"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 12 de novembro de 2011

A Casa Literária do Arco do Cego – Apontamentos para um estudo




Quintos, Antonio José (grav.) – Maneira de gravar a agva-forte (1)

A propósito do artigo publicado por Márcia Carvalho Rodrigues no seu excelente blogue Tesouro bibliográfico: Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego em exposição lembrei-me de alguns apontamentos e textos que tinha dispersos, para estudo, e aos quais decidi dar alguns “retoques” finais para publicação.

Casa Literária do Arco do Cego

Aqui os deixo, meramente como um esboço, pois que outros já fizeram o seu estudo aprofundado, como contributo para uma singela homenagem a esta ilustre figura do século XVIII-XIX da história do livro luso-brasileiro e da tipografia à qual o seu nome permanecerá para sempre ligado.

A Casa Literária do Arco do Cego, projecto editorial instalado em Lisboa a partir de 1799, foi uma iniciativa do então Secretário dos Negócios da Marinha e do Ultramar, D. Rodrigo de Sousa Coutinho (2).


D. Rodrigo de Sousa Coutinho

Até hoje não foi localizado nenhum documento oficial referente à criação da Casa Literária do Arco do Cego. O que se sabe é que em Agosto de 1799, após obras de adaptação na Quinta do Intendente, começa a funcionar a Casa Literária, instalada em local muito próximo da residência D. Rodrigo de Sousa Coutinho.

Com a protecção de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a direcção desta casa de edição foi entregue ao brasileiro José Mariano da Conceição Veloso (1741-1811), frei franciscano e naturalista. (3)


Frei José Mariano da Conceição Veloso

Frei Mariano Veloso foi um dos mais importantes botânicos da época. As suas expedições pelo Rio de Janeiro, realizadas entre 1782 e 1790, foram idealizadas pelo Vice-Rei D. Luís de Vasconcelos e levaram-no a percorrer a Serra do Mar, em direcção a Santos, passando pela Ilha Grande e por Paraty, chegando até a Serra de Paranapiacaba.

O naturalista, além de levar consigo alguns escravos, contou com a ajuda de dois religiosos, Frei Francisco Solano (4), que desenhou as espécies e Frei Anastácio de Santa Inês, encarregado das descrições das plantas.


Velloso, Fr. José Marianno da Conceição – Naturalista instruido nos diversos methodos antigos e modernos a ajuntar, preparar, e conservar as producções dos tres reinos da natureza. Lisboa: Officina da Casa Litter. do Arco do Cego, 1800. In 8.º, [4 fs/n]+90+[3 fs/n] (5)

Botânico autodidacta, Frei Mariano Veloso mudou-se para Lisboa, em 1790, trazendo na bagagem para serem publicados os manuscritos e as pranchas relativos à sua Flora Fluminensis, obra resultante de longos anos de pesquisa de campo na província do Rio de Janeiro.


Flora Fluminensis - Frontispício de volume de Estampas

A permanência de Frei Mariano Veloso em Lisboa tem a ver com o seu estreito relacionamento com D. Rodrigo Coutinho e com a convergência de interesses de ambos para um desenvolvimento agrícola do Brasil.

Inicialmente Frei Mariano Veloso foi incumbido de acompanhar o complexo processo de impressão da Flora Fluminensis.

Ainda que redigida em 1790 só seria impressa com as pranchas em 1827, já após sua morte. Não se sabe ao certo as razões para que a obra não tenha sido imediatamente publicada, já que o autor logo se associou a diversos empreendimentos editoriais.

Deste modo, quanto mais passava o tempo, mais desactualizados ficavam os manuscritos, à luz dos saberes botânicos que se renovavam a cada dia. Frei Mariano Veloso, apesar de sua longa prática em história natural, não seguira estudos formais pelo que ficou à margem da Academia das Ciências de Lisboa.


Velloso, José Mariano da Conceição – Flora Fluminensis.
Paris: Off. Lithog. Senefelder, 1827. 11 Volumes.
(Trata-se do Volume I : 21 p., 14 p., 153 gravs.) (6)

Porém, em 1797, D. Rodrigo Coutinho já ampliava as suas responsabilidades atribuindo-lhe a direcção de um conjunto de trabalhos literários para o que constituiu uma equipa gráfica própria para tais trabalhos.

