"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Conversa bibliófila: o prazer da descoberta



Lisboa

Durante as minhas férias tive ocasião de visitar dois livreiros-antiquários.

O primeiro foi em Coimbra, o meu prezado amigo Miguel da «Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho».

Aí tive o prazer de fazer algumas aquisições interessantes:

JUNQUEIRO, Guerra – Mysticae Nuptiae. Poemeto. Coimbra, “Imprensa da Universidade, Coimbra” (Inoc. XX-504 n.º 3632), 1866. In-8.º de 20 págs. [E.O.]

Trata-se do segunda obra deste poeta.

MATTOS, Joam Xavier de - “Écloga de Albano e Damiana”. Dedicada ao Muito R. P. F.r Manoel Caetano de Souza, composta por Joam Xavier de Mattos. Lisboa, Na Officina de Francisco Borges de Souza, 1790 (MDCCLXXXX). In 4.º.


Trata-se de um livro de cordel (como Inocêncio o afirma categoricamente), que por razões que nos escapam, não chegou a ser concluído como folheto! Encontra-se exactamente como saiu da tipografia apenas dobrado ao meio. Não dobrado totalmente (in 4.º), nem costurado e nem capeado.

Macedo, José Agostinho – “O Novo Argonauta”. Poema por José Agostinho de Macedo / Plus Ultra / Vinheta tipográfica / Lisboa, Na Typographia de Bulhões, 1825 / Com Licença da Meza de Desembargo do Paço / Vende-se na Loja de Francisco José de Carvalho, Livreiro ao Pote das Almas. In 8.º.

Trata-se de um obra, que por razões que nos escapam, não chegou a ser concluído como folheto! Encontra-se exactamente como saiu da tipografia, com excelente acabamento tipográfico e em bom papel que mantém todas as suas características, apenas dobrado ao meio. Não dobrado totalmente (in 8.º), nem costurado e nem capeado.

Refiro estas aquisições pelo prazer da sua descoberta prometendo a elas voltar com dois artigos mais completos, para os quais estou em averiguações ainda!

A outra foi em Lisboa a «Livraria Biblarte», na minha opinião um dos “Templos da Bibliofilia” mais antigos e de visita indispensável, na capital, gerida por um profissional de grande competência.

Aqui “descobri”
GARRETT, Visconde de Almeida – «O Alfageme de Santarém ou a Espada do Santo Contestável». Lisboa, Imprensa Nacional, 1842. 148 págs.


Tratam-se de dois exemplares encadernados: o primeiro à francesa inteira de pele, conservando as capas de brochura, não aparado e que tem a particularidade de ter anexa uma carta de Almeida Garrett com lacre o seu sinete, o segundo em meia-francesa de pele, com a particularidade de ter uma dedicatória do mesmo.

O conjunto vem numa caixa estojo simulando uma encadernação francesa inteira em tela.


Litografia de Almeida Garrett por Pedro Augusto Guglielmi
(Biblioteca Nacional de Portugal)

João Baptista da Silva Leitão de Almeida e mais tarde visconde de Almeida Garrett. Nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799 e faleceu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854.
Foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, Par do Reino, ministro e secretário de Estado honorário português.
Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português.
«O Alfageme de Santarém ou a Espada do Santo Contestável» é um drama histórico que tem como um dos protagonistas Nuno Álvares Pereira, recentemente santificado pelo Papa, e a sua acção desenrola-se na ribeira de Santarém durante a crise de 1383-1385.


E uma carta de Eça de Queirós, que pelo seu conteúdo, visto não estar datada, se pode considerar contemporânea de «O Crime do Padre Amaro». Acompanha-a uma cópia impressa da mesma.

Como é de prever a elas voltaremos.


Eça de Queirós

José Maria de Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim em 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris a 16 de Agosto de 1900. É um dos mais importantes escritores portugueses. Foi autor, entre outros romances de importância reconhecida, de «Os Maias» e «O Crime do Padre Amaro» este último por muitos considerado o melhor romance realista português do século XIX.

O que aqui quero, mais uma vez expressar, é o quanto se torna imprescindível a visita, com alguma regularidade, aos livreiros-antiquários.
Creio ser a única forma de podermos descobrir peças, depois de vasculharmos com calma as prateleiras, de manusear e sentir o prazer do seu peso e a visão de alguns exemplares de vários temas e de séculos diversos, com algum interesse (para mim foram de grande interesse!).

No entanto, tenho apenas uma dúvida, se foi o prazer da “descoberta”, ou, mais particularmente, a saudável e sempre útil “cavaqueira” com o livreiro, em especial com o meu amigo Miguel, donde se pode colher sempre mais alguns ensinamentos...há sempre algo que desconhecemos, mas também algo que podemos trocar opiniões divergentes – creio ser este o verdadeiro espírito da bibliofilia!

Saudações bibliófilas.

6 comentários:

Galderich disse...

Después de este piscolabis se nos ha abierto el apetito de un buen banquete bibliófilo...

DEBOUT SUR L'OEUF disse...

AS férias também têm a finalidade das novas descobertas, que neste caso são "redescobertas". E a sua qualidade é directamente proporcional à carga emotiva do seu acto. Felicito-o, caro amigo Rui, pela tamanha e importante redescoberta bibliofílica que efectuou este início de solstício de Verão. Envio-lhe um abraço de Coimbra.

rui disse...

Amigo Galderich
Mirar, sentir o dar una vuelta a las páginas de nuestros libros es siempre un grande placer; pero lo mejor, al menos para mí, es lo placer de la búsqueda y el encuentro con los libreros al visitar una librería y buscar entre cientos de libros algo que nos pueda sorprender…
¡Y cuanto se puede aprender con estas conversas!

rui disse...

Estimado amigo Debout sur l’Oeuf
Como sempre um comentário demasiado lisonjeiro, mas julgo saber que igualmente sentido, nesta trama emaranhada que é a bibliofilia e onde, com a sua ajuda, consegui dar mais alguns passitos...
Um abraço deste seu amigo aprendiz de bibliófilo.

DIEGO MALLÉN disse...

Amigo RUI:

Gran placer el viajar, gran placer visitar libreros, gran placer dar con libros que nos colman de satisfacción.

Parafraseando al gran Ronsard “tomemos pues, las rosas que cada día nos da la vida”.

Saludos bibliófilos.

rui disse...

Amigo Diego
¡Es siempre un placer viajar y, si eso se hace en una buena compañía, y logramos a disfrutar los placeres comunes a los mortales, pero también logramos a hacer nuestras visitas y “descubiertas” bibliófilas…creo ser cuasi lo perfecto!
Saludos bibliófilos