"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

domingo, 17 de maio de 2009

O livro brochado


HUGO, Victor - Le Pape
Calmann-Lévy, Paris 1878, 14,5x19cm, brochado.
1ª edição in-12, surgida no mesmo ano da original, e no mesmo editor.
(Um dos 100 exemplares impresso em papel de Holanda)

Hoje venho trazer-vos um tema de reflexão: que fazer quando se adquire um livro brochado?
De acordo com as imagens que ilustram este artigo, a decisão mais fácil de se tomar será em relação ao primeiro, dado o seu bom estado de conservação provavelmente todos o manteriam neste estado, precisamente como a obra apareceu à venda e conseguiu sobreviver nesta agradável condição até aos nossos dias. O segundo levanta outros problemas, visto a lombada ter pequenas faltas estar parcialmente descolada e ter algumas mancha internas.
Mas vejamos, somos bibliófilos, e, com tal, gostamos dos nossos livros pelo prazer da sua leitura.

HUGO, Victor - Le Pape
(Página de título)

Se é verdade que um bibliófilo é aquele estranho personagem que pratica o culto complexo pelo livro com um conjunto de sentimentos, incompreensíveis, para os não iniciados, que vão desde a sensibilidade, o carinho, o amor e o respeito pelo livro, tendo em conta o seu conteúdo, e igualmente por um conjunto de outras características intrínsecas ao mesmo tais como o tipo de papel utilizado, as ilustrações e os ilustradores, o aspecto e qualidade gráficas, se é autografado ou se tem alguma dedicatória pelo punho do escritor, o maior ou menor esplendor da encadernação, se esta é assinada, os materiais utilizados, tentar saber o seu percurso até chegar às suas mãos, o seu estado de conservação, o número de edições que teve, qual a mais rara – por vezes não é a primeira, se é uma edição limitada e numerada, entre tantos outros aspectos.
Contudo ficamos sem saber o que faz entrar uma pessoa neste culto pelo livro.
Só cada um poderá definir a sua razão, e dificilmente se conseguirão obter duas respostas iguais. Todos têm apenas em comum o facto de serem leitores de livros e amantes e coleccionadores de obras raras e preciosas.

HUGO, Victor - Le Pape

(interior, exemplar de grandes margens)

Mas voltemos aos “exemplares mais pobres” das nossas colecções – o livro brochado, pois penso que um livro numa magnífica encadernação é o orgulho de qualquer bibliófilo.
Por mais cuidado que se tenha, e, estes livros passaram por várias mãos, e nem todas de bibliófilos, pelo que mostram evidentes sinais de leitura...cumpriram o seu papel!
O livro é publicado para ser lido e não para ser guardado como um objecto decorativo numa prateleira de uma biblioteca (há quem compre livros a metro, bem decorativos pois claro!, para encherem algumas das prateleiras dum móvel na sua sala para impressionar os amigos).

DUMAS, Alexandre - Monsieur Coumbes
Librairie Nouvelle A. Bourdilliat & Cie, Paris 1860, 12x18, 5cm, brochado.
Edição original não referenciada no Clouzot.

Creio que só se podem tomar três decisões: mantê-los como os comprámos, mandar fazer um estojo imitando um encadernação, ou mandá-los encadernar.
DUMAS, Alexandre - Monsieur Coumbes
(lombada)
Não sou um puritanista exaltado, mas parece-me que as duas primeiras opções são as mais correctas em bibliofilia. Poderemos sempre lê-lo e revê-lo como foi editado...mantendo-o por outro lado bem protegido.


DUMAS, Alexandre - Monsieur Coumbes
(interior)

Para o prazer de alguns dos meus leitores, deixo um exemplo de um livro cuja atitude de manutenção não merece discussão (prometo voltar um dia a falar do mesmo), por hoje fica só a sua fotografia.

