"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Livraria Manuel Ferreira: Leilão da Biblioteca do Professor Doutor Fausto Martins



Bem parece que os leilões vieram em força e estão para durar … por este andar nunca mais publico os meus modestos “escritos”.

Desta vez, é a Livraria Manuel Ferreira do Porto que organiza o leilão da Biblioteca de Arte, História e Religião reunida pelo Professor Doutor Fausto Martins.





Este leilão decorrerá entre os dias 3 a 6 de Novembro de 2010, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, no Porto.

Dos vários lotes presentes deixo algumas das suas páginas, escolhidas ao acaso, para uma primeira visualização.

Do I Volume do Catálogo deixo estas imagens:

 
Catálogo – Volume I – pág. 4


Catálogo – Volume I – pág. 46


Catálogo – Volume I – pág. 64

Como já se aperceberam trata-se de um leilão com um belo acervo de livro antigo, mas vejamos alguns exemplos do Volume II do referido Catalogo:


Catálogo – Volume II – pág. 11


Catálogo – Volume II – pág. 25


Catálogo – Volume II – pág. 203

É um leilão com um público mais específico, pelo conjunto de obras propostas, mas mesmo assim é, aliás como o estimado Herculano Ferreira já nos habituou, um importante evento bibliófilo.

Estes Catálogos justificam uma leitura atenta, mais que não seja só como consulta, para se avaliar da vasta bibliografia sobre os temas em praça.

Saudações bibliófilas.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Bauman Rare Books: October Holiday 2010 Catalogue




October Holiday 2010 Catalogue

Recentemente, saiu mais um belo Catálogo desta prestigiada livraria-atiquária americana. Como sempre recheada de obras de excepcional beleza e de grande raridade … claro que os preços estão de acordo com estes dois itens (mas, mesmo assim, parecem-me sempre um pouco elevados demais para certas obras – será apenas impressão minha?)

Reúne, como sempre, um conjunto de obras sobre vários temas, ainda que algumas mais viradas para o mercado americano, como aliás seria de esperar, mas com algumas outras também de interesse para nós europeus. Como curiosidade, apresenta já algumas propostas para ofertas natalícias – se calhar pelos seus preços… para se começar a economizar para a sua aquisição.


Índice do Catálogo

Apresenta igualmente o depoimento de um coleccionador americano, que como narrativa de uma experiência bibliófila, a sua leitura é sempre de utilidade para nós ... descontando evidentemente o carácter publicitário da mesma.

Como apontamentos de abertura, aqui ficam três exemplares para os apreciadores de encadernações. Grupo no qual, como é do conhecimento de todos, também estou incluído.


King James Bible

24. (BIBLE) (BOOK ARTS). The Holy Bible, Containing the Old Testament and the New. London: 1619. Thick 12mo, contemporary full white satin fully embroidered in colored silks, silver cords and thread silver braid, all edges gilt and gauffered.

Early edition of the King James Bible, bound with the Book of Common Prayer, Metrical Psalter and the Genealogies, which includes 34 pages of woodcut genealogies and a double-page woodcut map of the Holy Land (with an inset map of Jerusalem), in a splendid contemporary embroidered binding.

This early edition of the magisterial King James Bible, which was first published in 1611, has been lovingly bound in embroidered red satin. On both covers, a floral centerpiece in white, red, light green and dark green silks is surrounded by intricate silver thread work and smaller floral designs in blue, white and green. The spine is similarly adorned in floral designs of silver thread and multicolored silks. A roll border worked over with silver thread ornaments the outer edges. This highly decorative and unusual style of binding reached the height of its popularity and the pinnacle of its artistic development in the first half of the 17th century and is rarely found after the Restoration. The majority of such bindings were the work of professionals, members of the Guild of Embroiderers. Bible bound with an edition from the same year of Sternhold and Hopkins’ Metrical Psalter (bound after the New Testament), and with an edition from the same year of the Book of Common Prayer and the Genealogies (both bound before the Bible). With separate wood-engraved New Testament and Book of Common Prayer title pages. Includes Apocrypha. Text hand-ruled in red throughout. Darlow & Moule 287. Herbert 369. STC 2257. Early owner signature. Interior exceptionally clean. A few signatures partially sprung, cords holding. Far less than the expected age-wear to beautiful and delicate embroidered binding; colors still bright and beautiful. A splendid volume.