A partir desse pequeno núcleo, Frei Mariano Veloso teve a oportunidade de desenvolver a sua espantosa capacidade como coordenador de edições, tradutor e compilador.


Pé-de-imprensa próprio da Casa Literária do Arco do Cego

Antes mesmo de 1799, quando saíram do prelo as primeiras edições com o pé-de-imprensa próprio da Casa Literária do Arco do Cego, Frei Mariano Veloso já revelara a sua vocação de divulgador, pois que procurou criar uma rede de editores interessados na publicação e distribuição de obras voltadas para a melhoria da produtividade agrícola e divulgação de inovações nas técnicas de cultivo.

Fruto da decisão e vontade política de D. Rodrigo Coutinho, mentor e patrocinador de vários empreendimentos durante toda a sua vida, a Casa Literária do Arco do Cego constituiu-se, certamente, como uma ampliação para melhoria das condições dos trabalhos desenvolvidos na pequena oficina tipográfica então dirigida por Frei Mariano Veloso.

A exemplo da Academia de Ciências de Lisboa, e de outras iniciativas de carácter científico, pedagógico e cultural surgidas durante o reinado de D. Maria I, a Casa Literária do Arco de Cego constituiu-se como mais um espaço editorial e divulgação de produção científica e técnica em torno do qual passou a gravitar um grupo de intelectuais, especialmente jovens brasileiros formados na Universidade de Coimbra.


D.ª Maria I, rainha de Portugal (1777-1815)

A Casa Literária do Arco do Cego pode ser vista como a concretização de um projecto político de D. Rodrigo Coutinho, inspirado no iluminismo, virado para uma política de realçar, interna e externamente, a importância do Brasil e para a acção propagandística de difundir as luzes da ciência, sobretudo no domínio da agricultura, através de publicações ilustradas, bem ao gosto das elites eruditas e académicas da época.

Esta casa de edição foi responsável pela publicação de inúmeras obras ligadas às práticas mais avançadas europeias e coloniais de exploração da natureza e desenvolvimento das ciências e das artes.

A política editorial da Casa Literária do Arco do Cego é característica de um momento de transformação nas práticas portuguesas vigentes até meados do século XVIII.

Publicara-se muito pouco sobre a América portuguesa, já que as autoridades censuravam tudo aquilo que pudesse fornecer às potências europeias informações sobre os produtos coloniais. Um dos exemplos mais relevantes dessa política de segredo que guiava as autoridades portuguesas foi a destruição do livro Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, do jesuíta André João Antonil (Giovanni Antonio Andreoni) (7).


Antonil, André João – Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas …
Lisboa: Na Officina real Deslandesiana, 1711 (8)

Impresso em Lisboa no ano de 1711, foi considerado indesejado pela Coroa portuguesa, por conter informações sobre a localização de riquezas e métodos de preparo do açúcar, pelo que mandou recolher e destruir todos os exemplares. Salvaram-se alguns poucos exemplares, mais precisamente sete.

Dos sete exemplares conhecidos, três encontram-se no Brasil. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui um deles e a Brasiliana da USP outro. Fora do Brasil, os outros quatro exemplares, estão nas seguintes instituições: na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Biblioteca de Paris, na Biblioteca Britânica de Londres e na Biblioteca da Universidade Brown de Providence nos Estados Unidos.

Em 1800, a política relativamente à informação impressa transformara-se: Frei Mariano Veloso publicou pela Casa Literária do Arco do Cego um trecho do livro de Antonil intitulado Extracto sobre os engenhos de assucar do Brasil, e sobre o methodo já então praticado na factura deste sal essencial. (9)


Velloso, Fr. José Mariano – Extracto sobre os engenhos de assucar do Brasil, e sobre o methodo já entaõ praticado na factura deste sal essencial: tirado da obra Riqueza e Opulencia do Brasil, para se combinar com os novos methodos, que agora se propoem debaixo dos auspicios de S. Alteza Real o Principe Regente Nosso Senhor / por Fr. José Mariano Velloso.
Lisboa: na Typographia Chalcographica, e Litteraria do Arco do Cego, 1800.
[8], 116, [8] p., [4] f. grav. desdobr. : il. ; in 4.º. (10)

Naquele momento, acreditava-se que a prosperidade económica da metrópole dependia, em grande parte, do desenvolvimento da agricultura na América portuguesa, daí a predominância de obras sobre agricultura produzidas pela casa editorial.

