"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

domingo, 7 de novembro de 2010

António Feliciano de Castilho – Apontamentos dum estudo bio-bibliográfico




António Feliciano de Castilho

António Feliciano de Castilho, fidalgo da Casa Real, por sucessão a seus maiores, cavaleiro da antiga Ordem da Torre e Espada; oficial da imperial Ordem da Rosa do Brasil, bacharel formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, comissário geral de instrução primária pelo método português, que ele criou; sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, membro do Real Conservatório, vogal do Conselho de Instrução Pública e do antigo conselho dramático; sócio da Sociedade Jurídica de Lisboa, e da Literária Portuense, do Instituto Histórico de Paris, da Academia das Ciências e Belas Letras de Ruão, da dos Ardentes de Viterbo, da Academia de História de Madrid, e da Arcádia Romana, com o nome de Memnide Eginense, escritor e poeta, etc

Mas afinal quem foi, e o que fez, este homem para acumular tantas honrarias e títulos académicos?


Casa onde nasceu Castilho na rua da Torre de S. Roque
(hoje rua de S. Pedro de Alcântara)

António Feliciano de Castilho nasceu a 28 de Janeiro de 1800, em Lisboa, numa casa da velha rua da Torre de S. Roque, hoje rua de S. Pedro de Alcântara, segundo filho e primeiro varão do médico José Feliciano de Castilho, ao serviço da Corte como inspector de hospitais e lente de prima da Universidade de Coimbra, e de Domitília Máxima da Silva. Era uma família de feição tradicionalista, devota e monárquica.


Domitília Máxima da Silva
(mãe de A. F. de Castilho)
Gabinete Fotográfico Belga, ca 1840

O pai emigrou para o Brasil, aquando das invasões francesas, e só regressou com D. João VI e a sua Corte.

A infância repartida por Lisboa e seus arredores, nomeadamente na casa dos Azulejos ao paço do Lumiar, ou no bucólico lugar de A-da-Beja para onde a família se afasta por altura da entrada na capital dos primeiros invasores franceses comandados por Junot.


 Embarque para o Brasil do Príncipe Regente de Portugal, D. João VI,
e de toda a família real, no Porto de Belém, em 27 de novembro de 1807.
Gravura feita por Francisco Bartolozzi (1725-1815)
a partir de óleo de Nicolas Delariva.

Foi uma criança com dificuldades de saúde, incluindo sérios sintomas de tísica (1). Com 6 anos, inicia a instrução primária na «escola de meninos» de mestre Eusébio; no inverno de 1806-1807, é vítima de violento contágio de sarampo e fica irreparavelmente cego. Apesar de nessa altura já saber ler e escrever, a cegueira impediu-o durante toda a vida de escrever e ler, tendo de estudar ouvindo a leitura de textos e foi obrigado a ditar toda a sua obra literária.

Assim, a sua aprendizagem faz-se apenas pelo que ouvia ou lhe diziam, mas, mesmo assim, Castilho conseguiu alcançar razoável erudição no latim e nas humanidades clássicas, o conhecimento superficial de algumas línguas, e o conhecimento aprofundado da língua portuguesa, que lhe permitiu distinguir-se como poeta e prosador.

Entre 1810 e 1815 frequenta, com os irmãos Adriano e Augusto Frederico de Castilho, a Real Escola Literária do Bairro Alto, onde aprofunda os estudos de latim e retórica, instruindo-se no conhecimento dos poetas latinos, que foram sempre os seus estudos predilectos, e, a partir de 1816, o Mosteiro de Jesus, onde frequenta aulas de filosofia racional e moral.

Foi discípulo do padre José Fernandes, latinista de primeira ordem e poeta muito apreciável, a quem deveu os elementos necessários para adquirir o conhecimento profundo da língua latina, que sempre o distinguiu.

Acompanhado por seu irmão Augusto Frederico de Castilho, quase da mesma idade e que tinha uma grande dedicação por ele, matriculou-se na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Cânones, na qual ambos se formaram em Direito Canónico.


Região de Coimbra - 1º quartel do séc. XIX

Desta adolescência, sob a admiração arcádica de António Ribeiro dos Santos e de José Agostinho de Macedo, datam os seus primeiros assomos poéticos.

O seu talento poético começou a desenvolver-se ainda criança; versejava com a máxima facilidade.

Tinha 16 anos quando escreveu e publicou um Epicédio na morte da augustíssima senhora D. Maria I, rainha fidelíssima (1816). Esta obra foi acolhida com surpresa, por ser assinada por um poeta de tão novo e, sobretudo, cego. Como reconhecimento, foi-lhe concedida uma pequena pensão com carácter de incentivo.