FRANQUESNAY, Jacques de La Sarraz du - LE MINISTRE PUBLIC DANS LES COURS ETRANGERES, ses fonctions et ses prérogatives. Par le sieur J. de La Sarraz du Franquesnay.
A Paris, chez Etienne Ganeau, libraire rue St-Jacques, aux armes de Dombes, 1731
1 volume in-12 (17 x 10 cm) de xxiv-293-(5) pags. E.O.

Obrigado pela vossa leitura e pelos sempre benvidos comentários.
Saudações bibliófilas.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Catálogo da Livraria Castro e Silva


Sempre com o propósito de divulgação de eventos bibliófilos, não quero deixar de assinalar o lançamento do Catálogo n.º 112 pela Livraria Castro e Silva, uma das mais conceituadas em Lisboa.
Podem descarregar o mesmo, em versão pdf, neste link:
http://www.castroesilva.com/Catalogos/Cat112.pdf
Boa leitura e, já agora, espero que encontrem algo do vosso interesse.
Saudações bibliófilas

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Louis Maimbourg um historiador controverso

MAIMBOURG, Louis - Histoire de la Ligue
Chez Sebastien Mabre-Cramoisy, Paris 1683, in-4, 19,5 X 26 cm, Encadernado. E.O.
Armas gravadas nas pastas
Encadernação inteira em pele da e época, lombada com 5 nervos ornados de caixotões e ferros dourados, capas com as armas “IHS” ornados de um largo rendilhado dourada de motivos vegetais e florões de ângulo em enquadramento, rendilhado dourado sobre os rebordos das capas e das coifas, corte das folhas dourado.
Frontispício
Ornado dum frontispício desenhado por Licherie e gravado por Baudet, com várias vinhetas e letrinas

Colação : 2 fls brancas, frontispício, 1 pag. de título, 19 pgs de introdução, 9 pgs de sumário, 539 pgs paginadas, 12 fls de indice, 1 pag. de privilégio, 2 fls brancas.

A Liga Católica ou Santa Liga ou Santa União é o nome dado a um agrupamento de católicos, criado na Picardia, em 1576. Foi apoiado pelo Papa Sixto V, Jesuítas, e Filipe II da Espanha

Louis Maimbourg

Louis Maimbourg, nasceu a 10 de Janeiro de 1610 em Nancy e faleceu em 13 de Agosto de 1686 em Paris, foi um homem de Igreja e historiador do Ducado da Lorraine.
Foi jesuita de 1626 para 1682. Depois de algum tempo como professor em Dijon (1630-1634) fez estudos de Teologia que começou em Paris (1634-1636) e prosseguiu na Universidade Pontifical Gregoriana de Roma (1636-1638). Foi ordenado padre em 1637. Ensinou durante dez anos as Humanidades no Colégio dos Jesuítas em Rouen, seguidamente tornou-se pregador.
Manteve violentas controvérsias com os Jansenistas e contestou nomeadamente a sua tradução da Bíblia.
A sua defesa pública e vigorosa de Luís XIV, no conflito que o opunha ao Papa Inocêncio XI, teve como consequência ser expulso da sua Ordem por este em 1681.
Mas Luís XIV concedeu-lhe uma pensão e o direito de residir na Abadia de Saint-Victor de Paris. Foi um historiador prolifero. Voltaire lamentava que tivesse sido demasiado ignorado e do qual dizia no seu “Siècle de Louis XIV”: « Il y a encore quelques-unes de ses histoires qu’on ne lit pas sans plaisir. Il eut d’abord trop de vogue, et on l’a trop négligé ensuite. Ce qui est singulier, c’est qu’il fut obligé de quitter les jésuites, pour avoir écrit en faveur du clergé de France. » (1751). Pierre Bayle, em contrapartida, foi muito mais crítico da sua obra, em especial da sua "Histoire du calvinisme" (1682) ("Critique de l’histoire du calvinisme du Père Maimbourg", 1683).

Obrigado pela leitura e vossos comentários
Saudações bibliófilas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A propósito de um ex-libris.