Deste modo, a Casa Literária do Arco do Cego abarcou uma larga variedade temática, com ênfase na agricultura e nos conhecimentos que se pudessem revelar úteis para o crescimento de Portugal e do seu imenso território americano.

Esta linha temática da divulgação de novas práticas agrícolas, escritas principalmente por autores franceses e ingleses, visava, além da agricultura portuguesa, a modernização da economia brasileira.


Massac, Pierre-Louis de – Memoria sobre a Qualidade e
Emprego de Adubos, ou Estrumes (trad.)
Lisboa: Na Typographia Chalcographica e
Litteraria do Arco do Cego, M.DCCCI. [1801]. (11)

Muitas memórias diziam respeito a métodos de produção de açúcar e outros produtos coloniais. Divulgava-se também o uso de máquinas simples que pudessem tornar mais produtivo o sistema de produção baseado no trabalho escravo.

Pelas suas actividades anteriores, onde se incluíam as desenvolvidas ainda no Brasil, justificou-se plenamente a escolha do brasileiro Frei Mariano da Conceição Veloso para gerir este projecto editorial.


Frei José Mariano da Conceição Veloso

Homens como ele, nascidos no Brasil, foram peças-chave na realização da política de modernização de Portugal, iniciada já em meados do século XVIII pelo ministro Marquês de Pombal.

Na viragem do século XVIII para o XIX, a presença desses brasileiros foi visível em diversos circuitos, especialmente na esfera do ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho e do naturalista paduano Domenico Vandelli, director do Jardim Botânico da Ajuda.

Foi precisamente neste grupo de técnicos e naturalistas que Frei Mariano Veloso, se integrou.

Também começou a ter contacto com tipografias como a de Simão Thaddeo Ferreira.

Não será por acaso que este publicará a obra de Frei Mariano Veloso Alographia dos alkalis fixos vegetal ou potassa, mineral ou soda e dos seus nitratos … Lisboa: Na Offic de Simão Thaddeo Ferreira, 1798.


Alographia dos alkalis fixos vegetal ou potassa, mineral
ou soda e dos seus nitratos …
Lisboa: Na Offic de Simão Thaddeo Ferreira, M.DCC.XCVIII [1798] (12)

“Sem livros não há instrução”, esta afirmação de Frei Mariano Veloso sintetiza sua confiança no poder do livro para levar aos lavradores os conhecimentos práticos e os conselhos úteis de que necessitavam para promover uma agricultura moderna.

Não é por acaso, que a sua primeira obra de grande fôlego como compilador e divulgador foi O Fazendeiro do Brasil Criador.


Velloso, José Mariano da Conceição, (compil.) – O fazendeiro do Brazil Criador.
Lisboa: Typographia Chalcographica, Typoplastica e
Litteraria do Arco do Cego, 1801. 10 Vol. (13)

Concebida nos moldes de uma verdadeira enciclopédia ilustrada agrícola, a obra completa perfazia dez volumes e a sua publicação deveu-se à excepcional capacidade de Frei Mariano Veloso para articular o interesse de diversos tipógrafos lisboetas em torno de um mesmo projecto editorial.


José Mariano da Conceição Velloso, in O Fazendeiro do Brasil, (Lisboa, 1806), vol. 2, tábua 1, imagens da p. 341. “Trabalho do terreno para se plantar hum [um] indigoal, e para o colher” - mostra várias fases da plantação de índigo (anileira): fig. 1 (topo) descreve o preparo da terra para o plantio, usando um arado; fig. 2 (centro) mostra o uso de enxadas para fazer os buracos onde as sementes de índigo são lançadas; fig. 3, descreve a colheita da planta, juntando-as em feixes, e seu carregamento para tanques na etapa seguinte do processo. O painel inferior mostra as ferramentas e instrumentos usados no indigoal. A identificação das imagens e descrição de seus detalhes é mostrada nas pp. 332-333

Entre as obras publicadas nesse período predominam as que versam sobre economia agrícola, embora outros assuntos, como Medicina e História Natural, especialmente o ramo da botânica, campo de interesse particular de Veloso, também tenham sido contemplados.

No seu breve mas intenso período de funcionamento, 1799-1801, a Casa Literária do Arco do Cego publicou mais de 80 títulos bibliográficos, dos quais 36 eram originais de autores portugueses ou brasileiros, 46 eram traduções e 6 edições em latim. A predominância de obras editadas em português evidenciava o propósito da mesma em alcançar um maior número de leitores.