Em 1818 publicou outro poemeto em 3 actos, intitulado Á faustissima acclamação de S. M. o S. D. João VI ao throno. Esta composição, e aquela que publicara a propósito do falecimento da rainha, proporcionaram-lhe um lugar no funcionalismo público como escrivão chanceler e promotor do Juízo da Correição da cidade de Coimbra, cujo lugar, pelo impedimento imposto pela cegueira, foi exercido por seu tio António Barreto de Castilho.

Em 1820 publicou uma Ode à morte de Gomes Freire e seus Sócios. Nesse ano também imprimiu anonimamente o elogio dramático A Liberdade, para se representar num teatro particular.

No sarau realizado na Sala dos Capelos da Universidade, em 21 e 22 de Novembro de 1820, recitou várias composições, depois insertas na colecção de Poemas publicada em Coimbra.


Lapa dos Esteios em Coimbra

O período universitário passado na região de Coimbra, onde usufruiu de benesses régias, pelo facto de ser estudante cego. Participou activamente em récitas públicas (nas quais distribui folhetos) e outeiros estudantis (em particular os da «sociedade dos amigos da primavera» na Lapa dos Esteios à beira do Mondego), não deixa de polemizar em famosas disputas arcádicas entre «bocagianos» (2) (no seio dos quais se incluía) e «filintistas» (3).

 
Personificação neoclássica da Poesia
Poesis picta in fornice imminet Parnaso
Rafael Morgan, meados-finais séc. XVIII, grav. Italiana

Nessa abundante produção poética, ditada ao irmão Augusto – com quem estreita, doravante, forte ligação e alguma dependência –, ora canta as auras da liberdade, ora o regresso do rei absoluto, a intimidade solitária ou o amor distante, um receituário primaveril de grupo ou convictos prazeres bucólicos.

Desta produção literária, destacam-se a publicação do seu poema neo-clássico, imbuído deos valores da forma e da importância da mitologia pagã Cartas de Echo e Narciso (1821), volume constituído por 9 epístolas amorosas dedicadas à mocidade académica, e A Primavera (1822), o que lhe granjeou grande simpatia entre a massa estudantil coimbrã.


António Feliciano de Castilho – A Primavera
2ª ed. mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada.
Lisboa, Typ. de A.I.S. de Bulhões, 1837. 328 p. ; 16 cm.
(Obras de António Feliciano de Castilho)
(versão digitalizada em http://purl.pt/29)

 
António Feliciano de Castilho – A Primavera.
Lisboa, Na Typographia de A. I. S. de Bulhões, 1837.
Segunda edição, mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada.
In-8.º de 330 (11) págs.
(fotografia: Miguel de Carvalho) (4)

Como o seu irmão Augusto, seu companheiro de estudos, optou pelo sacerdócio e em Outubro de 1826 foi provido na paróquia de São Mamede de Castanheira do Vouga, António Feliciano, habituado à sua companhia, decidiu ir viver com ele, fixando-se naquela localidade até 1834.

Esta estadia em Castanheira do Vouga assemelha-se a uma reclusão ascética, em plena serra do Caramulo e perto do Buçaco, decorreu longe e desenquadrada do mais conturbado período liberal. Foram 8 anos durante os quais Portugal viveu tempos difíceis, com as perseguições políticas e a violência generalizada, a que se seguiu a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834).

O jovem poeta aprofunda o bucolismo poético e o platonismo amoroso no interior de uma pobre habitação que baptiza «templo das musas», a par de estudos iniciáticos de registo romântico que o irão colocar numa charneira entre o neo-classicismo e o ultra-romantismo.


Casa de A. F. de Castilho em Castanheira do Vouga

Apesar das naturais repercussões locais destes acontecimentos políticos, Castanheira do Vouga foi para Castilho um local de refúgio, o que lhe permitiu atravessar aqueles tempos conturbados dedicando-se ao estudo dos clássicos. Foi nessa época que traduziu as Metamorfoses (publicado em Lisboa, t.I e único, 1841) e Os Amores (publicado no Rio de Janeiro, t.I, 1858) de Ovídio, que escreveu muitos dos versos que depois se incorporaram nas Escavações poéticas (1844) e que compôs os poemetos A noite do Castelo (1836) e os Ciúmes do Bardo (1836).

