"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Rubens Borba de Moraes visto por José Mindlin




Rubens Borba de Moraes

No decurso de um trabalho de pesquisa que estou a fazer para um pequeno apontamento no blog, descobri este texto que gostaria de partilhar convosco.


José Mindlin

É de facto emocionante lermos como José Mindlin, esse iminente bibliófilo, nos fala da outra grande figura da bibliofilia e do estudo do livro antigo de língua portuguesa – Rubens Borba de Moraes – por ocasião do centenário do seu nascimento em 23 de janeiro de 1999.

Como exemplo, da sua importante bibliografia, refiro esta preciosa obra de consulta fundamental para o estudo das edições brasileiras do período colonial:



MORAES, Rubens Borba de – Bibliografia brasileira do período colonial: catálogo comentado das obras dos autores nascidos no Brasil e publicadas antes de 1808. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 1969. 1ª edição. [XXII] 437 [2] pág. Brochura.

Mas vamos então ao texto referido:



Espero que este seja do vosso agrado, senão será mais uma justa homenagem a quem muito fez e estudou pela bibliofilia de língua portuguesa.

Sem uma leitura, e consulta frequente e atenta das suas obras, não se conseguirá ter um verdadeiro conhecimento da bibliografia e história do livro no Brasil.

Saudações bibliófilas.

 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

José F. Vicente – Importante Leilão de Livros, Manuscritos, Fotografia, Gravura, Desenho e Pintura







José F. Vicente, proprietário da Livraria Olisipo  em Lisboa, vai realizar mais um importante leilão de livros e manuscritos (aquilo que nos interessará mais) nos dias 7 e 8 de Maio de 2012, no Palácio da Independência, 11 (ao Rossio), em Lisboa.

No tocante aos livros, manuscritos e gravuras estão bem representadas as temáticas: História, Arte, Monografias, Bibliografia, Poesia e Literatura, Revistas, Livros dos Séculos XVI a XIX, Biografias, Genealogia e Heráldica entre outras.

Quando afirmei que os livros será aquilo que nos interessará mais deve-se ao facto de este leilão também incluir um importante conjunto de pintura moderna e serigrafias de artistas consagrados, tais como: Lima de Freitas, Bernardo Marques, Rogério de Freitas, Amarelhe, Victor Palla, Sá Nogueira, Cargaleiro entre outros.



A exposição dos lotes estará patente no Palácio da Independência nos dias 6, 7 e 8 de Maio das 15h às 20h.

O leilão desenrolar-se-á nos dias 7 e 8 de Maio de 2012 às 21h:

1ª sessão – Lotes 1 a 450
2ª sessão – Lotes 451 a 928

Nas Revistas não posso deixar de destacar:


A Águia n.º 4 (1)

009 ÁGUIA (A). Órgão da Renascença Portuguesa. Porto. Empreza Industrial Gráfica outras. 1910 (a 1932). In-4º. Encs. em 12 Vols.

Colecção completa, sendo o nº 10/11 da 4ª série fac-similado. Este número, foi na época apreendido pela censura e há anos atrás, um pequeno grupo de 3 livreiros, fez uma edição fac-similada deste número, aliás muito bem conseguida, que se encontra nesta colecção em brochura. Compõe-se da seguinte forma: 1ª Série, 12 Nos; 2ª Série, 120 Nos; 3ª Série, 60 Nos; 4ª Série, 12 Nos; 5ª Série, 3 Nos. A Águia, revista de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, fundada por Álvaro Pinto, desempenhou relevante papel na vida mental portuguesa do primeiro quartel do século XX. Foram seus directores, entre outros, Teixeira de Pascoaes, António Carneiro, José de Magalhães, Leonardo Coimbra, Hernâni Cidade, Teixeira Rego e Sant'anna Dionisio. Encerram colaboração de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Raul Brandão Mário Brandão, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão, Afonso Duarte, Afonso Lopes Vieira, Camilo Pessanha, Mário de Sá- Carneiro, Eugénio de Castro, Raul Brandão, Vitorino Nemésio, Wenceslau de Moraes, José Régio, Alberto Pimentel, etc. Algumas folhas do Volume VI - 2ª Série com pequenos picos de traça em algumas folhas. O número 1 da primeira série com as 2 primeiras folhas restauradas junto ao pé, não atingindo o texto.

Revestido de boas encadernações inteiras de pele. Conservam as capas de brochura da maioria dos volumes. Alguns anterrostos com a assinatura de antigo proprietário. Encadernações modernas inteiras de pele com ferros a ouro. Peça de colecção.


Athena - Revista de Arte
Vol. I – Nº 1

052 ATHENA. Revista de Arte. Directores: Fernando Pessoa. Ruy Vaz. Vol. I (ao Vol. V). Lisboa. 1924 (a 1925). 5 Nos. In-4º Encs. em 1. Colecção completa. Edição original desta importante revista, colaborada por Fernando Pessoa, Almada Negreiros, António Botto, Mário Saa, etc. Ilustrações de Almada Negreiros, Mily Possoz, Lino António, etc.