ZOLA, Emile - "Le Naturalisme au théâtre "
Charpentier, Paris 1881, 12,5 x 19 cm, encadernado. E.O.
Encadernação inglesa assinada « The Atelier Bindery » em inteira de pele vermelha.



Ex-libris gravado sobre pele do bibliofilo Arthur M. Brown
colado no canto superior da pasta interior da capa da encadernação.

Dedicatória do autor, na página do ante-rosto, ao escritor Jacques de Nittis.



O naturalismo é uma escola literária que, nas últimas décadas do século XIX, procura introduzir na arte o método das ciências experimentais aplicadas à biologia por Claude Bernard. Émile Zola, chefe de fila do naturalismo, expõe esta teoria no "Roman expérimental" (1880). De França, o naturalismo estendeu-se a toda a Europa no decurso dos vinte anos seguintes. Fixando, as procuras semelhantes, que já existiam em diferentes literaturas nacionais

Emile Zola (c. 1880)

É no prefácio de "Thérèse Raquin" e, sobretudo no “Roman expérimental" (1880) que Zola formula a sua teoria. Tomando como modelo o Dr. Claude Bernard da "Médecine expérimentale" (1865), e seguindo o método passo a passo, Zola considera «le romancier est fait d'un observateur et d'un expérimentateur » «Au bout, il y a la connaissance de l'homme, la connaissance scientifique, dans son action individuelle et sociale. »
"Le Naturalisme au théâtre" expõe as mesmas teorias aplicadas ao teatro.



Não apresento este livro para fazer uma elaboração teórica sobre o naturalismo na literatura, nem tão pouco, por ser uma obra fundamental de Emile Zola, mas para falar de ...Arthur M. Brown, ou melhor do destino da sua biblioteca.

Como se pode inferir, pelo presente volume, deveria ser um bibliófilo com bom gosto e apreciador de boas encadernações. No entanto, com o seu desaparecimento, os seus livros ficaram “órfãos”, mas, numa primeira fase, “alguns irmãos” conseguiram ainda ficar juntos, mas os tempos vão mudando... e nova venda é feita.

E, pude acompanhar na eBay, como um pequeno grupo de cinco irmãos foram definitivamente separados, indo cada um para uma nova casa!

Penso que isto nos deve levar a pensar com salvaguardar o destino dos “nossos meninos” (leia-se livros) após a nossa partida para evitar uma crise de orfandade tão cruel como a que descrevi.

Será que os livros são “amantes infiéis” (como disseram num comentário) ou nós é que somos uns guardiões pouco zelosos?

Claro que não se pode guardar tudo, por vezes há que vender, ou trocar, com um colega ou livreiro, um, ou alguns livros, para se adquirir outros que possam enriquecer a nossa biblioteca, mas isso é uma lei do comércio, refiro-me aqui ao núcleo consolidado das nossas colecções

Obrigado por me acompanharem na minha divagação e pelas vossas sugestões.
Saudações bibliófilas