 
P. Ovidio Nasão – Os amores. Traducção paraphrastica inderessada exclusivamente aos homens feitos e estudiosos das letras classicas por Antonio Feliciano de Castilho seguida pela Grinalda Ovidiana por José Feliciano de Castilho.
Rio de Janeiro, Typ. de Bernardo Xavier Pinto de Sousa, 1858. - 11 t. em 1 v. : il. ; 8º
(versão digitalizada em http://purl.pt/6255)

A publicação das Cartas de Echo e Narciso, de que sairia uma segunda parte em 1825, despertou junto das suas leitoras uma aceitação imediata e duradoura. Motivou-lhe mesmo uma aventura romântica, pois que uma dama reclusa no convento de Vairão, D. Maria Isabel Baena Coimbra Portugal, escreveu-lhe dando-se como uma nova Echo, e perguntando se ele procederia como Narciso. Esta intriga galante resultou numa série de quadras do Amor e Melancolia, que o poeta publicaria em Coimbra no ano de 1828.

 
António Feliciano de Castilho com36 anos

Com o fim da Guerra Civil Portuguesa e a extinção dos conventos, esta senhora veio a casar com o poeta, realizando-se o casamento em 29 de Julho de 1834, mas este pouco durou, pois Maria Isabel faleceu, sem filhos, a 1 de Fevereiro de 1837.

Durante esse período, pretendeu substituir os outeiros pelos salões, reactivar uma imagem pública de notoriedade, actualizar a participação política de cuja realidade estivera afastado.

Com este convívio mundano tornou-se representante activo e consagrado de uma mentalidade e de uma cultura em que procurava o predomínio, a que não faltou a sua adesão à maçonaria.

Publicou tudo o que tinha preparado antes, reuniu e actualizou colectâneas, acedeu à influência das revistas e jornais sobre um novo público, sem esquecer a sua veia ininterrupta de tradutor.

Nesta fase, Castilho empenhou-se num projecto visando divulgar a História de Portugal, com uma publicação em fascículos intitulada Quadros históricos de Portugal. Para tal, a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, que fundara o jornal literário O Panorama (5), publicou em 1839 oito fascículos da obra, em que Alexandre Herculano também colaborou ao escrever o último quadro.


O Panorama: jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis.
Lisboa, na Imprensa da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1837-1868.
V. 3, (Janeiro a Dezembro de 1839)


António Feliciano de Castilho – Quadros históricos de Portugal.
Lisboa , Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, 1838.
58 p. a 2 colns, [9] f. il. : il. ; 51 cm
(versão digitalizada em http://purl.pt/46)

Obteve a nomeação para inúmeras academias, arcádias, conservatórios e gabinetes; mas começaram, também, as primeiras polémicas e dissensões.

No ano de 1840 acompanhou o seu irmão Augusto à ilha da Madeira, onde este, afectado por tuberculose, procurava alívio para a doença. O tratamento não resultou e Augusto faleceu na Madeira a 31 de Dezembro desse ano.

Nesse ano de 1840 casou com Ana Carlota Xavier Vidal, natural da ilha da Madeira. Deste casamento, que duraria até 1871, ano em que faleceu a esposa, resultaram 7 filhos: Júlio de Castilho, 2º visconde de Castilho, memorialista e continuador da obra literária paterna (n.30.04.1840), Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha (n. 10.10.1841), Emílio de Castilho (n. 09.03.1843), Manuel Vidal de Castilho (n.06.07.1844), Eugénio de Castilho (n.27.04.1846), Ida de Castilho e Cristina de Castilho (gémeas) (n.27.10.1848)

Nos primeiros dias de 1841 voltou da ilha da Madeira, e em 1 de Outubro publicava-se o primeiro número da Revista Universal Lisbonense, por ele fundada e dirigida, e à qual se dedicaria em quase exclusivo até 1845.


Revista Universal Lisbonense, nº 21-22, tomo III (1843-1844)
Lisboa, Imprensa da Gazeta dos Tribunais, 1844


António Feliciano de Castilho – Cárcere privado (p. 260)
Crónica jornalística em secção normalmente redigida por A. F. Castilho

Castilho deixou a direcção da Revista Universal Lisbonense em 17 de Junho de 1845, e nesse ano e no seguinte, de colaboração com seu irmão, o conselheiro José Feliciano de Castilho, fundou a Livraria Clássica Portuguesa, para a qual escreveu as biografias do padre Manuel Bernardes e de Garcia de Resende.