Exemplares em magnífico estado de conservação. Encadernação meia de pele. Capas de brochura de todos os números preservadas. Só ligeiramente aparado á cabeça.


Revista Limia

494 LIMIA. Revista mensal ilustrada de letras, ciencias e artes. Série 1ª - Tomo I - Nº 1 (á Série 2ª - Tomo I - Nº 7-8). Director: João da Rocha. Redactores: João Paris e Cláudio Basto. Viana do Castelo. 1910 (a 1911). 8 Nos. In-8º Encs. em 1 Vol.

Colecção completa. Encerra colaboração de Sousa Viterbo, Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Júlio Dantas, Manuel Laranjeira, Pedro Vitorino, etc. Encadernação sintética. Conserva as capas de brochura de todos os números.



Na Literatura iremos encontrar muitos dos autores já nossos conhecidos, ainda que na minha opinião, as grandes raridades comecem a escassear.

Teremos um Camilo Castello Branco muito bem representado (lotes 149 a 161), João de Deus (lotes 271 e 272), José Gomes Ferreira (lotes 326 a 331), Vergílio Ferreira (lotes 334 a 336), J. B. de Almeida Garrett (lotes 394 a 397), Agustina Bessa Luis (lotes 522 a 526), Wenceslau de Moraes (lotes 604 a 614, este sim com duas das suas obras mais procuras: Dai-Nippon e O Culto do Chá – este uma 1ª edição!), Fernando Pessoa (lotes 668 a 672), Eça de Queiros (lotes 714 a 721), Antero de Quental (lote 722), José Régio (lotes 737 a 741, onde se inclui uma extenda carta manuscrita), Mário de Sá-Carneiro (lotes 768 a 770), e José Saramago (lotes 793 a 796, e onde se encontra a Terra do Pecado).

Só referi alguns dos autores de que de algum modo já dei notícia neste blogue, o que não significa qualquer menor apreço por todos os outros que iremos encontrar neste catálogo.





606 MORAES, Wenceslau de. – O CULTO DO CHÁ. Ilustrações de Yoshiaki. Kobe. Typographia do "Kobe Herald ". 1905. In-8º de 46 págs. Enc.

Primeira edição. Muito rara. Encadernação meia de pele. Capas de brochura preservadas. Exemplar com algumas manchas de acidez, mas com as folhas duplas intactas.

Vamos encontrar também três obras interessantes e sempre muito procuradas sobre a Maçonaria (lotes 537 a 539).



Os Manuscritos estão bem representados neste catálogo (claro que mais pela qualidade do pela quantidade como seria de esperar) do lote 546 ao lote 551.



546 MANUSCRITO. IMPORTANTE BRASONÁRIO DO SÉCULO XVI. In-Fólio de 272 Fls. Enc.

Manuscrito a preto e vermelho, caligrafia a duas mãos, começando no Conde D. Henrique indo até D. João III. Depois descreve as famílias mais importantes da época: Eças, Vasconcelos, Noronhas, Casa de Bragança, Castros, Meneses, Coutinhos, Almeidas, Cunhas, Cunhas de Pombeiro, Limas, Sousas, Silvas, Silveiras, Mirandas, Mendonças, Sás, Henriques, Henriques da Ilha da Madeira, Câmara de Lobos, Castelo Branco, Pereiras, Nogueiras, Britos, Lobos, Soares, Soares de Albergaria, Malafaias, Monizes, Freires, Mascarenhas, Almadas, Manuéis, Linhagem de Álvaro Pais, Melos, Camelos, Pessanhas, Falcões, Sequeiras, Lemos, Soares, Pais, Minas, Barretos, Galvões, Azevedos, Cabrais, Mouras, Abreus, Sampaios, Figueiredos, Carvalhães, Góis, Corte Reais, Atouguias e Correas, Brandões, Carneiros, Costas, Saldanhas e Panóias. Algumas folhas com palavras do texto, queimadas pela acção da tinta, mas restauradas. Julgamos que este precioso manuscrito se encontra inédito. Caligrafia de fácil leitura. Encadernação do século XVIII restaurada. Algumas folhas com manchas de água.
Peça de colecção.


O Desenho, Pintura, Serigrafia, Caricatura e Litografia ocupam os lotes 253 a 270.



 
A Fotografia estende-se do lote 355 até ao lote 367.



As Gravuras, com excelentes espécimes, vão do lote 416 ao lote 423.