sábado, 9 de maio de 2009

Camilo Castelo Branco




Hoje vou falar do escritor que ilustra o meu Blog: Camilo Castelo Branco.
Para mim, ao ler um livro, leva-me sempre a pensar no homem que o escreveu, como viveu, quais as suas posições perante a sociedade do seu tempo, quais as suas paixões e interesses, pois creio que tudo isto se reflecte na sua obra.
E no caso concreto de Camilo podemos verificar, que a sua vida, bastante agitada, ficou bem espelhada na sua vastíssima obra literária, que se estendeu pelo romance, teatro, poesia e jornalismo; participou em várias polémicas sobre temas do seu tempo. Foi um cidadão activo na sua época.
Em relação ao escritor refira-se que "Amor de Perdição", a sua obra mais conhecida, faz parte da chamada segunda fase do romantismo, em que o amor pode levar até as últimas consequências (como a própria morte). É o grande romancista do Romantismo português "Romance de um Homem Rico" (1861), experimentou também as novas técnicas da escola realista com intuitos jocosos "Eusébio Macário" (1879) e num texto de final de carreira, que é um dos seus mais belos romances: "A Brasileira de Prazins" (1882. Magistral nos lances arrebatados e místicos da paixão exacerbada e dos laços familiares conflituosos "O Retrato de Ricardina" (1868), assim como na sátira social "A Queda dum Anjo" (1866) e na autocrítica, nomeadamente literária.
Saliento como as maiores raridades bibliofilas:” Bico de Gaz” (1854), “Infanta Capellista” (1872), “Caleche”, “Folhas Cahidas”, a folha solta de setim de “Laura Geordano”, os raríssimos folhetos “Hosanna", "Maria não me mates que sou tua mãi", “Folhas cahidas apanhadas da lama” e o “Folhetim do Nacional”. Um folheto de poesia, da mais alta raridade, desconhecido de alguns dos seus bibliógrafos “As duas actrizes” (1849). E os seus romances mais conhecidos. “Amor de Perdição”(1862), ”Carlota Angela”(1858), “Anathema” (1851) e as “Scenas Contemporâneas” (1855). Entre as obras poéticas e teatrais destacam-se: “Juízo Final” ( 1845) “Inspirações” (1851) “Murraça” “Pundonores Desagravados” (tiragem de 5 exemplares) “Revelações” (1852) "Agostinho de Ceuta” (1847)”Marquez de Torres Novas”(1849) ”Abençoadas Lágrimas” (1861). Nas traduções destaque para as de Chateaubriand.
Deixo propositadamente a descrição e apresentação destas obras para um outro artigo, agora interessa apenas o homem.
Não posso deixar de referir que Camilo, foi igualmente bibliófilo, pois reuniu uma importante biblioteca, cujo catálogo foi escrito pelo seu punho e publicado em 1883:
CATALOGO DA PRECIOSA LIVRARIA DO EMINENTE ESCRIPTOR CAMILLO CASTELLO BRANCO, contendo grande numero de livros raros, em diversas línguas, e muitos manuscriptos importantes, a qual será vendida em leilão, em Lisboa, no proximo mez de dezembro de 1883 no local opportunamente annuciado sob a direcção da casa editora de Mattos Moreira & Cardosos. Lisboa, Typographia de Mattos Moreira & Cardosos. 15, Largo do Passeio Público,16. 1883