F. Scott FITZGERALD – The Beautiful and Damned. New York, 1922.

39.FITZGERALD, F. Scott. The Beautiful and Damned. New York, 1922. Octavo, modern full crushed blue morocco gilt.

First edition, first issue, an exceptional presentation/association copy whimsically inscribed by Fitzgerald to his friend and fellow author Hyatt Downing, “For Father Hyatt Downing S.D., A.P.A. P.H.D., T.A.B., S.O.L., D.D. O.K. Especially O.K. from F. Scott Fitzgerald, St. Paul March 2nd,” handsomely bound in elegant morocco gilt by Asprey.

“The Beautiful and Damned brought Fitzgerald accolades from those whose opinions he valued. Mencken congratulated him for staking out new ground… Fitzgerald was aiming high; he only wanted to be the best novelist of his generation” (Turnbull, 130-31). Fitzgerald wrote to Zelda in 1930, “I wish The Beautiful and Damned had been a maturely written book because it was all true. We ruined ourselves… I have never honestly thought that we ruined each other” (Bruccoli, 180). First issue, with “Published March, 1922” on copyright page.Without very scarce dust jacket. Recipient Hyatt Downing met Fitzgerald when both “were at the center of an extraordinary colony of writers, artists and art patrons that flourished briefly in St. Paul in the early 1920s” (Haeg, 171). Downing, who sold his first story in the early 1920s to Scribner’s Magazine, became a successful author and, like Fitzgerald, later worked as a screenwriter in Hollywood. A fine presentation copy.


BOSWELL, James – The Life of Samuel Johnson. London, 1791


BOSWELL, James – The Life of Samuel Johnson. London, 1791

50. (JOHNSON, Samuel) BOSWELL, James. The Life of Samuel Johnson. London, 1791. Two volumes. Tall quarto, contemporary full brown tree calf rebacked.

First edition of the greatest of literary biographies, handsomely bound in contemporary tree calf.

“Everyone with an interest in Johnson is very much in debt to Boswell not only for the years of devotion he invested in the study of Johnson’s life, but for the uncanny skill with which he conveyed the quality of Johnson’s personality and his effect on the people about him. If there had been no Boswell, Johnson would have been one of the most famous names in English literature; but that he has become a household name… is due to the chance that brought Boswell into his company… Boswell is the sniffing bloodhound who will follow the scent of individuality into whatever territory it leads him. The fascination of their dialogue, that dialogue of mind, heart and voice round which Boswell organized his great Life, is that it is not merely between two very different men but between two epochs. In its pages, Romantic Europe speaks to Renaissance Europe, and is answered” (Wain, 229)

Volume I is second state, with “gve” corrected to “give” on page 135, line 10 (a change made before publication). With the engraved portrait of Johnson by James Heath after Sir Joshua Reynolds in Volume I and two engraved plates in Volume II. Early armorial bookplates. Interiors generally quite fresh with only light scattered foxing. contemporary tree calf boards with expert restoration.


Na Secção 2: Literature apresenta um excelente conjunto de obras de Oscar Wilde, das quais deixo as páginas respectivas para uma consulta mais rápida.

 
Catálogo – pág. 65


Catálogo – pág. 66


Catálogo – pág. 67

A Secção 3: Historical Figures: Presidents, Statesmen, Royalty and Warriors apresenta um conjunto importante de obras sobre Napoleão Bonaparte, figura tão controversa como incontornável da História.

 
Catálogo – pág. 79


Catálogo – pág. 80


Catálogo – pág. 81


Catálogo – pág. 82

Na Secção 7: Travel and Exploration, saliento a obra  136. (EGYPT) BRUCE, James. Travels to Discovery the Source of the Nile. Edinburgh, 1790. Five volumes. Thick quarto, modernhalf brown calf gilt. 


Catálogo – pág. 104

Para terminar, refiro este livro sempre apetecível, para os apreciadores de livros ilustrados e amantes de ornitologia:

10. AUDUBON, John James. The Birds of America, from Drawings Made in the United States and Their Territories. New York: 1861. Seven volumes. Royal octavo, original full blind-tooled brown morocco gilt.