Mas voltando ao livro, e em particular ao livro antigo, refiro:



465 JOSEPHUS, Flavius. - [FLÁVIO JOSEFO, ANTIGUIDADES JUDAICAS] // FLAVII // IO SEPHI // ANTIQVITATVM // Iudaicarumlibri xx, ad vetera exemplaria dili // genter recogniti.// DE BELLO IVDAICO // libri vii, ex colla- // tione Graecorum codicum castigatiores quàm // vnquam ante reditti. CONTRA APPIONEM libri ii, pró corru- // ptifs: antea, iam ex Graeco itidem non solum // emendati, sed etiam suppleti. // DE IMPERIO RATIONIS sive de MACH- // ABAEIS liber vnos à DES. ERASMO Rotero- // damo recognitus// Cum index copiosíssimo. // [Vinheta do impressor Jean Petit] // Vaeneunt Luteciae sub Scuto Britannico ad mon- // tem D. Hilarii apud Ioannem Masseum. //( M. D. XXXV. [1535]. In fólio [22], 743 págs. Enc.

Ilustrado com letras capitais xilográficas decorativas e historiadas; e um magnífico frontispício arquitectónico com efigies, marca do impressor, brasões da universidade e da cidade de Paris; e siglas anagramaticas do impressor e da Casa Real de França. Exemplar com leves picos de traça. Edição contendo as duas mais importantes obras de Josefo que foram: As Antiguidades dos Judeus (escrita cerca do ano 94) e A Guerra da Judeia (escrita cerca do ano 75 da era cristã). A primeira descreve a história do mundo segundo as perspectiva dos judeus e a segunda fala da guerra dos judeus contra Roma. Ambas fornecem a base para compreender o advento do cristianismo. Os livros sobre a Guerra da Judeia falam da rebelião, da dispersão dos Judeus e a da sua fuga de Jerusalém. Esta foi a primeira obra escrita no primeiro século da era cristã pelo historiador judeu Flávio Josefo - ainda que outras fontes atribuam a autoria a Santo Ambrósio que se baseou em Josefo e noutras fontes. A obra redigida em aramaico e posteriormente em grego, possivelmente sobre a supervisão do autor, trata da guerra dos judeus desde a captura de Jerusalém pelos Seleucidas até à primeira guerra com os romanos em 74 d. c. O autor era um apologista da cultura judaica e da sua compatibilidade com o pensamento greco-romano. Apresentou os judeus como civilizados, devotos e sábios e com interesse numa evangelização judaica dos povos. Encadernação do século XVII inteira de pele mosqueada com ferros a ouro na lombada.



532 MACEDO, Padre Francisco de Santo Agostinho. - DOMUS // SADICA: // REGIS LINEIS // FIRMATA; // Romanis Columnis nix; // SADICIS // HEROIBUS ILLUSTRATA. // (Grande Brasão de armas) // LONDINI, // Typis Guilielm Du Gard, Concillii Statûs Typographi // An. 1653. In-Fólio de [18], 135 págs. e 21 Folhas. Enc.

RARISSIMO. As 21 folhas representam várias árvores genealógicas, uma das quais em folha desdobrável. Com referências a S de Miranda, Camões, Rui de Pina, Damião de Goes, etc. Exemplar com cores de traça habilmente restaurados. Encadernação da época inteira de carneira restaurada.



552 MARIANA, Juan de. - IO. MARIANAE // Hispani. // E SOCIE. IESV,// HISTORIAE DEREBVS HISPA- // NIAE // LIBRI XX. // Toleti, [Toledo] // Typis Petri Roderici 1592. // In- Fólio de [8], 959 [12] págs. Enc.

Monumental impressão sobre papel muito alvo com caracteres redondos, bela marca de impressor com escudo de Filipe I de Portugal ao centro e capitulares. Primeira obra sistemática sobre a história da Península Ibérica, abrange desde o ano 283 até 1429, com muitas referências a Portugal. Palau 1990, V 57. “Verdadera primera edicion”. Pérez Pastor Toledo 402. Encadernação do século XVIII em pergaminho com a lombada renovada. Exemplar com carimbos a óleo antigos no frontispício e pequenos picos de traça em algumas folhas.



779 SANCHES, Antonio Nunes Ribeiro. – OBSERVATIONS // SUR LES // MALADIES VÉNÉRIENNES, // Par seu… // Publiées par M. Andry. // … // A PARIS, // Chez Théophile Barrois // M.DCC.LXXXV. In-8º peq. De XXXVI, 204 págs. Enc.

Primeira edição. Raríssima. Ilustrado com o retrato do autor que raramente acompanha a obra. O autor foi um célebre médico judeu, natural de Penamacor. Depois de exercer em Benavente, Guarda e Amarante, Ribeiro Sanches é denunciado por um primo à Inquisição, pela prática do judaísmo. Conseguiu escapar ao cárcere, exilando-se para o resto da vida. Encadernação do século XIX inteira de pele, com ferros a ouro na lombada e pastas.



Já me criticaram, e bem, por a minha escolha não reflectir as raridades que os catálogos por vezes apresentam. Concordo plenamente com o facto. Claro que a minha leitura é semopre muito pessoal e como tal os meus juizos, por maior imparcialidade que queira ter, serão sempre conotados com as minhas preferências.