É importante salientar que a Casa Literária do Arco do Cego foi muito mais que uma mera casa editorial.

No seu interior funcionava um verdadeiro complexo de produção livreira que abrigava desde as várias funções ligadas às artes gráficas até a própria produção e tratamento dos textos (traduções, adaptações, compilações) que seriam publicados.

Além da tipografia, a Casa Literária do Arco do Cego contava também com uma oficina tipoplástica, responsável por produzir os seus próprios tipos ou caracteres de imprensa e, ainda, mantinha a sua própria oficina de calcografia, ou Aula de Gravura que, segundo o modelo escolhido por Frei Mariano Veloso, funcionava como um espaço de aprendizagem em acção para o grande grupo de gravadores que abrigava.

Além de ter publicado um número expressivo de livros, a editora funcionou como uma oficina para a aprendizagem das artes tipográficas e da gravura.


Velloso, José Mariano da Conceição, (compil.) – O fazendeiro do Brazil Criador.
Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, M.DCCC [1800]. (14)

A profusão de imagens veiculadas por ela é até hoje objecto da nossa admiração. A editora procurou adoptar as técnicas mais modernas disponíveis na época. Além da modernização técnica, Frei Mariano Veloso tentou divulgar o que havia de mais recente na Europa. Por ela saíram publicadas inúmeras traduções de obras francesas e inglesas, principalmente de história natural aplicada. Além disso, há manuais de ensino de matemática, náutica, gravura, há poesia e obras de carácter mais filosófico.

Velloso, José Mariano da Conceição – Aviario brasilico ou Galleria
ornithologica das aves indigenas do Brasil.
Lisboa: Na Officina da Casa Litteraria do Arco do Cego, M.DCCC [1800]. (15)

Uma das marcas dos livros publicados por Frei Mariano Veloso era o uso intensivo e didáctico de imagens, o que servia ao duplo objectivo de instruir e entreter.

A Casa Literária do Arco do Cego acabou por se constituir num espaço de trabalho e de sociabilidade intelectual para um número significativo de brasileiros.

Para além da “sociabilidade tipográfica de pendor brasileiro” que Frei Mariano Veloso construiu ao seu redor, trabalhar com ele era para os brasileiros na metrópole uma garantia de subsistência e de adquirir visibilidade profissional. Alguns desses jovens bacharéis chegaram a morar nas dependências da Casa Literária do Arco do Cego, que contava também com verbas para as refeições dos seus colaboradores.

Pertencer a esse grupo era uma garantia de estar sob o olhar atento de D. Rodrigo Coutinho, e, sobretudo, ter as habilidades profissionais conhecidas pelo mentor e sustentador do empreendimento.

Em diferentes fases do projecto da tipografia editorial, regista-se a participação de vários autores e/ou tradutores brasileiros. Figuram entre os colaboradores do Arco do Cego, os brasileiros Manuel Arruda da Câmara, António Pires da Silva Pontes Leme, António Carlos Ribeiro de Machado da Silva e seu irmão Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, João Manso Pereira, José da Silva Lisboa, Vicente Coelho de Seabra Silva Teles, Luís António de Araújo e José de Sá Bethencourt e Accioli.

Para além dos brasileiros residentes na metrópole, os graduados em Coimbra que desenvolviam estudos no Brasil, contaram com o acolhimento de Veloso para a publicação dos seus trabalhos. Não é, portanto, casualidade o facto do primeiro livro a sair dos prelos do Arco do Cego ser a Memória sobre a cultura dos algodoeiros, e sobre o método de o escolher e ensacar, …, em que se propõem alguns planos novos para o seu melhoramento, remetida de Pernambuco pelo seu autor, Manuel Arruda da Câmara. (16)


Câmara, Manuel Arruda da – Memoria sobre a cultura dos algodoeiros, e sobre o methodo de o escolher, e ensacar etc : em que se propoem alguns planos novos, para o seu melhoramento... / por Manuel Arruda da Camara... ; impressa... por Fr. Joze Mariano da Conceição Velloso.  Lisboa: na Officina da Casa Litteraria do Arco do Cego, M.DCCLXXXXIX [1799]. - [4], 80, [3] p., [6] f. desdobr. ; 4º (21 cm) (17)

Médico e fazendeiro, Manuel Arruda da Câmara trocava correspondência com Frei Mariano Veloso, informando-o sobre as suas pesquisas e projectos e recebendo do editor orientações de como proceder nos seus trabalhos de campo. João Manso Pereira, radicado em Santos, teve dois dos seus ensaios sobre nitreiras artificiais publicados pela Casa Literária do Arco do Cego.