Actual casa da Rua da Rosa, em Lisboa, onde nasceu o romancista

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, num prédio da Rua da Rosa, actualmente com os n.º 5 a 13. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, foi baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825. Os seus padrinhos foram o Dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.
Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, pelo que se diz, porque o seu pai e a sua avó não queriam que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com alguém de tão humilde condição.
Camilo fica orfão aos dez anos de idade. Jacinta morre dois anos depois do seu nascimento, a 6 de Fevereiro de 1827, e o pai morre em Lisboa, a 22 de Dezembro de 1835. Como era uma criança sensível e muito inteligente, vai sofrer grandes perturbações com todos os acontecimentos da sua infância.
Camilo inicia os estudos primários, em 1830, em Lisboa, primeiro na escola de mestre Inácio Minas, na rua dos Calafates, depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.
Após a morte do pai, Camilo e a sua irmã Carolina são enviados para Vila Real ficando ao cuidado da sua tia Rita Emília da Veiga Castelo Branco e do seu amante João Pinto da Cunha, este nomeado tutor dos menores.
Ao longo da sua existência revelou-se um falhado nos estudos e nos amores. As vicissitudes da vida fazem-lhe despoletar a ideia de que a fatalidade e a desgraça são destinos a que não podia escapar.
Em 1841 casa-se com Joaquina Pereira de França e passa a viver em Ribeira de Pena. Dois anos depois, a 25 de Agosto de 1843, nasce Rosa Pereira de França, filha de Camilo com Joaquina.
Camilo prossegue os estudos com o padre Manuel Rodrigues, conhecido por padre Manuel da Lixa e, em 1843, já no Porto é aprovado na Escola Médica e na Academia Politécnica. Contudo, na Escola Médica do Porto perde o ano por faltas e tenta o curso de Direito em Coimbra.
Camilo desloca-se a Lisboa na tentativa de entrar na posse da sua parte da herança paterna e em condições pouco claras consegue, em 1846, ficar com o que restava da herança.
Volta a Vila Real, apaixona-se por Patrícia Emília de Barros e foge com ela para o Porto. João Pinto da Cunha, que entretanto tinha legalizado a sua ligação com Rita Emília, manda-os prender alegando que Camilo lhe roubara 20.000 cruzados, situação que mais tarde e publicamente se virá a retratar-se.
Camilo e Patrícia permanecem na Cadeia da Relação do Porto de 12 a 23 de Outubro e escreve a Alexandre Herculano pedindo-lhe protecção.
Em 1847 Camilo e Patrícia vivem em Vila Real enquanto que em Friume morre Joaquina Pereira de França e um ano depois a filha Rosa. Nesse mesmo ano nasce Bernardina Emília da sua ligação com Patrícia e instalam-se no Porto, onde Camilo leva uma vida de boémia.
Em 1850 vai para Lisboa onde começa a publicar na “A Semana” o seu primeiro romance “Anátema”. Camilo regressa ao Porto e matricula-se no Seminário Episcopal, desistindo um ano depois.
No Porto, onde Pinheiro Alves mantinha os seus negócios, casou, em 1850, com Ana Plácido. Ao fim de oito anos de vida conjugal, nasceu Manuel Plácido. Antes deste nascimento, porém, já as alegadas ligações amorosas de Ana com Camilo eram objecto de comentários públicos pouco abonatórios, e após várias tentativas para a demover dessa paixão, o marido traído desencadeou um processo judicial por crime de adultério. Camilo e Ana foram presos, julgados e estranhamente absolvidos.

Camilo Castelo Branco e Ana Plácido

Em 1856 assume o cargo de director literário da “A Verdade”. Nesse mesmo ano sente os primeiros sintomas de cegueira, mas continua a publicar obras.
Após a morte de Pinheiro Alves a 17 de Março de 1863, Camilo instala-se, no inverno desse mesmo ano, com a família na Quinta de S. Miguel de Ceide, propriedade que coube, por herança, a Manuel Plácido, suposto filho de Pinheiro Alves. Em Lisboa, a 28 de Junho de 1863, nasce Jorge Plácido Castelo Branco e um ano depois, a 15 de Agosto, Nuno Plácido Castelo Branco.
Com a colaboração de Ana Plácido funda e dirige em 1868 a “Gaseta Literária” do Porto. Nesse mesmo ano reconhece a loucura do seu filho Jorge e os sintomas de cegueira agrava-se cada vez mais. O que o leva a deslocar-se, em 1886 e em 1887, a Lisboa em busca da cura para a cegueira que se avizinha.
Por iniciativa de João de Deus, Camilo recebe em Lisboa no dia do seu aniversário a consagração de escritores, artistas e estudantes. Em 23 de Dezembro é visitado pelo destronado Imperador do Brasil, D. Pedro II.
Depois da visita do oftalmologista Dr. Edmundo Magalhães Machado, a 1 de Junho de 1890, Camilo suicida-se com um tiro na cabeça, na freguesia de Ceide, Vila Nova de Famalicão.

Casa de S. Miguel de Seide onde Camilo viveu e se suicidou em 1890

Para os mais curiosos deixo o link para a Casa Museu de Camilo Castelo Branco, aonde podem espreitar um pouco da sua intimidade: http://www.geira.pt/CMCamilo/


Bibliografia:
CARVALHO, Miguel de – Descrição bibliográfica Camiliana, de uma importante e valiosa colecção de bibliografia activa e passiva de Camillo Castello Branco. Coimbra, 2003
CABRAL, Alexandre – Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa, 1989

DICIONÁRIO CRONOLÓGICO de AUTORES PORTUGUESES - LISBOA (Eugénio) e ROCHA (Ilídio) Coordenação. 5 Volumes. Mem Martins, I.P.L.N. / I.P.L.B. - Publicações Europa América, s.d. - 1998.