Mas (e há sempre um “mas”), algumas das vezes essa atitude é propositada, pois o importante é que cada um faça a sua leitura e as suas opções – nunca quis fazer, nem nunca farei! – o “resumo” do que um qualquer catálogo tem de importante deixando o resto como “objectos de segunda”, cada livro tem um valor intrínseco e de mercado é certo, mas o seu maior valor é o significado que ele tem para nós e o lugar que lhe destinamos nas nossa bibliotecas.

Boa leitura e façam as vossas apreciações.

Saudações bibliófilas.


Nota:

(1) Algumas das imagens apresentadas petencem ao meu arquivo pessoal e não aos lotes em leilão, ainda que a eles correspondam, por me parecerem mais explicitas, pelo que chamo a vossa atenção para este facto.


sábado, 28 de abril de 2012

No 3º Aniversário da Tertúlia Bibliófila – algumas reflexões.




Jardim de S. Pedro de Alcântara em Lisboa

No dia em que se celebra o 3º aniversário deste meu modesto blog, quero, em primeiro lugar, agradecer a todos aqueles que de maneira pública ou simplesmente anónima tem a paciência de lerem os meus “escritos”, a todos aqueles que solicitam a minha modesta colaboração/informação na investigação de um qualquer trabalho, que estejam a realizar, ou por simples curiosidade, pois são eles o grande sustentáculo deste meu contributo para a divulgação do livro, de escritores e da sua obra e de alguns dos eventos bibliófilos que se vão realizando.

No entanto, também devo um pedido de desculpas, pois que por questões meramente pessoais, devido à minha actividade profissional e de alguns problemas ocorridos na minha vida privada e familiar, não dediquei muito tempo na elaboração de “grandes estudos” (sempre “toscos” e incompletos pois que para mais não tenho conhecimentos) em detrimento da publicitação de actividades relacionadas com o livro – divulgação de catálogos e de leilões, tanto em Portugal como no estrangeiro, sempre com alguma perspectiva crítica bem pessoal, e como tal sujeita a controvérsia, chamando igualmente a atenção para a qualidade das nossas impressões tipográficas sobretudo na temática do livro antigo.

Outro facto que tem ocupado bastante do meu tempo, foi ter finalmente “descoberto” um programa informático (não será o melhor mas satisfaz bastante) para catalogação da minha biblioteca, que após a mudança de residência se tornava necessário fazer, pois que só com um GPS conseguia descobrir determinadas obras e, por vezes, nem mesmo assim… tarefa “ciclópica” convenhamos!


Nascente do Rio Cuervo , Cuenca, Espanha

Considerando o que Marcia Rodirigues escreveu no se excelente blog Tesouro Bibliográfico  no seu trabalho sobre livros raros , transcrevo duas questões/afirmações que me irão servir para a minha reflexão.

1. O que é livro raro?

De maneira bastante simplificada, pode-se dizer que um livro alcança o “status” de raridade bibliográfica quando a sua procura excede a oferta, ou seja, é um livro escasso, difícil de ser encontrado.

A combinação de uma série de fatores contribui para tornar um exemplar único, raro, valioso, porém não existem fórmulas fáceis para a determinação de raridade.

4. Todos os livros antigos são valiosos?

“Um livro não é valioso porque é antigo e, provavelmente, raro. Existem milhões de livros antigos que nada valem porque não interessam a ninguém. Toda biblioteca pública está cheia de livros antigos, que, se fossem postos à venda, não valeriam mais que o seu peso como papel velho. O valor de um livro nada tem a ver com a sua idade. A procura é que torna um livro valioso.” (Rubens Borba de Moraes em “O bibliófilo aprendiz”, 2005, p. 67)

A antiguidade por si só não é suficiente para tornar um livro valioso. A importância do texto, as condições do exemplar e a demanda pela obra determinarão o valor de um livro antigo. No entanto, algumas categorias de livros são geralmente mais procuradas, incluindo todos os livros impressos antes de 1501, os livros ingleses impressos antes de 1641, os livros impressos nas Américas antes de 1801, os livros impressos no oeste do Mississipi antes de 1850, os livros brasileiros impressos no período da Impressão Régia (1808-1822), podendo esse período ser extendido até 1860, devido à demora com que se desenvolveu a imprensa em certas regiões do Brasil (no Rio Grande do Sul, a história da imprensa tem início em 1827, quando surgiu o primeiro periódico gaúcho: o Diário de Porto Alegre).

Vem esta introdução a propósito de alguns exemplos que vos quero apresentar.

Comecemos por O Caminho Fica Longe de Vergílio Ferreira:



FERREIRA, Vergílio – O Caminho Fica Longe. Lisboa, Inquérito, 1943. Biblioteca da Nova Geração. 1ª edição. In- 8º de 316, [2] págs.

Este primeiro romance do autor foi na época proibido pela censura, sendo actualmente de grande raridade..