Muito ficou por referir, em parte propositadamente, pois apenas quis estimular a vontade para a vossa leitura e consulta do conteúdo deste magnífico catálogo.


Saudações bibliófilas.

Notícias: “Manuscritos gregos na Internet” e “Um papel para LOPE”



Manuscritos gregos na Internet




A Biblioteca Britânica, em Londres, colocou na internet mais de um quarto dos seus manuscritos gregos, totalizando 280 volumes, em mais um passo rumo à digitalização completa desses importantes documentos antigos.

Os manuscritos, disponibilizados gratuitamente no site: http://www.bl.uk/manuscripts, são parte de uma das mais importantes colecções localizadas fora da Grécia para o estudo de mais de 2 mil anos de cultura helénica.

A biblioteca detém um total de mais de mil manuscritos gregos, mais de 3 mil papiros e uma abrangente colecção de impressos arcaicos gregos.

“Isso é exactamente o que todos esperávamos da nova tecnologia, mas raramente tínhamos” (…) “Isso abre um recurso precioso para qualquer um — do especialista ao curioso – em qualquer lugar do mundo, gratuitamente.” disse Mary Beard, professora de cultura clássica da Universidade de Cambridge.

 
Codex Sinaiticus

Entre os destaques do acervo digitalizado estão os Salmos de Theodore, altamente ilustrados, produzidos em Constantinopla em 1066, e as fábulas de Babrius, descobertas em 1842 no monte Atos, que contêm 123 fábulas de Esopo corrigidas pelo grande académico bizantino Demetrius Triclinius.

A iniciativa, financiada pela Fundação Stavros Niarchos, junta-se a outros projectos da Biblioteca para ampliar a divulgação de documentos antigos, frágeis e raros.

Outros dos projectos digitais incluem um caderno de Leonardo da Vinci, do século XVI, e o Codex Sinaiticus, do século IV, contendo a mais antiga cópia completa do Novo Testamento.

(Adaptado de Mike Collett-White -REUTERS)




Um papel para LOPE



FOTO: TERESA ISASI. 2009

LOPE é um filme sobre a vida do famoso escritor espanhol do séc. XVI Félix Lope de Vega y Carpio, onde é utilizado, em várias cenas, o papel feito â mão Capellades do Museu-Molí Paperer de Capellades.

O filme tem realização de Andrucha Waddington e no qual Sónia Braga e Selton Mello, actores brasileiros bem conhecidos, fazem parte do seu elenco.

O Museu, no âmbito da colaboração com a arte e cenografia, elaborou este papel especial para LOPE.


Lope de Vega

Esta não é a primeira vez que o papel do Museu serviu para recriar cenas de época na tela cinematográfica. Ikiru Films (co-produtora de LOPE) e Edmon Roch serviram-se também do papel do Museu para outros projectos de filmes a serem estreados em breve.


Agradecimentos: Quero aqui expressar o meu agradecimento a Johnson Brito de Lima por me ter facultado estas  notícias importantes, sempre de grande utilidade para os bibliófilos e estudiosos da matéria.


Saudações bibliófilas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Apontamento de leitura – um livro a não perder!



Jacques Bonnet – Bibliotecas Cheias de Fantasmas.
Lisboa, Quetzal Editores, 2010. Colecção “Testos s Breves”.
Tradução de José Mário Silva. 163 (2) pp. Brochado.
ISBN: 9789725649060

Foi colocado à venda nas livrarias, no dia 8 de Outubro. Bibliotecas Cheias de Fantasmas de Jacques Bonnet (1), traduzido por José Mário Silva, o novo título da série “textos breves” da Quetzal Editores.
Tive a sorte de “descobrir” este livro, numa das minhas visitas às livrarias – como “bom bibliómano” – e confesso que iniciada a sua leitura só parei quando o li todo!

