"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Octave Uzanne: a outra face.


Louis Octave Uzanne, nasceu em Auxerre a 14 de Setembro de 1851 e morreu em Saint-Cloud a 31 de Outubro de 1931. Foi um homem de letras, bibliófilo, editor e jornalista.


Depois dos estudos no Colégio de Auxerre, muda-se para Paris para se consagrar à bibliofilia. A partir de 1875, colabora no Conseiller du Bibliophile e funda, em seguida, sucessivamente quatro revistas : Miscellanées bibliographiques, Le Livre, Le Livre moderne e L'Art et l'Idée.
Em 1889, com mais 160 pessoas, funda uma sociedade para edição de escritores franceses, La Société des bibliophiles contemporains, que se tornou, mais tarde, na Société des bibliophiles indépendants. Dá a volta ao mundo em 1893. Foi uma das testemunhas de Jean Lorrain, aquando do seu duelo, em Meudon, com Marcel Proust a 6 de Fevereiro de1897. Passa os seus últimos anos no seu apartamento de Saint-Cloud, sempre rodeado de livros e sempre a escrever, e aonde os seus fiéis vinham « entendre Octave Uzanne remuer les cendres tièdes encore de ce passé qu'il aimait»


Deixou uma vasta bibliografia. (1)





Louis Octave Uzanne



A sua assinatura


Creio que quase todos conhecerão o Uzanne bibliófilo, o autor de «Nos amis les livres. Causeries sur la littérature curieuse et la librairie», «Les Caprices d’un bibliophile», «Physiologie des quais de Paris, du Pont Royal au Pont Sully» «Contes pour les bibliophiles» com Albert Robida, o qual contem: «La Fin des livres» e das revista «Le Livre», «Le Livre moderne» e «L'art et l'Idée» que é. um pouco, como nosso “patrono”, pois que com ele, muitos de nós aprendemos a amar os livros e nos iniciámos na bibliofilia.

Com o seu estilo de escrita simples e de leitura extremamente agradável, consegue-nos transmitir, com grande sensibilidade, os ambientes bibliófilos parisienses, possibilitando-nos transmitir o cheiro e a sonoridade do papel dos livros como se os estivéssemos a manusear, consegue fazer-nos sentir o prazer da “caça ao nosso livro”. Com ele conversamos com os “bouquinistes” das margens do Sena e aprendemos a distinguir os diversos personagens que o povoaram. Sentimos o Sol quente no Verão e o vento frio e a chuva no Inverno...
Como nos deliciamos com as suas histórias e anedotas bibliofílicas!
E quanto aprendemos com os seus estudos mais eruditos

Deste Uzanne deixo-vos esta ilustração do seu conto «La Fin des Livres»


Loisirs Littéraires au XXème Siècle



Para os mais curiosos fica aqui o “link” para a leitura do mesmo:




Mas há um “outro” Uzanne, menos apreciado pelos bibliófilos, o qual escreveu diversos livros sobretudo sobre moda feminina.
É precisamente deste que vos quero apresentar aqui um livro, da minha biblioteca, que espelha bem o seu estilo, trata-se de «La Française du Siècle», livro onde descreve as modas, hábitos e usos da mulher francesa ao longo do século XIX.





UZANNE, Octave - La Française du siècle. Modes - Mœurs - Usages.
Quantin, Paris, 1886. Formato : 18,5 x 26,5 cm (gr. in-8. º). Brochado.
Capas, com dobras internas, ilustradas. Ilustrações com aguarelas de Albert LYNCH gravadas, a água-forte, coloridas por Eugène Gaujean. [E.O.]


Não sendo uma raridade bibliófila, nem tão pouco um livro muito procurado, trata-se de um livro com algum interesse para os estudiosos do século XIX, pois podemos apreciar a evolução da moda e o mundanismo cosmopolita, o qual se reflectiu nos diversos países europeus. Não esqueçamos que a França ditava a moda!