Obrigado pela leitura paciente deste extenso artigo, ma o escritor merece-o, e pelos vossos comentários

Saudações bibliófilas

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um livro dificil...

Quero apresentar-vos hoje um livro do século XVI, que considero difícil, não pela sua extrema raridade, é efectivamente um livro raro e de uma grande qualidade tipográfica do qual não tenho conhecimento de que tenha sido vendido algum exemplar nos últimos 30 anos, mas sobretudo pela sua classificação e data de tiragem...o que constitui um grande desafio para qualquer bibliófilo.
Trata-se de:

AEMILIUS (PAULUS) - PAULI AEMILII VERONENSIS DE REBUS GESTIS FRANCORUM. LIBRI IIII.

Regio privilegio cautum est nequis intra triennium in Regno Franciae hoc opus rursus imprimat:aut alibi impressum vendat.

Venundantur in aedibus Iodoci Badii Ascensii. s.l.n.d. (Paris, Josse Bade, ca 1516-1519)


Nascido em Verona, Paolo Emili veio para França durante o reinado de Carlos VIII. Pensionista do rei desde 1489, foi encarregue de redigir um História da Monarquia Francesa, em latim. Levou quase trinta anos na sua redacção: os seis primeiros livros apareceram em 1517 e 1519 (edições consideradas raras); a sequência, redigida, conforme as suas notas, pelo seu amigo Zavarizzi, foram anexadas às edições de 1539 e 1544.

Josse Badius Ascensius (1462-1535), nascido em Lyon foi um impressor famoso assim como um grande humanista.


Trata-se de um volume pequeno in-fólio (30 x 21,5 cm) de CCLXXXVIII fls. incluindo o titulo. Título com uma cercadura historiada gravada em madeira, com a marca do impressor (imagem do sua oficina). Encadernação inteira de pele castanha com decorações a frio (restauro antigo na lombada), as capas tem algum desgaste esbatido, mas a encadernação mantem-se bastante sólida. O interior é impecável sem manchas ou picos de humidade. Exemplar com grandes margens.




Apresenta um ex-libris manuscrito dos Camilianos, nome usual da Ordem dos Ministros dos Enfermos (MI), fundada em 1590 pelo religioso italiano S. Camilo de Lellis e voltada à assistência espiritual e corporal dos doentes. Um outro ex-libris manuscrito, com nome não decifrável, mas com caligrafia do início do séc. XVI, (provavelmente o seu primeiro proprietário), carimbo de tinta antigo com D e M, com uma cruz, inscritos dentro de um círculo (provavelmente anterior ao séc. XVIII) e o ex-libris de Mathieu Lützenkirchen (1862-1924) actor dramático austríaco.

Estas marcas permitem-nos seguir um pouco o percurso e a posse do livro.




Mas agora é que começa a dificuldade bibliófila da sua datação, pois esta só é possível, segundo Ph. Renouard fazer-se de acordo com o número de folhas do exemplar.

Resumidamente:
1º estado: CXXIIII fls. O volume só contem os quatro primeiros livros
2º estado: CXXIIII fls. O volume contem os sete livros, em vez dos quatro.
3º estado: CCLXXXVIII fls. Compreende os nove livros
4º estado: A colação é a mesma, que a do terceiro estado, mas os quatro primeiros livros e o título são de uma nova impressão com os erros assinalados nos estados anteriores corrigidos.
5º estado: Idêntico ao quarto, mas a Operis impressi recognitio, as adendas, etc., são suprimidas e substituídas por uma nova errata, em 2 fls. assinaladas * : In septem libris reponenda. // colocado no fim do volume, depois do nono livro. Estas duas fls. faltam neste exemplar. Uma carta de Erasmo a Josse Badius, de 21 fevereiro de 1517 (n. st.) indica que os quatro primeiros livros estavam já publicados nesta data; uma outra carta de Pierre Aegidius a Erasmo, de 19 junho de 1519 informa que nesta época: Paulus Aemilius reliquos historiarum suarum libros formulis excudendos Badio tradidit.