Do ponto de vista financeiro, a Oficina do Arco do Cego dependia inteiramente das verbas provenientes da Secretaria da Marinha que garantia o pagamento das despesas de manutenção das instalações, de compra das máquinas e equipamentos que se foram adquirindo, das matérias-primas, dos ordenados do grande número de profissionais qualificados ali empregados e o sustento dos residentes, como o grupo de brasileiros e os alunos da Aula de Gravura.

Instalou-se mesmo uma loja aberta no Rossio, porém, foram irrisórias as quantias arrecadadas com as vendas, inclusive algumas para fora de Lisboa. Com alguma frequência, fizeram-se remessas de obras para o Brasil mas, aí também, o retorno financeiro não teria compensado o investimento.

Apesar do intenso ritmo de actividades sustentado pelos profissionais da Casa Literária do Arco do Cego, expresso na quantidade de publicações e gravuras saídas de seus prelos, e do incansável trabalho do seu editor e director, Frei Mariano da Conceição Veloso, a editora nunca chegou a ser economicamente rentável.

Após 28 meses de funcionamento, dívidas, empréstimos e o colapso da tesouraria, a Casa Literária do Arco do Cego foi extinta em Dezembro de 1801.


Lista das obras e chapas que Frei José Mariano da Conceição Veloso
imprimiu e fez imprimir na oficina do Arco do Cego. (18)

Contudo, o seu monumental espólio bibliográfico, oficinas e pertences foram transferidos para a Imprensa Régia, que, pela letra da lei, se comprometia a dar prosseguimento ao programa editorial da Casa Literária do Arco do Cego, continuar as obras em andamento, principalmente as obras botânicas de Frei Mariano Veloso, a executar outras e a empregar os artistas gravadores.

Essas determinações representaram, dentro de certa medida, uma forma sobrevivência da Casa Literária do Arco do Cego, mesmo após sua extinção formal.

Por essa época, D. Rodrigo de Sousa Coutinho assumia a Secretaria da Fazenda, à qual a Imprensa Régia estava subordinada. Frei Mariano Veloso, juntamente com Hipólito Ferreira da Costa, outro dos brasileiros protegidos de D. Rodrigo Coutinho, foram nomeados membros da Junta Administrativa, Económica e Literária, incumbida de gerir a tipografia régia. Frei Mariano Veloso permaneceria nessa função até 1808.

Em 1809 voltou ao Rio de Janeiro, instalou-se no Convento de Santo António, onde faleceu em 1811.

A parceria de D. Rodrigo de Sousa Coutinho com Frei Mariano da Conceição Veloso possibilitou a realização de um dos mais ambiciosos projectos de divulgação cultural do séc. XVIII português. Os temas relativos ao aproveitamento do potencial agrícola do Brasil foram colocados no centro das atenções da metrópole, a expansão da informação científica e a divulgação de conhecimentos úteis para um público alargado, enriquecidas com o suporte inestimável da imagem, numa dimensão até então nunca vista, significaram um salto para o futuro em termos de edição.

O conjunto das publicações dos trabalhos literários dos primeiros anos somado à produção da Casa Literária do Arco do Cego, totalizam cerca de 140 obras, verdadeira proeza editorial, concretizada em pouco mais de dez anos. Às expensas da Fazenda Real e sob o mecenato ilustrado de D. Rodrigo Coutinho, Frei Mariano Veloso conseguiu produzir quase tudo o que projectara, mesmo não tendo vivido para ver a publicação de sua obra maior, a Flora Fluminensis.

Os acervos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e da Biblioteca Nacional de Portugal, assim como a Brasiliana da USP, contêm inúmeras obras impressas na Casa Literária do Arco Cego. Além disso, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui, desde a morte de Frei Veloso, diversas matrizes originais de cobre gravadas, produzidas pela tipografia. Ao que tudo indica, essas placas haviam sido enviadas para a Impressão Régia no Brasil e posteriormente ficaram com o religioso.