Neste mesmo ano de 1845 publicou Mil e Um Mystérios – romance dos romances, que dedicou no prólogo " ... aos Leitores do anno 1900 a quatro escriptores portugueses contemporâneos (sem indicação nominal) a TODAS AS BOAS MULHERES offerece o AUCTOR”.


António Feliciano de Castilho – Mil e Um Mystérios – romance dos romances.
Lisboa, Typographia Lusitana, 1845. 1ª edição. In-8.º de 285 (2) págs.
(fotografia: Miguel de Carvalho)

Em 1846 fez uma passagem pela política activa, militando no Partido Cartista e escreveu um panfleto intitulado Chronica certa muito verdadeira da Maria da Fonte, escrevida por mim mesmo que sou seu tio, o mestre Manuel da Fonte, sapateiro do Peso da Régua, dada à luz por um cidadão demitido que tem tempo para tudo.

Preocupado com o aterrador analfabetismo da população portuguesa, por esse tempo começou a luta em que Castilho empenhou uma grande parte da sua vida. Pretendia fazer adoptar um seu método de leitura repentina, que denominou o Método Português (depois conhecido como o Método Português de Castilho) de aprendizagem da leitura, contra o qual se levantaram grandes polémicas.


António Feliciano de Castilho – Método Castilho para o ensino rapido e aprasivel do ler impresso, manuscrito, e numeração e do escrever.
2.ª ed. inteiramente refundida, aumentada, e ornada de um grande numero de vinhetas.
Lisboa, Impr. Nacional, 1853. - LIX, 319 p.; il.; 16 cm
(versão digitalizada em http://purl.pt/185)

Depois de uma luta pertinaz pela adopção do seu método, e no meio de uma generalizada descrença dos pedagogos sobre a sua eficácia, o governo nomeou-o Comissário para a Propagação do Método Português e deu-lhe um lugar no Conselho Superior de Instrução Pública. Contudo, este nunca adoptou oficialmente o método para uso generalizado nas escolas públicas, recusa que seria o eterno pesar da vida de Castilho

Devido aos crónicos problemas financeiros e desgostosos pela forma fria como fora acolhida em Portugal o seu Método Português, em 1847 partiu para os Açores, fixando-se em Ponta Delgada, cidade onde viveu até 1850.

 
António Feliciano de Castilho com 50 anos

Torna-se como que o prolongamento da fase anterior, esta partida para Ponta Delgada, onde iniciou uma cruzada que só terminará, contudo sem sucesso, no Rio de Janeiro.

O famoso método Castilho encontra ambiente na população rural da ilha de S. Miguel, onde para além da actividade de pedagogo desenvolveu propostas de associação mutualista e de educação sócio-profissional.

Foi recebido como um herói e rapidamente conquistou a simpatia da aristocracia local, em particular da próspera elite dos comerciantes da laranja.

A ilha de São Miguel atravessava então um período de grande prosperidade económica, assente na exportação de laranjas para Inglaterra, e de procura de novas culturas industriais que permitissem manter o forte sector de exportação de produtos agro-alimentares que entretanto se criara.

 
Ponta Delgada - Portas da Cidade
(Foto: José Palma)

Instalado em São Miguel, com o apoio de alguns magnatas locais, entre os quais José do Canto, Castilho dedicou-se à escrita e ao fomento cultural.

Nesse período, escreveu em Ponta Delgada o Estudo Histórico-Poético de Camões, enriquecido de curiosas notas, fundou uma tipografia, onde se imprimiu o jornal O Agricultor Michalense, a convite da Sociedade Promotora da Agricultura da ilha, que o tinha contratado. Castilho era o redactor principal, dedicando-se, para além da escrita, à realização de conferências que despertaram o amor de estudo.

Fundou a Sociedade dos Amigos das Letras e Artes, escreveu a Felicidade pela Agricultura (1849), o Tratado de Mnemónica (1851), o Tratado de Metrificação Portuguesa (1851), as Noções rudimentares para uso das escolas e traduziu os Colóquios aldeãos de Timon.

Tentou consolidar na ilha a tipografia e a gravura em madeira. Também compôs, para aplicar a poesia à música, e torná-la por isso mais atractiva, o Hino do Trabalho, que se tornou muito popular, o Hino dos Lavradores e o Hino da Infância no Estudo.

 
António Feliciano de Castilho – Felicidade pela agricultura.
Ponta Delgada, Typ. da Rua das Artes, 1849. (Data da capa: 1850) 248, [2] p. : il. ; 22 cm
(versão digitalizada em http://purl.pt/106)

Com o apoio camarário, criaram-se por sua iniciativa escolas gratuitas, umas de instrução primária, outras de instrução secundária e onde se ensaiou, pela primeira vez, a leitura repentina pelo Método Castilho.