“O Caminho Fica Longe, primeiro romance de Vergílio Ferreira, é um livro que poucas pessoas leram, porque a sua publicação engrossou, como muitas outras, os anais da Censura. Editado em 1943, foi proibido, pelos censores da época, e os poucos exemplares que chegaram às livrarias, logo foram recolhidos e, por consequência, postos fora do mercado. Só alguns priviligeados o adquiriram a tempo. É um romance que não existe mesmo nas bibiliotecas públicas (a), sendo assim quase inacessível até para os estudiosos que com ele pretendam balizar o percurso romancístico de Vergílio Ferreira.” (1) (2)

Consideremos seguidamente Lírios do Monte de José Gomes Ferreira:



FERREIRA, José Gomes – Lírios do Monte. Lisboa: "Orbis", Empresa de Livros e Publicidade, 1918.- 61, (2)p.; 19cm.- B.rochura. 1ª edição e única, do primeiro livro publicado por este autor, hoje muito rara e procurada. Bonita capa com ilustração de Stuart, impressa a cores.

Lírios do Monte, obra poética publicada pela "Orbis" (Lisboa) em 1918, que marcou a estreia literária de José Gomes Ferreira, que, no entanto, a acabaria por renegar.





Com efeito ele próprio escreveria mais tarde: "Totalmente alheio à revolução do 'Orpheu', lancei para o caixote do lixo público todos os piores desabafos campestres sob o título de 'Lírios do Monte'". Também a critica na sua obra O Mundo dos Outros: "...quando … folheio, colérico, os ignóbeis "Lírios do Monte" sinto ganas de ir à procura de todos os meus antigos professores para lhes pedir explicações e quebrar-lhes a cara! Sim. Quebrar-lhes a cara! Vocês são os responsáveis de tudo: das boninas, dos lírios a rimarem com martírios e de toda a muita ignorância do mundo exterior a empurrar-me para a ilusão de só existir beleza dentro de mim." Chama-lhe "versos campestres de louvor às avenas que nunca tinha ouvido, à Natureza que nunca tinha visto e à Paisagem quase unicamente desvendada em sonhos", dando-lhe mais tarde a classificação de "páginas inspiradas no Parque Eduardo VII"

E, finalmente consideremos Mensagem de Fernando Pessoa:



PESSOA, Fernando. - Mensagem. Lisboa. Parceria António Maria Pereira. 1934. In-8º de 100, [2] págs.

Primeira edição. É, sem dúvida, um dos livros mais importantes da poesia portuguesa.


Claro que destes três exemplos, Mensagem de Fernando Pessoa é sem qualquer contestação possível, o exemplar mais valioso e que qualquer bibliófilo não dispensa de possuir na sua biblioteca, mas veja-se o número de exemplares aparecidos em leilões, ou simplesmente vendidos em livreiros-antiquários, nos últimos dois anos.

Mas se considerarmos o grau de raridade, enquanto número de exemplares disponíveis no mercado biblófilo, os outros dois são seguramente muito mais raros.

Um livreiro-antiquário do meu relacionamento, confidenciou-me, que Lirios do Monte é hoje edição raríssima, da qual em trinta anos de negócio, que já leva, só dispôs de três exemplares para venda.

No que diz respeito a esta obra de José Gomes Ferreira será uma “obra menor” (se se poderá considerar uma qualquer obra de um escritor como tal, pois que cada uma representa um passo na sua evolução para a maturidade), mas esse facto não lhe retira a sua raridade.


Um recanto para meditar…

Quanto a O Caminho Fica Longe, pelas razões apresentadas, é seguramente de elevada raridade.

Mas como o que está actualmente “em moda”, na Literatura portuguesa, é o modernismo (3) – casos de Herberto Helder e Mário Cesariny por exemplo – quem se interessa por obras do neo-realismo (como o livro de Vergílio Ferreira e de tantos outros escritores hoje um pouco caídos no esquecimento).

Bom resta-me agradecer-vos mais uma vez o vosso apoio e deixar a promessa de continuar a publicar, dentro das minhas possibilidades e capacidades, para além das referidas referências a eventos bibliófilos, alguns textos mais elaborados que possam ser de alguma utilidade para os mais inexperientes.

Saudações bibliófilas.

Notas:

(1) MENDONÇA, Aniceta de – «O Caminho Fica Longe» de Vergílio Ferreira e o romance dos anos 40" / Aniceta de Mendonça. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 57, Set. 1980, p. 36-44.


Revista Colóquio/Letras

(2) Actualmente a BNP possui um exemplar da 1ª edição, que fazia parte do espólio do escritor, com emendas autógrafas e cortes da censura. Com a nota do autor, a lápis, “Os traços a vermelho são cortes da Censura”.

(3) Não se interprete esta afirmação como qualquer sentido crítico,pois que eu também sou um apreciador, mas apenas como um juízo de facto que não de valor.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

XXIV Salon International du Livre Ancien au Grand Palais - Paris – Alguns Catálogos de Livrarias




O livro antigo

Ainda a propósito deste acontecimento biblófilo, deixo aqui a informação de três catálogos, que me foram enviados, de livrarias presentes neste Salão do Livro Antigo, mas muitas outras livrarias devem merecer igualmente uma visita atenta.