“Tem medo de morrer durante o sono esmagado pela sua biblioteca? A acumulação de livros coloca a existência da sua família em risco? Arruma os livros por tema, língua, autor, data de edição, ou formato, ou segundo um critério que só você conhece? Poderemos pôr lado a lado na estante dois autores irremediavelmente desavindos? São muitas as questões que envolvem esta espécie em vias de extinção: os bibliófilos que, além da paixão pela posse de livros, têm a obsessão pela leitura. “ (2)

Trata-se de um ensaio onde Jacques Bonnet, ao recordar a forma como chegou a certos livros, revela alguns aspectos da sua personalidade, como a perseverança e a extrema atenção aos detalhes e onde analisa as bibliotecas como seres vivos à imagem da nossa complexidade interior, compondo um labirinto do qual poderemos não conseguir sair.

Na verdade, os milhares de páginas que ocupam as nossas estantes estão povoadas de fantasmas que, uma vez encontrados, nunca nos largarão, pois ali estão os séculos que nos precederam.

Com base neste pressuposto, discorre sobre os problemas que se nos deparam no decurso da nossa actividade de bibliómanos ou leitores compulsivos, mais ao primeiro do que ao segundo, e também ao bibliófilo, nas tês grandes fases das sua actividade:

o início – como, e porquê, comecei a ler e a reunir livros?

a acumulação dos mesmos que vão progressivamente invadindo a nossa casa, como hera que se enrola a um tronco e vai crescendo sem destino – procurando apenas os espaços livres e acessíveis, chegando mesmo a interferir na nossa vida – onde os guardar?

e, finalmente, o problema mais momentoso: a sua classificação e arrumação – o quebra-cabeças de todos nós – tais as inúmeras possibilidades!


Jacques Bonnet – Des Bibliothèques Pleines De Fantômes.
Denoel, 2008. Colecção: “Médiations”. 138 pp.
ISBN: 9782207260548
(edição original)

O ensaio de abertura aborda o célebre episódio em que Fernando Pessoa se candidatou ao lugar de conservador-bibliotecário do Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, em finais de 1932. Como se sabe, o poeta acabaria por ser recusado, em favor de um «pintor obscuro».

Mas traz-nos outras histórias como a de Antoine-Marie-Henri Boulard (1754-1825), que encheu nove prédios, adquiridos expressamente para receberem os seus 600 mil livros – após a sua morte, ao venderem a colecção, os filhos inundaram o mercado, baixando durante muitos anos os preços nos alfarrabistas.

Ou a de Charles-Valentin Alkan, pianista virtuoso que morreu esmagado por uma estante, em 1888, o que o habilita ao estatuto de «santo mártir» dos bibliófilos. Ou a daquele condenado à guilhotina que continuou a ler enquanto o conduziam ao cadafalso e, chegada a hora, marcou a página onde estava, antes de entregar o pescoço à lâmina.

Sinceramente penso que é um livro fascinante para quem tenha a paixão do livro e da leitura. Como Jorge Luis Borges escreveu (e Bonnet cita-o): “A leitura de um livro de Cervantes, de Flaubert, de Schopenhauer, de Melville, de Whitman, de Stevensonou  ou de Spinoza é uma experiência tão forte como viajar ou estar apaixonado”

Saudações bibliómanas.


(1) Jacques Bonnet é um editor e tradutor francês, além de bibliófilo e uma autoridade quando se trata de livros raros. Bonnet é considerado, juntamente com Umberto Eco, José Mindlín ou Alberto Manguel, um dos maiores especialistas em bibliofilia e teoria da leitura.

(2) Texto da contracapa.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mario Vargas LLosa: Nobel da Literatura 2010




Mario Vargas Llosa

Quero deixar aqui o meu comentário sobre a atribuição do Nobel da Literatura a este escritor, que na minha opinião, constitui mais um reconhecimento do valor da literatura ibero-americana e atribuído a um autor que o merece de facto.

O escritor peruano, de 74 anos, foi distinguido "pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens mordazes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos", justifica a Academia em comunicado divulgado poucos minutos após o anúncio do Nobel. (1)

“Muito comovido e entusiasmado.” Assim se sentiu Vargas Llosa ao saber que era seu o Nobel da Literatura deste ano. Foram as primeiras declarações do escritor, feitas à agência de notícias peruana Andina e citadas pela Lusa.