Concluo tratar-se da obra no seu quinto estado, com a falta das referidas folhas de errata, e como tal impressa entre 1516 e 1519, muito provavelmente em 1518.



Referências : Ph. Renouard, Bibliographie des impressions de Josse Badius Ascencius (1462-1535), Paris, 1908, voir tome II, p. 2-3. Michaud, Biographie universelle, tome XIII, p. 119-120 (éd. 1815).
Quero expressar aqui a minha gratidão aos meus amigos Bertrand H.- R. e a Alain M., pela sua preciosa colaboração, sem as quais não poderia ter escrito este artigo


No entanto, apesar da minha exposição, os livros em latim só devem merecer a nossa atenção quando impressos pelos grandes impressores Josse Bade, Alde, Estienne, Colines, Kerver, etc., visto a sua procura não ser a mesma de há alguns anos atrás (ler latim é sempre um grande problema, e, como sempre disse, um livro vale, sobretudo, pelo prazer da sua leitura!)

Como curiosidade, anexo a Ficha de Identificação deste mesmo livro na Biblioteca Nacional de França:

Emili , Paolo (1460-1529) , Auteur
Titre
Pauli Aemilii Veronensis De Rebus gestio Francorum libri IV...
Publication
[Parisiis] : vaenundantur in aedibus Jodoci Badii , [circa 1518]
Description
287 [sic pour 288]-[2]ff. : titre dans un encadr. gravé 2°
Notes
H 146
Impr. par., II, 751
Moreau, Inv. éd. par., II, 1810
Renouard, Badius, II, pp. 2-3
Marque de Bade (Renouard, 22, état IV]
Ed. comprenant les 8e et 9e livre, probablement citée dans une lettre d'Erasme du
19 juin 1518)

Obrigado pela vossa paciente leitura e comentários

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Conversa bibliófila



HUGO, Victor - Cromwell. Drame.
Ambroise Dupont, Paris 1828, 14 X 22,5 cm, in 8.º. [E.O.]. Enc.
Edição original com o mais célebre prefácio do Romantismo francês.

Como deixei antever no descritivo do Blog, não sou um grande conhecedor de bibliofilia nem possuidor de uma grande colecção de livros antigos repleta de obras raríssimas e, quase, únicas.
Vou construindo uma pequena colecção, baseada, no interesse que os autores me despertam, e, sempre, pelo prazer de os ler!
De que serve uma biblioteca repleta de livros, que por mais raros que sejam, nunca os cheguemos a ler?
Tenho alguns exemplares com evidentes sinais de uso, que me fazem sonhar por quantas mãos terão passado e, se o prazer que a sua leitura lhes despertou, foi a mesma que eu senti?
Os conhecimentos bibliófilos vão-se adquirindo ao longo dos anos, nos contactos que mantemos com alguns livreiros, os quais nem sempre nos acolhem bem (“...mais um principiante para nos aborrecer!”) e, muitas vezes, tentam vender-nos uma obra vulgar como se tratasse de um exemplar da mais alta raridade e a um preço especulativo; mas, sobretudo dentro do nosso círculo de amigos que partilham a mesma paixão.
E, curiosamente, quando mais parece que estamos a desbravar caminho, mais dúvidas se nos põem, e, cada vez reconhecemos a nossa ignorância...que, às vezes, para alguns, e pelas más experiências, os levam a desistir.
È preciso muita persistência, vontade de aprender. ter um espírito aberto, saber escutar e, evidentemente, alguma disponibilidade financeira.
Neste último aspecto, ainda que importante, julgo poder construir-se uma colecção importante desde que se limitem bem os parâmetros da mesma.
Dir-me-ão que o raro se valoriza sempre, enquanto que o menos raro flutua ao gosto da época, com o que estou de acordo
Mas pode-se fazer uma colecção dos séculos XVIII-XIX, não muito dispendiosa, constituída por alguns livros antigos (devendo alguns serem ilustrados) pouco comuns, e, mesmo alguns raros, os quais lhe interessa sobretudo pelo prazer da sua leitura e lhe permitirem conhecer o modo como se pensava e vivia nessa época.
Haverá algo de mais gratificante?
(Claro que este bibliófilo não enriquecerá com a sua colecção, mas será certamente bastante feliz, quando lê, ou relê, as suas obras ou, muito simplesmente, as folheia!)