Apesar desta intensa actividade, acabaria por ficar desencantado com esta experiência açoriana, pelo que regressou a Lisboa a 22 de Fevereiro de 1850.

Dedicou-se com renovada energia à luta contra os adversários do seu método de leitura, de que se publicaram duas edições em 1850, saindo a terceira em 1853, refundida e acompanhada de vinhetas, com o título de Methodo Portuguez Castilho.

Em 1853 foi nomeado Comissário Geral de Instrução Primária. Começou por fomentar a abertura de cursos públicos em Lisboa, Leiria, Porto e Coimbra para instruir os professores no seu método, do qual publicou em 1854 a quarta edição.

 
António Feliciano de Castilho – Método Castilho para o ensino rapido e aprasivel do ler impresso, manuscrito, e numeração e do escrever.
2.ª ed. inteiramente refundida, aumentada, e ornada de um grande numero de vinhetas.
Lisboa, Impr. Nacional, 1853.

A sua actividade, neste cargo público, motivou grandes polémicas – por vezes verbalmente violentas –, em que actuou com grande dureza, como quando publicou a Tosquia de um Camelo, Carta a Todos os Mestres das Aldeias e das Cidades, em 1853, O Ajuste de Contas, em 1854, e Resposta aos Novíssimos Impugnadores do Methodo Portuguez, também em 1854, procura projectar a sua influência paternalista.

A partir desta data, Castilho dedicou a maior parte do seu tempo à propaganda do Método Português, embora continuasse a sua actividade como escritor e polemista.

Pretendendo alargar o uso a todo o mundo lusófono e em 1855 foi ao Brasil com o intuito de propagar o seu Método. Foi recebido pelo imperador D. Pedro II do Brasil, a quem dedicou o seu drama Camões, e de quem ficou sempre amigo, até à morte. Voltou nesse mesmo ano.

Quando D. Pedro V criou em 1858 as cadeiras do Curso Superior de Letras de Lisboa, ofereceu a Castilho a cadeira de Literatura Portuguesa, mas ele declinou a oferta.

Em 1861 publicou uma nova edição do Amor e melancolia, complementada com a Chave do enigma e com uma autobiografia até 1837. Em 1862 publicou a tradução dos Fastos de Ovídio, em 6 volumes, seguida de notas escritas a seu convite por diferentes escritores portugueses. Em 1863 publicou a colecção de poesias Outono.


Alexandre Dumas

Em 1866 deslocou-se a Paris em companhia de seu irmão, José Feliciano de Castilho, onde foi apresentado a Alexandre Dumas, de quem era um admirador apaixonado.

Nesse ano de 1866 publicou em Paris A Lyrica de Anacreonte.

 
António Feliciano de Castilho – A Lyrica de Anacreonte.
Paris, Typ. de Ad. Laine et J. Havard, 1866.
Formato 15x22 cm com 144 pag

Em 1867, também em Paris, promoveu uma edição luxuosa da tradução das Geórgicas de Virgílio.

 
Virgílio – As Geórgias. Tradução de António Feliciano de Castilho.
Paris, Typ. de Ad. Laine et J. Havard, 1867.
1ª edição portuguesa. 301 pp.

Em 1868 saiu a tradução italiana de Os Ciúmes do Bardo, feita pelo próprio autor.


António Feliciano de Castilho – Os Ciúmes do Bardo.
Lisboa, Imprensa Nacional, 1868. In-8.º de 43 págs. Brochado.
Apresenta a tradução em italiano, feita pelo próprio autor.
(fotografia: Miguel de Carvalho)

Após a morte de Almeida Garrett e o exílio de Alexandre Herculano para Vale de Lobos, chama a si um magistério intelectual sobre a jovem geração que, partindo da revista de poesia O Trovador, julga radicar o seu ultra-romantismo no autor de Os Ciúmes do Bardo e de A Noite do Castelo e encontra, na casa deste, o seu centro difusor. Transformou este convívio numa «sociedade do elogio mútuo» e leva aos limites a promoção de um nacionalismo poético – a que não escapa a própria obra –, então ampliada e diversificada de tradutor.

É desta época o período mais fecundo da sua produção literária e em que consolidou a sua reputação como o escritor do regime cuja aprovação era necessária para o sucesso literário em Portugal.