Começo pela Librairie Le Feu Follet que preparou dois excelentes catálogos para o Salão do Livro Antigo no Grand Palais.



Deste catálogo, que inclui algumas obras já nossas conhecidas, destaco estas duas (opção altamente suspeita pelas minhas preferências!):



17. CAMUS Albert. La chute.
Gallimard, Paris 1956, 13x19cm, relié.
Edition originale, un des 35 exemplaires numérotés sur Hollande, tirage de tête.



Reliure janséniste en plein maroquin souris, dos à cinq nerfs, date en queue, gardes et contre-gardes d'agneau lie-de-vin, couvertures et dos conservés, tête dorée sur témoins, étui bordé de maroquin souris, plats de papier souris à fins lisérés lie-de-vin, ensemble signé de Patrice Goy.

Rare exemplaire du tirage de tête parfaitement établi.



31. FLAUBERT Gustave. "La dictature de Sylla" : Manuscrit autographe complet inédit.
S.n., s.l. s.d., 20x31cm, 6 pages en feuilles.

Précieux manuscrit autographe complet de 6 pages in-4, inédit, évoquant cet épisode de l'histoire de Rome.
Ce récit, très documenté, semble autant une compilation de notes historiques que l'élaboration d'une toile de fond au destin épique de Sylla.

Flaubert y évoque succinctement, bien qu'avec précision, les événements majeurs de l'Histoire et s'attarde plus volontiers sur les épisodes moins significatifs mais plus évocateurs de la démesure du personnage.

 

Ainsi remarque-t-on, dès le début, une attention prêtée aux déplacements géographiques des différents protagonistes et la mise en exergue de leurs fins tragiques : "Catilina (…) lui creva les yeux, lui arracha la langue, les oreilles, les mains, lui rompit les bras et les jambes et lui coupa la tête enfin qu'il porta toute sanglante à Sylla puis il se lava les mains dans l'eau lustrale d'un temple voisin. Le cadavre du vainqueur des Cimbres fut exhumé, livré aux outrages et jeté dans l'Anio."

Plusieurs références bibliographiques : "Mr D. n'a pas remarqué cela" ; "Selon Pline XXXVI 186" ; "v. p. 296 est-ce cela ? " soulignent la réflexion de l'auteur au-delà de la simple relation des événements. Il conclue d'ailleurs ainsi : "Sylla homme du passé voulant rétablir une société morte (...) se mit lui-même au dessus des lois (…) caractère commun à tous les acteurs de ce même rôle."



Le manuscrit évoque bien évidemment l'intérêt de Flaubert pour l'Antiquité après le procès de Mme Bovary, "le besoin de sortir du monde moderne, où ma plume s'est trop trempée et qui d'ailleurs me fatigue autant à reproduire qu'il me dégoûte à voir" (lettre à Mlle Leroyer de Chantepie, 18 mars 1857). L'absence totale de mention de Carthage dans ce texte semble plutôt témoigner d'un écrit antérieur aux recherches historiques qu'il effectua pour Salammbô, d'une recherche encore ouverte, mais l'intérêt porté au potentiel "tragique" de personnages hors norme, aux antipodes de la "dramatique" actualité de Mme Bovary évoque son grand roman orientaliste.



Depuis longtemps, le personnage exerçait une fascination certaine sur Flaubert : "Nous remarquerons d'abord le crime grand, politique et froid, dans la personne de Sylla : il accomplit sa mission fatalement, comme une hache, puis il abdique la dictature et s'en va au milieu du peuple ; c'est là un orgueil plein de grandeur, ce sont là les crimes d'un homme de génie." (Rome et les Césars, 1839). Paul Bourget évoque également cette passion de l'auteur : "Ses amis se rappellent encore avec quel frémissement il récitait tel morceau de prose, le dialogue de Sylla et d'Eucrate, par exemple : « Sylla, lui dis-je...» puis, s'arrêtant là de sa citation, il ajoutait : « Toute l'histoire romaine est là dedans...» et il l'y voyait, tant l'ensorcellement des syllabes agissait sur ses nerfs tendus." (Journal des débats politique et littéraire, 10 février 1884).

Mais aussi épique fût-elle, l'histoire de Sylla manquait sans doute, à l'instar du manuscrit, d'une figure essentielle aux grandes oeuvres de Flaubert : une femme.


Do seu Catalogue 66 – Livres Anciens, refiro estas duas obras:






A Livraria Castro e Silva que, como já referi estará presente neste evento, preparou um catálogo especial: Catálogo de Livros Raros – Salon International du Livre Ancien - Paris 2012.





Ainda que já se conheçam algumas das obras incluidas neste catálogo destaco estas duas, a primeira por ser um almanaque francês, livros que têm sempre algum procura, e a segunda como representativa da nossa excelente bibliofilia:




5. ALMANACH DÉDIÉ AUX DAMES pour l’An 1826. À Paris chez Le Fuel, Lib edi. Et Delaunay, Palais Royal. In 12.º de 12x8 cm. com [xiv] 152 pags. Encadernação da época em seda estampada com desenhos neoclássicos coloridos. Ilustrado com dezenas de gravuras em extratexto.