 
Medalha do Nobel

O escritor peruano - cujo nome figurou entre os mais apontados como candidatos sérios ao Prémio Nobel da Literatura deste ano - não descarta a possibilidade de a literatura "se converter nalguma coisa de marginal, relegada cada vez mais como actividade minoritária, e desenvolvida em catacumbas". Se assim acontecer, "haverá um grande empobrecimento da Humanidade", preveniu. "E será por nossa causa, porque a literatura deve fazer parte da vida das famílias e dos programas de ensino a todos os níveis".


Mario Vargas Llosa

Mesmo aceitando a sua função de entretenimento, avisou que a literatura não pode ser só divertimento. "Se o fosse, seria ultrapassada por outras formas mais eficazes. Não pode competir com a televisão e o cinema", disse. "A riqueza não são as imagens. São ideias materializadas em palavras que se dizem nos livros". O livro de literatura, prosseguiu o escritor, é imprescindível para ensinar a falar as pessoas. "O vocabulário, os matizes, as subtilezas dão-nos a boa literatura, que é aquela que mantém um alto nível de criatividade, daquilo que é diferente, do que não temos e com que sonhamos". Uma das superioridades da literatura, concluiu, é a "vocação crítica, que os audiovisuais não têm ou têm domesticada".


Mario Vargas LLosa – O Paraíso na Outra Esquina.
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003. 328 pp. Brochado.

No centro da trama de O Paraíso na Outra Esquina, as utopias artística e política de Paul Gaugin, pintor, e da avó Flora Tristan, feminista "avant la lettre", foram pretexto para uma digressão crítica pela história do século XX. "Todas as tentativas de criar a sociedade perfeita traduziram-se em verdadeiros apocalipses", disse Vargas Llosa. "O nazismo foi isso; o comunismo foi isso; todas as grandes utopias levaram a Humanidade à beira do precipício". O escritor adverte que não se pode renunciar à utopia. "É um motor que empurra o desenvolvimento: os grandes cientistas, os exploradores, os santos representam de algum modo a materialização desse sonho utópico". Faz, contudo, uma distinção entre a utopia política e a utopia individual. "As utopias políticas trouxeram mais prejuízos do que benefícios à Humanidade. A felicidade nunca se pode encontrar num projecto colectivo".

Vargas Llosa, que demorou três anos a escrever O Paraíso na Outra Esquina, serve-se das duas personagens do livro - Flora Tristan e Paul Gauguin - para estabelecer a distinção entre os dois tipos de sonho: o do pintor que foi para o Taiti e as ilhas Marquesas em busca do homem primitivo que mantivesse a riqueza e o prazer sexual como património e valor de todos; e a da "feminista revolucionária" que quis construir uma sociedade igualitária num tempo em que os operários trabalhavam 20 horas por dia e às mulheres poucos ou nenhuns direitos eram reconhecidos.

Trata-se do 11.º autor de língua espanhola a receber esta distinção, depois de Camilo Jose Cela (1989), Gabriel Garcia Marquez (1982), Pablo Neruda (1971) Miguel Angel Asturias (1967), Juan Ramón Jiménez (1956) e Gabriela Mistral (1945) entre outros. O autor de língua espanhola que mais recentemente venceu o Nobel literário foi o mexicano Octavio Paz, em 1990.


Mario Vargas Llosa – Conversación En La Catedral.
Barcelona, Seix Barral, 1969. Colecção "Nueva Narrativa Hispánica".
Brochura com sobrecapa. 1ª edição. 2 volumes  in 8º pequeno. 368pp + Índice + (1) e 308pp + Índice + (1).
Foto: Librería 101Poe (Barcelona, BCN, Spain)

Caberá finalmente referir a sua vasta bibliografia, que se estende por vários géneros literários.

Ficção

Os Chefes (1959)
A cidade e os cachorros ("La ciudad y los perros") (1963)
A casa verde (1966) (Premio Rómulo Gallegos)
Conversa na catedral (1969)
Pantaleão e as visitadoras (1973)
Tia Júlia e o escrevinhador (1977)
A Guerra do Fim do Mundo (1981)
História de Mayta (1984)
Quem matou Palomino Molero? (1986)
O falador (1987)
Elogio da madrasta (1988)
Lituma nos Andes (1993). (Premio Planeta)
Os cadernos de Dom Rigoberto (1997)
A festa do bode (2000) - novela sobre a ditadura do general da República Dominicana, Rafael Leónidas Trujillo
O Paraíso na Outra Esquina (2003) - novela histórica sobre Paul Gauguin y Flora Tristán.
Travessuras da Menina Má (2006)


Mario Vargas Llosa – La Casa Verde.
Barcelona, Seix Barral, 1965. 1ª edição. Capa dura editorial com sobrecapa.
Ilustracição da capa de Antoni Tapies. In 8º. 430pp + 1 Mapa.