 
Johann Wolfgang von Goethe

Foi um feliz adaptador à cena portuguesa das peças de Molière, pois conseguira encontrar um estilo fluente e eficaz para o palco. Mas nem tudo lhe sairia bem, pois embora não soubesse alemão, Castilho empreendeu a tradução do Fausto de Johann Wolfgang von Goethe, primeira parte, sobre uma tradução francesa. Também sem conhecer o inglês, tentou a tradução de algumas obras de William Shakespeare. A sua tradução do Fausto de Goethe foi acerbamente criticada, suscitando uma polémica violenta, que ficou conhecida como “a questão faustiana”. Existe um grande número de cartas de Castilho publicadas em jornais e revistas a este respeito.

O auge da sua influência é também o da própria decadência: esta predominância e a criação de uma intrincada teia de elogios mútuos e de empoladas críticas favoráveis, resultantes mais de cumplicidades pessoais de que de real mérito literário, conduzirá a duras e sucessivas polémicas com uma outra e novíssima geração que está na origem da célebre Questão Coimbrã (6), com a publicação do opúsculo de Antero de Quental Bom-Senso e Bom-Gosto, que representou o princípio do seu fim.

O título de 1º visconde de Castilho foi-lhe concedido em duas vidas por decreto de 25 de Maio de 1870.


António Feliciano de Castilho com 74 anos

Faleceu em Lisboa a 18 de Junho de 1875. Dada a sua fama, no seu funeral viram-se representadas todas as classes da sociedade, os ministros, os seus colegas académicos da Academia das Ciências de Lisboa, os representantes das letras e do jornalismo e os homens mais ilustres da magistratura, do professorado e das forças armadas.

Na comemoração do centenário do seu nascimento, foi colocada uma lápide no prédio da rua de São Pedro de Alcântara onde nasceu em 28 de Janeiro de 1900.


Bibliografia:

Da imensa bibliografia de Castilho salientam-se: Cartas de Eco e Narciso, 1821 (poema); A Primavera, 1822 (poesias); Amor e Melancolia ou a Novíssima Heloísa, 1828 (poesias); A Noite do Castelo, 1836 (poema); Os Ciúmes do Bardo, 1836 (poema); Quadros Históricos de Portugal, 1839 (historiografia); Escavações Poéticas, 1844 (poesias); Felicidade pela Agricultura, 1849 (tratado); Felicidade pela Instrução, 1854 (tratado); Tratado de Metrificação Portuguesa, 1851 (tratado); Estreias poético-musicais para o ano de 1853, 1853 (poesias); Amor e Melancolia ou a Novíssima Heloísa, 2.ª edição, 1861 (poesias); O Outono, 1863 (poesias)


Com estes apontamentos fica o esboço do homem e do escritor que teve um papel importante na história da Literatura Portuguesa, mas terminaria por ser o marco do ponto de rotura e viragem na mesma com o desencadear da Questão Coimbrã e com o advento da Geração de 70.


Saudações bibliófilas


Notas:

(1) A tuberculose – chamada antigamente de "peste cinzenta", e conhecida também em português como tísica pulmonar ou "doença do peito" – é uma das doenças infecciosas documentadas desde mais longa data e que ainda hoje faz vítimas.

(2) Corrente ligada a Manuel Maria Barbosa du Bocage.

(3) Adeptos do poeta Filinto Elísio. Filinto Elísio (Lisboa, 23 de Dezembro de 1734 - Paris, 25 de Fevereiro de 1819), foi um poeta, e tradutor, português do Neoclassicismo. O seu verdadeiro nome era Francisco Manuel do Nascimento, e foi sacerdote. O seu pseudónimo, Filinto Elísio, ou também Niceno, foi-lhe atribuído pela Marquesa de Alorna (a quem ensinou latim quando esta se encontrava reclusa no Convento de Chelas), dado Francisco Manuel do Nascimento ter pertencido a uma sociedade literária – Grupo da Ribeira das Naus –, cujos membros adoptavam nomes simbólicos.


(5) O Panorama: jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis. Lisboa, na Imprensa da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1837-1868.

(6) Leia-se neste blogue o artigo publicado sobre este tema.

 
Fontes:

DICIONÁRIO cronológico de Autores Portugueses (Vol. II) / organizado pelo Instituto Português do Livro e da Leitura; coordenação de Eugénio Lisboa. (Mem Martins), Publicações Europa-América, 1990. pp. 34-36



Biblioteca Nacional: ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO 1800 – 1875


 

1 comentário:

Anónimo disse...

excelente trabalho! obrigado!