 

49. LUCENA, João de. HISTORIA DA VIDA DO PADRE FRANCISCO XAVIER, E do que fizerão na India os mas Religiosos da Companhia de Iesu, Composta pelo Padre Ioam de Lucena da mesma Companhia Portugues natural da Villa de Trancoso. Impresso per Pedro crasbeeck Em Lisboa. Anno do Senhor 1600. In fólio de 26x16 cm. Com [iv], 908, [xxxviii] pags. Encadernação recente ao gosto da época inteira de pele com ferros a seco nas pasta. Ilustrado com frontispício gravado; uma gravura com o túmulo de S. Francisco Xavier; e dois retratos do mesmo apóstolo. Impressão a duas colunas. Exemplar com leves restauros marginais e falta da folha com a licença régia (que foi retirada da maioria dos exemplares na época) adicionada em fac-simile. Primeira edição. Obra muito rara e importante para a história da expansão portuguesa na Ásia. Azevedo e Samodães, 1856. «Obra de muito merecimento para a história das missões e do nosso domínio nas Índias Orientais durante a segunda metade do século xvi. Seu autor é considerado como um dos melhores clássicos da nossa língua, e isso muitíssimo contribui para a grande e justificada fama bem justificada estima que o livro desfruta, não só nos escritores e bibliófilos nacionais, mas também estrangeiros. Os exemplares desta edição primitiva, bela e primorosamente impressa, são raríssimos.» Inocêncio III, 399. ―P. JOÃO DE LUCENA, Jesuita, natural da villa de Trancoso, n. em 1550, e m. em Lisboa na casa professa de S. Roque em 1600, contando por conseguinte 50 annos d'edade. Historia da vida do Padre Francisco de Xavier, Pedro Craesbeeck. Em Lisboa. Anno do Senhor 1600. fol. Tem, afóra o frontispicio, mais dous retratos gravados em chapas de metal, os quaes todavia faltam em varios exemplares que tenho visto. Foi traduzida em italiano, e sahiu impressa em Roma, por Zannetti 1613. 4.º, e em castelhano, Sevilha, por Francisco de Lyra 1619. 4.º Ibi, 1699; e dizem que o fôra tambem em latim. A edição portugueza de 1600 é pouco vulgar, e assás estimada. D'ella fez Bento José de Sousa Farinha uma segunda edição, que elle dá por mui fiel, e sahiu: Lisboa, na Offic. de Antonio Gomes 1788. 8.º 4 tomos. Com esta historia o P. Lucena abriu-se praça entre os mestres mais insignes da pureza da nossa lingua. Suave no estylo, loução e polido no dizer, grave nas sentenças, e escrupuloso na escolha das palavras, tem sido universalmente respeitado pelos nossos criticos e philologos, todos concordes em reconhecerem e apreciarem o seu grande merecimento. Para confirmar este juizo, transcreverei aqui dous testemunhos cuja competencia não deve ser contestada. Seja o primeiro o do P. Francisco José Freire, nas Reflexões sobre a Ling. Portug., parte 1.ª Diz elle: «O P. João de Lucena merece occupar logar na classe dos mestres da primeira nota: porque a sua vida de S. Francisco Xavier é escripta com tal propriedade, energia, e pureza de lingua, que os muitos elogios com que os sabios honram a sua memoria não são os que bastam para quem tanto honrou com a sua pura locução aquella linguagem portugueza, que a critica só reconhece por genuina. Foi injustamente arguido de usar de diversos termos destituidos de classica auctoridade, mas o certo é que de todos os que lhe arguem ha exemplos seguros, como facilmente mostrariamos, se fosse nosso assumpto fazer aqui a apologia do P. Lucena.» Seja o segundo o do P. José Agostinho de Macedo, no seu opusculo Os Frades, ou reflexões philosophicas, etc., a pag. 67, onde fallando de Lucena se exprime nos termos seguintes: «É um dos nossos melhores classicos, e muito seguro texto; e sendo por este lado tão digno do nosso respeito e reconhecimento, ainda o considero mais por outro lado, e vem a ser: pelas noções que nos dá, e pelas noticias que só elle, entre todos os viajantes, nos dá dos costumes, das leis, da religião de muitos povos do ultimo oriente, isto é, dos habitantes das ilhas que formam o imperio do Japão, e de muitas outras do Oceano Pacifico, por onde S. Francisco Xavier levado pelos portuguezes, estendeu a sua vastissima e apostolica missão. São dignos do verdadeiro philosopho os maravilhosos quadros daquellas disputas e altercações, em que o sancto com os sagacissimos bonzos de continuo entrava, onde estão expostos os principios da theologia natural, por onde sempre começava a convencel-os da necessidade da divina revelação. E estão estas grandes cousas como escondidas e ignoradas no mundo, no canto incognito de um livro portuguez, e o peior é, que de todo ignoradas, ou não attendidas pelos mesmos portuguezes.... Se os francezes tivessem feito aquelle livro, teria mais edições do que tem uma folhinha, ou de porta ou de algibeira; e ha quasi trezentos annos tem tido duas em Portugal!»‖ History of the life of Father Francisco Xavier and the religious fathers of the Society of Jesus. Lisbon. 1600. In folio (26x16 cm) with [iv], 908 [xxxviii] pags. Binding: a beautiful full calf replica tooled bind at covers and gilt at spine. Illustrated with one engraved frontispiece; one engraved plate from the tomb of St. Francis Xavier; and two portraits of the same apostle. Printed in two columns. Copy with minor renovations, and lacking page with the royal license (which was withdrawn from most of the copies at the time) which is added on a facsimile. First edition of a very rare and important history of Portuguese expansion in Asia. Azevedo e Samodães, 1856: 'Work of much merit for the history of our field missions and the East Indies during the second half of the sixteenth century. Its author is considered one of the best classics of our language, and this greatly contributes to the large and well-justified reputation justified estimates that enjoys the book, not only in national writers and bibliophiles, but also foreigners. The original copies of this edition, beautiful and exquisitely printed, are very rare'. Inocêncio III, 399. 'Padre João DE LUCENA, was born in 1550, and died in Lisbon in 1600. This work was translated into Italian, and printed by Zannetti in 1613; in Spanish, Seville, by Francisco de Lyra, in 1619 and 1699, and also in Latin. The Portuguese edition of 1600 is unusual and fairly estimated. Smooth style, and polished in the telling, in severe sentences, and careful choice of words, has been universally respected by our critics and philologists, all agreed to recognize and appreciate their great merit. P. Francisco José Freire says: 'Fr João de Lucena deserves to occupy a place among the masters because his life of S. Francis Xavier is written with such property, energy, and purity of Portuguese language. He was unjustly accused of using various terms devoid of classical authority. Worthy of our respect and appreciation for the notions that gives us, and the news that he alone among all travelers, gives us the customs, laws, and religion of many peoples of the Far East, and the inhabitants of the islands that form the Empire of Japan, and many others from the Pacific Ocean. They are worthy of the true philosopher the beautiful paintings of those disputes and altercations with the holy gurus and bonzes, exposing the principles of natural theology, which began convincing them of the necessity of the divine revelation. And these are big things hidden and ignored in the World, contained in a unknown corner of a Portuguese book - at all ignored or missed by the Portuguese themselves. If the French had done that book, would have more issues than a pocket leaflet; and nearly three hundred years after it had just two editions in Portugal.