Teatro

A menina de Tacna (1981)
Kathie e o hipopótamo (1983)
La Chunga (1986)
El loco de los balcones (1993)
Olhos bonitos, quadros feios (1996)

Ensaio

García Márquez: historia de un deicidio (1971)
Historia secreta de una novela (1971)
La orgía perpetua: Flaubert y «Madame Bovary» (1975)
Contra viento y marea. Volúmen I (1962-1982) (1983)
Contra viento y marea. Volumen II (1972-1983) (1986)
La verdad de las mentiras: Ensayos sobre la novela moderna (1990)
Contra viento y marea. Volumen III (1964-1988) (1990)
Carta de batalla por Tirant lo Blanc (1991)
Desafíos a la libertad (1994)
La utopía arcaica. José María Arguedas y las ficciones del indigenismo (1996)
Cartas a un novelista (1997)
El lenguaje de la pasión (2001)
La tentación de lo imposible (2004) - ensayo


Saudações bibliófilas

(1) Leia-se este apontamento publicado no jornal “Publico”: Reacções ao Prémio Nobel para Mário Vargas Llosa

Fontes: Texto baseado em artigos publicados na imprensa, nomeadamente no jornal ”Público” e pela IberLibro.com

 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

No I Centenário da Republica




Ilustração alusiva à Proclamação da República Portuguesa a 5 de Outubro de 1910

Neste dia, 5 de Outubro, que se comemora o I Centenário da Implantação da República em Portugal, trago-vos um pequeno opúsculo que (re)descobri no meio de outros livros, e que apesar de ser anterior a esta data, traz alguma informação sobre o germinar das ideias republicanas pelo punho de um dos seus grandes vultos: António José de Almeida.


 António José de Almeida
Fotografia na sua residência particular (década de 1900)
Museu da Presidência da República®

Não tenho qualquer pretensão de ombrear com as excelentes obras sobre esta temática que foram, e ainda continuam, a ser editadas, no âmbito desta comemoração. Para isso temos bons historiadores que nos têm vindo a deixar uma vasta obra publicada sobre as suas várias vertentes.

Saliento que este ano foram objecto de divulgação: estudos historiográficos, reimpressão de periódicos, caricaturas e mesmo livros de ficção. Foi de facto um esforço de divulgação histórica e cultural de louvar.

Mas voltemos ao ponto de partida.

Move-me apenas a ideia de mostrar como nós bibliófilos, pelo acervo das nossas bibliotecas mais modestas ou opulentas que possam ser conseguimos encontrar sempre um livrito, por mais simples que seja, que poderá fornecer, pelo seu conteúdo, um contributo para um tema em discussão, ou neste caso, em comemoração.

Trata-se do opúsculo:

  

ALMEIDA, António José d' – Situação Clara – Carta Aberta ao Cidadão Manuel d' Arriaga. Lisboa, António José D' Almeida Editor, 1907. In-8.º de 16 págs. Brochado.


Dr. Manuel d’Arriaga
1º Presidente eleito da República

Trata-se de uma “carta”, endereçada a Manuel de Arriaga, na qual  António José de Almeida, que seria o 6º Presidente da República entre 1919-1923 (1), se debruça, no seu estilo de tribuno e orador eloquente, sobre a liberdade de imprensa, a repressão, a justiça e a ditadura de João Franco, período no qual foi objecto de vários processos em tribunal.

João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco
Arquivo Fotográfico do Fundão®


Aqui ficam as suas páginas.





















Como curiosidade, retenha-se que este opúsculo custava “apenas” 50 Réis, mas a taxa de analfabetismo ultrapassava os 70%!

Boa leitura e espero que esta vos faça relembrar algo da nossa História.


(1) Refira-se, como curiosidade, que foi o único Presidente da I República que cumpriu o mandato completo.


Saudações bibliófilas e republicanas!