BRUNET, Jean Charles – Manuel du Libraire et de l’Amateur de Livres
Paris, Firmin - Didot 1860 -1863. 6 volumes. In 8.º cinquième édition originale.
Meia-encadernação cartonada recoberta de papel marmoreado,com título dourado sobre rótulo vermelho. Coifas parcialmente desfeitas.
(Faltam os suplementos)



A este propósito, cito um grande bibliófilo J.-C. Brunet, que, humildemente, escreveu: «De quel droit, en effet, me serais-je érigé en censeur universel ? je me suis seulement permis de dire que tel ouvrage était estimé, que telle édition était préférable á telle autre, parce qu’il est censé que ses observations sont plutôt le résultat de l’opinion générale que mon sentiment particulier.» (1868)




RAHIR, Edouard - La Bibliothèque de l'amateur. Guide sommaire à travers les livres anciens les plus estimés et les principaux ouvrages modernes.
Paris, Damascène Morgand 1907
.
1 volume, in-4, 255 x 175, Encadernação de época em meia-tela, com gravuras no texto e extra-texto, capas conservadas. 408 páginas. Com dedicatória e homenagem do autor a Monsieur L. Badin (fundador da Librairie Giraud-Badin).



Podemos igualmente orientar as nossa opções de acordo com os critérios definidos por Edouard Rahir:
« Si nous avons pu, a l’aide de nombreux ouvrages de critique, faire avec un peu de certitude, le choix des livres les plus célèbres au point de vue littéraire, pour les livres se rapportant a des matières spéciales, nous avons envisagé la question au point de vue bibliophilique, mentionnant surtout les ouvrages autrefois estimes, qui, souvent bien imprimés au reliés avec soin, son dignes d’être encore favorablement accueillis par les bibliophiles curieux des choses du passé, alors même des traites plus récents ont parfois déprécié ces volumes aux yeux des lettres et des savants »
Pags. VII-VIII in « La Bibliothèque de l'amateur »





UZANNE, Octave - Physiologie des Quais de Paris. [E.O]

Ilustrações deEmile MAS.
Paris, Ancienne Maison Quantin ; Librairies-imprimeries réunies, Bouquinistes et bouquineurs, 1893 (achevé d'imprimer le 20 décembre 1892), grand in-8° (258x170mm.) ; 3ff. XI, 318pp, 1f.


Mas o maior prazer para qualquer bibliófilo é bem definido por Gustave Uzanne quando ele cita uma reposta de Paul Lacroix (O bibliófilo Jacob):
« N’avait-il pas raison, le cher Paul Lacroix, lorsqu’il écrivit : « Si l’on me demande quel est l’homme le plus heureux, je répondrai. Un bibliophile, en admettant que ce soit un homme. D’où il résulte que le bonheur c’est un bouquin. »
Pag. 198 in « Physiologie des Quais de Paris »



Quantos de nós, que passaram por Paris, não se deliciaram a percorrer a margem do Sena e a vasculhar os expositores dos “bouquinistes”. (Infelizmente não se encontravam as personalidades tão marcantes do século XIX, como as citadas por Uzanne no seu livro.)
Ou, como nos nossos países, e no caso de Portugal, dar um salto ao Terreiro do Paço e percorrer as arcadas e ver os livros e folhetos, que os vendedores espalhavam na calçada...e qual não era o prazer da descoberta, mesmo dum simples folheto, que há tanto procurávamos..
(Infelizmente hoje desaparecida)


Obrigado pela vossa leitura e opiniões.