Um bibliófilo

Para aqueles que ali se deslocarão deixo o convite para uma visita e apreciação das obras apresentada, e de muitas outras, pois que de todas será quase impossível.

Boa visita … nunca será tempo perdido!

Saudações bibliófilas.

Para que não se esqueça a liberdade …




Livraria In-Libris

A Livraria In-Libris do Porto apresenta uma “Montra de Livros” subordinada ao tema: Letras de Liberdade, que me parece oportuna na data que se comemora – o 25 de Abril de 1974 – e o fim dum regime totalitário e intolerante com a cultura (neste caso da palavra escrita), que através da censura tentava calar, embora não o tenha conseguido, todas as vozes que ousavam pensar e escrever de forma divergente.



Apresento-vos dois exemplos da sua nefasta intolerância:



SARAIVA (António José).— HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA. Publicações Europa América. Lisboa. 1950. (Impresso em 1949). 12x18 cm. 153-V págs. Brochura.

Primeira edição, publicada na "Colecção Saber".

Livro proíbido pelo regime, conforme relatório RELATÓRIO Nº 7682 (20 DE DEZEMBRO DE 1965), da Direcção dos Serviços de Censura.

Leia-se o documento referido para análise do modo de pensar e agir dis censores:






(Documento retirado de Ephemera, Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira).



TORGA (Miguel).— MONTANHA. Contos. Coimbra. 1941. (Impresso nas Oficinas da tip. da “Atlântida”). 14x20,5 cm. VI-181-I págs. Brochura.

Primeira edição, de grande raridade no mercado, uma vez que foi imediatamente apreendido aquando da sua publicação.

Posteriormente viu o seu título modificado para “Contos da Montanha”.

De igual modo, este sucinto e directo, veja-se a deliberação da censura:



(Documento retirado de Ephemera, Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira)

Aqui fica o convite para visualizarem estra montra e poderem tomar conhecimento de algumas obras que foram proibidas, embora muitas outras faltem, e ficarem com uma ideia do espirito persecutório do regime e das alegadas razões dessa atitude.

Que o dia seja de feriado e descanso, mas que se reflita no seu significado mais profundo, pois que para alquelas gerações mais novas, que não sentiram o peso da opressão e da perseguição, este dia escapa um pouco à sua compreensão.

Saudações bibliófilas.