Frontispício





E, no caso de Portugal, da França vieram, para além da moda, muito dos ideais de estilos literários, assim como, muitos dos princípios ideológicos pelo qual se orientaram alguns dos nossos escritores e políticos. A Alemanha teve forte influencia em alguns ideais filosóficos, por exemplo Antero de Quental era um “germanófilo” assumido. Enquanto a Inglaterra interferia na nossa política e controlava a nossa economia... (mas a estes assuntos voltaremos um dia)

Ficam aqui as duas páginas finais onde, em jeito de resumo, o autor descreve o conteúdo da sua obra.







Página 272 de “La Française du Siècle”






Página 273 de “La Française du Siècle”



Para avaliarem da beleza das suas ilustrações, aqui ficam alguns exemplos:







O cuidado da impressão, a qualidade do papel e, sobretudo, as ilustrações dos livros de Uzanne tornam-nos, em minha opinião, um objecto de atenção para os coleccionadores de livros ilustrados do século XIX.




Para aqueles que não conheçam muito bem a sua obra, aqui fica o “link” para uma consulta mais detalhada deste mesmo livro:




Agradeço-vos a vossa paciência na leitura deste artigo um pouco longo, mas julgo que a estética das suas imagens o justifica.

Saudações bibliófilas.

(1)
Obras principais :

Caprices d'un bibliophile (1878)
Le Bric-à-brac de l'amour (1879)
Le Calendrier de Vénus (1880)
Les Surprises du cœur (1881)
L'Éventail (1882)
L'Ombrelle, le gant, le manchon (1883)
Son Altesse la femme (1885)
Nos amis les livres. Causeries sur la littérature curieuse et la librairie (1886)..
La Française du siècle : modes, mœurs, usages (1886)
La Reliure moderne artistique et fantaisiste (1887)
Le Miroir du Monde, notes et sensations de la vie pittoresque (1888)
Les Zigzags d'un curieux : causeries sur l'art des livres et la littérature d'art (1888) Le Paroissien du célibataire, observations physiologiques et morales sur l'état du célibat (1890)
L'Art et l'Idée. Revue contemporaine ou Dilettantisme littéraire et de la curiosité (2 volumes, 1892)
Physiologie des quais de Paris, du Pont Royal au Pont Sully (1892)
Bouquinistes et bouquineurs. Physiologie des quais de Paris du Pont royal au pont Sully (1893)
Les Ornements de la femme : l'éventail, l'ombrelle, le gant, le manchon(1892).Réédition de L'Éventail et de L'Ombrelle, le gant, le manchon
Vingt jours dans le Nouveau Monde (1893)
Contes pour les bibliophiles (1894). Avec Albert Robida. Contient : La Fin des livres.
Parisiennes de ce temps en leurs divers milieux, états et conditions : études pour servir à l'histoire des femmes, de la société, de la galanterie française, des mœurs contemporaines et de l'égoïsme masculin (1894)
La Femme à Paris : nos contemporaines, notes successives sur les Parisiennes de ce temps dans leurs divers milieux, états et conditions (1894)
Coiffures de style : la parure excentrique, époque Louis XVI (1895)
Contes pour les bibliophiles (1895)
Dictionnaire bibliophilosophique, typologique, iconophilesque, bibliopegique et bibliotechnique à l’usage des bibliognostes, des bibliomanes et des bibliophilistins (1896)
Féminies : huit chapitres inédits dévoués à la femme, à l'amour, à la beauté (1896). Com Gyp, Abel Hermant, Henri Lavedan et Marcel Schwob.
L'École des faunes, fantaisies muliéresques, contes de la vingtième année : Bric-à-brac de l'amour, Calendrier de Vénus, Surprises du cœur (1896)
La Bohème du cœur, souvenirs et sensations d'un célibataire (1896)
Les Évolutions du bouquin. La nouvelle bibliopolis, voyage d'un novateur au pays des Néo-icono-bibliomanes (1897)
L'Art dans la décoration extérieure des livres en France et à l'étranger : les couvertures illustrées, les cartonnages d'éditeurs, la reliure d'art (1898)
Monument esthématique du XIXe siècle : les modes de Paris, variations du goût et de l'esthétique de la femme, 1797-1897 (1898)
La Panacée du Capitaine Hauteroche (1899)
La Cagoule. Visions de notre heure : choses et gens qui passent, notations d'art, de littérature et de vie pittoresque (1899)
Sports et transports en France et à l'étranger : la locomotion à travers l'histoire et les mœurs (1900)
L'Art et les artifices de la beauté (1902)
Les Deux Canaletto, biographie critique (1907)
Le Spectacle contemporain ; sottisier des mœurs : quelques vanités et ridicules du jour, modes esthétiques, domestiques et sociales, façons de vivre, d'être et de paraître, bluffs scientifiques et médicaux, évolution des manières, de l'esprit et du goût (1911)
Le Célibat et l'amour : traité de vie passionnelle et de dilection féminine (1912)
Jean Lorrain : l'artiste, l'ami, souvenirs intimes, lettres inédites (1913)
Instantanés d'Angleterre : Londres et sa vie sociale, spectacles mondains, sportifs et militaires, l'art et les artistes, types populaires, la femme à Londres, mœurs britanniques, paysages et pèlerinages (1914)
Barbey d'Aurevilly (1927)
Les Parfums et les fards à travers les âges (1927)


