carlos Loureiro, Maria da Piedade Ferreira e Rogério Petinga.

Em 2000, a Bertrand comprou uma participação de 51% da empresa (que nessa altura deixou de ser sociedade por quotas para se tornar uma sociedade anónima). Em 2003, Maria da Piedade Ferreira (que além da direcção editorial presidia ao Conselho de Administração da empresa) saiu e até Fevereiro de 2005 a chancela foi dirigida por Zita Seabra.

Em 2006, a Quetzal é integrada no Direct Group. Em Junho de 2008, Francisco José Viegas é nomeado Director Editorial da Quetzal e em Setembro desse ano são publicados os primeiros livros com o actual logótipo - para um projecto renovado fez-se corresponder uma nova imagem.

domingo, 6 de junho de 2010

Vergílio Ferreira – dois livros inéditos


“ Um diário. Uma carta. Ou simplesmente as memórias. Nós
lemo-las com um prazer diferente de uma obra de arte ou mesmo
da arte que está nelas. Não é bem o de saber o que aconteceu,
mas o de estarmos nós acontecendo nisso que aconteceu.
Ou seja, de prolongarmos a nossa vida até lá.”

Vergílio Ferreira, «Escrever»



Vergílio Ferreira

Trago-vos hoje uma notícia, que não sendo propriamente bibliófila, pois é mais bibliómana, se refere a um autor que já teve várias referência aqui e em contextos bibliófilos: Vergílio Ferreira.

Este escritor tem, para mim, um significado muito particular, para além da minha admiração e gosto pela sua vasta bibliografia.

Se por um lado nunca o poderei esquecer como professor de Português no “velho” Liceu de Camões, o seu relacionamento com os alunos bem como o ar, sempre um pouco pensativo, mas que sabia retribuir com simplicidade um sorriso ou um cumprimento, quando se deslocava da sala de aulas para a “sala dos professores”.

Reconheço que, em grande parte, lhe devo o meu gosto pela escrita. com as suas propostas para as “Redacções/Composições” ... lembro-me de um dos temas propostos: “Se eu fosse um banco de jardim...”.
De facto, o que se podia escrever sobre um tema tão vasto!


Vergílio Ferreira - Conversando com os alunos
no Liceu Camões (Lisboa, 1981)

Vergílio António Ferreira nasceu na aldeia de Melo a 28 de Janeiro de 1916 e faleceu a 1 de Março de 1996 em Lisboa. Filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira. Em 1920, os seus pais emigram para os Estados Unidos, deixando-o, com seus irmãos, ao cuidado de suas tias maternas. Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940). Foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país, nomeadamente no Liceu de Camões em Lisboa (veja-se a referência aos professores de Manhã Submersa e Aparição), foi como escritor que mais se distinguiu.

A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neo-realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos.

Inicialmente neo-realista depressa se deixou influenciar pelos existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre), iniciando um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949).


Jean-Paul Sartre

É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, tendo ganho vários prémios; os principais são o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (ganho duas vezes, primeiro com o romance Até ao Fim e depois com o romance Na tua Face), e o Prémio Femina na França com o romance Manhã Submersa. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões.

O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira.

Vem isto a propósito de inéditos que têm vindo a estampa como fruto do seu espólio, legado pela viúva à Biblioteca Nacional, e a propósito do lançamento de mais um volume inédito, que é a sua primeira obra de ficção: “A Curva de Uma Vida”



FEREEIRA, Vergílio – “Diário Inédito: 1944-1949”. Lisboa, Bertrand Editora, 2008. Apresentação de Helder Godinho. Introdução de Fernanda Irene Fonseca. 183(2) + 2 pp. com 4 fotografias do manuscrito em extra-texro (intercaladas entre as pp. 32 e 33. Brochado. Capa cartonada com badanas.

Este título, um diário inédito de Vergílio Ferreira, surgiu no mercado livreiro em 2008..

Os escritos reunidos neste volume são de uma tentativa de diário do autor que corresponde ao período que medeia os anos 1944 e 1949, numa fase de Mudança no seu pensamento e nos seus escritos, numa altura fulcral para o escritor que Vergílio Ferreira veio a ser. É, no entanto, um escrito que Vergílio nunca deu à estampa e a que se refere nos seus diários posteriores (surgidos bem mais tarde) como tentativas falhadas da feitura do registo avulso do dia a dia.

A organizadora do volume, Fernanda Irene Fonseca, na Introdução, que se estende das págs.11-37 faz um estudo de fixação de texto e de análise do mesmo, que o torna de indispensável consulta/leitura.

Refira-se que existe uma 2ª edição integrada no sua “Obra Completa”



FERREIRA, Vergílio – “A Curva de Uma Vida”. Lisboa, Quetzal Editores, 2010. Introdução de Ana Isabel Turíbio. Obra Completa. 54(1) / 94(1) pp. Brochado. Capa cartonada com badanas. (edição em duas: de um lado o texto com aparato crítico, do outro, a novela sem notas)

È a primeira obra (1938) escrita por Vergílio Ferreira. É anterior de um ano ao primeiro romance publicado, O Caminho Fica Longe, concluído em 1939. Encontramos já um dos temas vergilianos: a ausência do pai, que aqui se manifesta pelo desconhecimento da genealogia.

Trata-se de uma edição genética e critica de Ana Isabel Turíbio e Cátia Barroso. A Introdução de Ana Isabel Turíbio constitui um excelente estudo sobre o seu trabalho: “Esperamos que a edição genética da primeira ficção vergiliana, ao permitir a realização do «filme da escrita do texto», seja um contributo para o conhecimento da génese da obra do escritor, em geral, fazendo jus à definição de Ivo Castro: (...)”

O Professor Hélder Godinho também e acrescenta que Vergílio Ferreira "preparou o seu espólio para os estudiosos futuros. Estava tudo muito bem organizado e com anotações.".


Vergílio Ferreira

São dois livros muito importantes, quer para os «arqueólogos da obra» quer para os «leitores apaixonados», mas também para todos os leitores comuns e apaixonados pela obra de Vergílio Ferreira..

Resta agora a sua leitura e as opiniões que sobres eles se escreverão, quanto ao escritor merece um estudo muito mais detalhado, sobretudo com referências às suas obras de maior procura bibliófila ... quem sabe qualquer dia voltaremos a conversar.

Saudações bibliómanas


Bibliografia:

Para além da bibliografia passiva sugerida pelo Instituto Camões, no link acima colocado, sugiro como consulta mais acessível:


As Mãos da Escrita – 25 Anos do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea
(com alguns documentos manuscritos de Vergílio Ferreira)