Quassia Simaruba - Gravura
Tipografia Calcográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego (imp.)
Lisboa : Typographia Chalcographica e Litteraria do Arco do Cego, 1801

Como disse logo no início, este trabalho representa apenas uma homenagem ao responsável pela Casa Literária do Arco do Cego no 2º centenário da sua morte, pretendendo deixar pistas e referências para outros trabalhos – esses sim verdadeiros estudos biobibliográficos e fundamentais para o conhecimento da história do livro.

Assim sugiro, entre muitos outros:



Gama, José de Saldanha da – Biographia e Apreciação dos Trabalhos do Botanico Brasileiro Frei José Mariano da Conceição Velloso. Rio de Janeiro: Typ. de Pinheiro & C., 1869.

A Casa Literária do Arco do Cego: bicentenário: 1799-1801 / autores dos estudos Diogo Ramada Curto, Maria de Fátima Nunes, João Carlos Brigola (e outros); responsável científico Miguel F. Faria.- Lisboa: Biblioteca Nacional, 1999.- 283 p.: il.

E não quero deixar de referir esse polo de investigação fundamental para um conhecimento da história do livro que é o Centro de Memória Editorial Brasileira – Lhied: Núcleo de Pesquisa sobre Livro e História Editorial no Brasil (http://www.uff.br/lihed/index.php/artigos-e-ensaios.html), onde podemos ter acesso a uma grande diversidade de obras sobre este tema.

Do mesmo refiro três trabalhos do Prof. Aníbal Bragança pela sua especificidade com o assunto em estudo:



Bragança, Aníbal – Antecedentes da instalação hipertardia da tipografia ao Brasil (1747-1808) in FLOEMA. Caderno de Teoria e História Literária é uma publicação semestral editada sob a responsabilidade da Área de Teoria e Literatura do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários (DELL) - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). - Ano III, n. 5 A, p. 113-135 out. 2009 (Neste caso pág. 122 a 126)



Bragança, Aníbal – António Isidoro da Fonseca, Frei Veloso e as origens da história editorial brasileira. Anais do XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação –, editado pela Intercom, S. Paulo, 2007. ISBN 978-85-86537-26



Bragança, Aníbal – Arco do Cego e Impressão Régia (Lisboa e Rio de Janeiro): sobre rupturas e continuidades na implantação da imprensa no Brasil. in Mídia, ecologia e sociedade. Anais do XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. S. Paulo: Intercom, 2008. ISBN 978-85-88537-43-9


Espero ter contribuido com estes meus apontamentos, ainda que duma forma modesta, para a divulgação desta Casa Tipográfica e da figura do Frei José Mariano da Conceição Veloso.

A profusão de notas e remissão para outras páginas, bem mais informativas do que este meu esboço, tem por objectivo permitir aos interessados, leituras mais completas, que possibilitem um conhecimento mais aprofundo do assunto.

Resta-me agradecer a paciência da vossa leitura.

Saudações bibliófilas.


Fontes consultadas:

Brasiliana USP: Frei Mariano Veloso e a Tipografia do Arco do Cego

Lorelai Kury (Casa de Oswaldo Cruz/Uerj/Cnpq) – A Tipografia do Arco do Cego: Frei Veloso enciclopedista

LUGARES & ACONTECIMENTOS – A Tipografia do Arco do Cego

LUNA, Fernando J. - Frei José Mariano da Conceição Veloso e a divulgação de técnicas industriais no Brasil colonial: discussão de alguns conceitos das ciências químicas. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 2009, vol.16, n.1 [cited 2011-11-07], pp. 145-155 .
Available from: .
ISSN 0104-5970.


Notas:

(1) Quintos, Antonio José (grav.) – Maneira de gravar a agva-forte [gravura do frontispício]
Lisboa: Typographia Chalcographica, Typoplastica e Litteraria do Arco do Cego,1801
Parte de: Tratado da gravura a agua forte, e a buril, e em madeira negra com o modo de construir as prensas modernas, e de imprimir em talho doce

(2) D. Rodrigo de Sousa Coutinho - Wikipédia

(3) José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811) - Instituto Camões

(4) Francisco Solano – Wikipédia

(5) Velloso, José Mariano da Conceição – Naturalista instruido nos diversos methodos antigos, e modernos de ajuntar, preparar, e conservar as producções dos tres reinos da natureza colligido de differentes authores, dividido em varios livros. Reino animal. I. Tom. Debaixo da protecção, e ordem de S. Alteza Real, o principe regente nosso senhor … (Open Library)
Acessível em:

(6) Velloso, José Mariano da Conceição – Flora Fluminensis (Volume 01)
(Título alternativo: Petro Nomine ac Imperio Primo Brasiliensis Imperii Perpetus Defensore Imo Fundatore Scientiarum Artium Litterarumque Patrono et Culture Jubente Florae Fluminensis Icones Nunc Primo Editur Vol I Edidit Frater Antonius da Arrabida Biblioth. Imp. in Urb, Rio de Janeiro Profectus Caes. Maj. Bras. Poenitentiarius Episc. titul. Elcemosynarii Imp. Coadjutor Studior q. Principum & Imp. Stirpe Moderator.) Paris : Off. Lithog. Senefelder , 1827. 11 Volumes. Trata-se do Volume I : 21 p., 14 p., 153 gravs.

Este e outos volumes podem ser acedidos em:
e em:

(7) André João Antonil (Giovanni Antonio Andreoni) - Wiipédia

(8) Antonil, André João– Cultura, e opulencia do Brasil por suas drogas, e minas

(9) Refira-se que Cultura e opulencia do Brazil, por suas drogas e minas seria reeditado em 1837 no Brasil:
Antonil, André João – Cultura e opulencia do Brazil, por suas drogas e minas. Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve e Comp. , 1837 [VII], 214 p.

(10) Velloso, José Mariano da Conceição – Extracto sobre os engenhos de assucar do Brasil, e sobre o methodo já então praticado na factura deste sal essencial, tirado da obra Riqueza e opulencia do Brasil, para se combinar com os novos methodos que agora se propõem… Lisboa: Typographia Chalcographica e Litteraria do Arco do Cego, 1800.
Acessível em :

(11) Massac, Pierre-Louis de – Memória sobre a qualidade e emprego dos adubos (trad.) Lisboa: Na Typographia Chalcographica e Litteraria do Arco do Cego, 1801.
Acessível em:

(12) Fotografia tirada de:
LUNA, Fernando J. - Frei José Mariano da Conceição Veloso e a divulgação de técnicas industriais no Brasil colonial: discussão de alguns conceitos das ciências químicas. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 2009, vol.16, n.1 [cited 2011-11-07], pp. 145-155 .
Available from: .
ISSN 0104-5970.

(13) Velloso, José Mariano da Conceição (compil.) – O fazendeiro do Brazil Criador. Lisboa: Na Typographia Chalcographica, Typoplastica e Litteraria do Arco do Cego,1801. 250 p. : il., 2 gravs., tabela

Nota: Veloso tinha por intenção publicar, em conjunto com O Fazendeiro do Brasil, em dez volumes dedicados à agricultura, uma outra série, intitulada O Fazendeiro do Brasil criador, cujo objetivo seria, tal como ele afirma no prefácio, publicar relatórios que explicassem aos proprietários de terra sobre como obter melhores resultados de seus animais. Infelizmente, apenas o primeiro volume desta série apareceu, o qual trata da produção de leite, queijo e manteiga. Este volume é dificílimo de encontrar. (Cf. Moraes, v. 2, p. 447)

(14) Velloso, José Mariano da Conceição, (compil.) – O fazendeiro do Brazil Criador. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, M.DCCC [1800].

Volumes acessíveis em:

(15) Velloso, José Mariano da Conceição – Aviario brasilico ou Galleria ornithologica das aves indigenas do Brasil. Lisboa: Na Officina da Casa Litteraria do Arco do Cego, 1800. 12 p., front., 1 grav., "Plano do Aviário Brasílico" em papel azul.
Acessível em:

(16) Manuel Arruda da Câmara – Wikipédia

(17) Camara, Manuel Arruda da – Memoria sobre a cultura dos algodoeiros, e sobre o methodo de o escolher, e ensacar etc : em que se propoem alguns planos novos, para o seu melhoramento... / por Manuel Arruda da Camara... ; impressa... por Fr. Joze Mariano da Conceição Velloso. - Lisboa: na Officina da Casa Litteraria do Arco do Cego, 1799. - [4], 80, [3] p., [6] f. desdobr. ; 4º (21 cm)
Acessível em:

(18) Lista das obras e chapas que fr. José Mariano da Conceição Veloso imprimiu e fez imprimir na oficina do Arco do Cego.
Acessível em:


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