Revistas :

Miscellanées bibliographiques (1878-1880). Avec Édouard Rouveyre.
Le Livre, revue du monde littéraire, archives des écrits de ce temps, bibliographie moderne (1882-1889)
Le Livre moderne, revue du monde littéraire et des bibliophiles contemporains (1890-1891)
L'Art et l'Idée (1892)

5 comentários:

Bertrand disse...

Bravo pour cet article,
et même si je ne comprends pas tout en traduction automatique Google,
je suis certain que l'éloge que vous faites de Uzanne est à la hauteur de l'enthousiasme qu'il suscite chez tous les bibliophiles un peu sensibles aux belles éditions, aux beaux papiers et aux belles illustrations. Par ailleurs, Uzanne doit être reconnu comme un acteur majeur pour la rénovation de la bibliophilie moderne de la fin du XIXe siècle.

Merci pour cette évocation,
Bertrand

Anónimo disse...

Caro Rui,
belamente "esgalhado" este seu artigo sobre um bibliófilo de apuradíssima sensibilidade artística. E muito obrigado por nos facultar uma lista bibliográfica de suas obras. Não deixe de partilhar as suas divagações bibliofílicas. Bem haja.
Miguel de Carvalho

Miguel de Carvalho disse...

Caro Rui,
belamente "esgalhado" este seu artigo sobre um bibliófilo de apuradíssima sensibilidade artística. E muito obrigado por nos facultar uma lista bibliográfica de suas obras. Não deixe de partilhar as suas divagações bibliofílicas. Bem haja.
Miguel de Carvalho

rui disse...

Bertrand
Merci pour votre commentaire.
J’ai essayé toute simplement d’évoqué «le» Uzanne bibliophile et l’autre Uzanne, auteur des livres sur la femme et la mode, mais qui peuvent attirer l’attention des bibliophiles collectionneurs des livres illustrés du XIX siècle, pour la qualité de leur impressions, la qualité du papier et, surtout pour les illustrations faites pour les mieux illustrateurs de l’époque.

rui disse...

Amigo Miguel

Foi com grande satisfação que li o seu comentário.

Quanto às minhas divagações bibliofílicas, são um pouco ao sabor da ocasião,da inspiração ou quando surge um tema de conversa...como, por exemplo hoje, em que, após uma boa "cavaqueira à portuguesa", me surgiram algumas ideias que gostaria de explorar.

Um forte abraço