"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

domingo, 15 de novembro de 2009

Gomes Leal – Apontamentos para um estudo


Para o Miguel de Carvalho
que vende livros,
mas sabe oferecer ideias...



Fotografia de Gomes Leal

António Duarte Gomes Leal nasceu em Lisboa no dia 6 de Junho de 1848, na Praça do Rossio, freguesia da Pena. Filho ilegítimo de um funcionário da Alfândega, com algumas posses, que morreu em 1876, e de Henriqueta Fernandina Monteiro Alves Cabral Leal.
Viveu com a sua mãe e irmã Maria Fausta – a sua principal fonte de inspiração.

Frequentou o Curso Superior de Letras, mas não o concluiu. Não se fixou, porém, em qualquer carreira ou profissão que lhe assegurasse uma subsistência regular: no jornalismo, no panfletarismo político, acima de tudo na poesia, aplicaria a sua vocação de boémia e artista. Empregou-se como escrevente de um notário de Lisboa, mas a sua cultura literária foi quase toda adquirida no seu meio de trabalho e nos cafés.

Começou cedo a trabalhar no mundo jornalístico, tendo também feito edição de livros e panfletos. Colaborou com diversos jornais da época, publicando críticas literárias e artigos satíricos. Enquanto crítico, Gomes Leal era já defensor do realismo, mas como poeta era ainda ultra-romântico, o que é bem visível, formalmente, no tom de balada e na exposição narrativa de muitas das suas composições, componente que não deixará nunca de revelar, apesar das vicissitudes e “conversões” do seu percurso literário e pessoal – ou por isso mesmo.

Quando Gomes Leal publica as suas primeiras composições poéticas na «Gazeta de Portugal», a poesia do romantismo em Portugal atravessava um período de radical conflito a nível teórico. Era o período da célebre polemica “Questão Coimbrã” ou do “Bom Senso e Bom Gosto”, provocada por Antero de Quental.
Pode dizer-se que, nessa altura, salvo raríssimas excepções, a poesia em Portugal continuava alheia às influências desse “modernismo” que, no interior do próprio romantismo europeu, Baudelaire proclamara já, genericamente em 1846: “Qui dit romantisme dit art moderne – c’est-à-dire intimité, spiritualité, couleur, aspiration vers l’infini, exprimés par tous les moyens que contiennent les Parts”.
Como aliás já aqui se falou, esta polémica contra Castilho proclama, em 1865, os valores supremos de uma poesia europeia aberta às “imensas criações da alma moderna”

Tudo isto nos permite situar Gomes Leal, nos finais dos anos 60 do séc. XIX, como um herdeiro directo (mas não um imitador ou mesmo um discípulo) dos primeiros românticos portugueses. Mas há também desde o inicio da sua obra, um sentido finissecular baudelairiano que a define essencialmente, tornando-a única.


Lisboa – Praça de Camões em 1868

Gomes Leal estreou-se aos dezoito anos, em 1866, ao publicar a poesia “Aquela Morta”, na «Gazeta de Portugal»; aonde publica igualmente “A gondoleira” a 5 de Novembro de 1867.
Em 16 de Janeiro de 1869, começa a publicar o folhetim "Trevas" na «Revolução de Setembro». Com este trabalho tornou-se conhecido como poeta. É apresentado por Luciano Cordeiro como um dos "poetas Novos", a par de Teófilo Braga, Antero de Quental, Guilherme Braga e Guerra Junqueiro, entre outros.

Na «Revolução de Setembro», publicou vários textos, de características joco-satíricos, dos quais se destacam: “A batalha dos astros” (20 de Abril de 1870); “Descrença” (31 de Agosto de 1870); “Flor de perdição” (2 de Outubro de 1870); “No Calvário” (Outubro de 1870).

O cariz interventivo da sua obra é marcado não só pelos folhetins publicados nos jornais, mas também pela fundação com Magalhães Lima, Silva Pinto, Luciano Cordeiro e Guilherme de Azevedo, em 1872, do jornal satírico «O Espectro de Juvenal».
Em 1873, publica “O Tributo de Sangue” e “A Canalha”; e, em 1874, um ano antes da primeira edição de “Claridades do Sul”, escreve para o «Diário de Notícias» (19 de Maio) “Duas palavras sobre a poesia moderna”, onde reflecte sobre a utilidade que a poesia deve ter face às atribulações morais do final do século.


LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES – Claridades do Sul.
Lisboa, Braz Pinheiro, 1875. - 281, [12] p. ; 21 cm


No ano da morte de sua irmã (Maria Fausta, sua principal fonte de inspiração) publica "Claridades do Sul" (1875), o seu primeiro livro poético, e nele já se notam os seus ideais anticlericalistas e republicanos, preocupações também presentes em obras posteriores. Apesar de ser ainda ultra-romântico, revela já certos aspectos parnasianos (nomeadamente na versificação e temática), numa "poesia sentimental e sinestésica que canta as contradições de uma existência repartida entre os amores venais e a fantasia estelar e exótica, a indignação causada pelas injustiças sociais e o pessimismo, ora negro ora afectadamente cínico e positivista" (Dicionário da Literatura Portuguesa).

Em 1881 é um dos fundadores do jornal «O Século». Aí publica, por exemplo, “A banalidade nacional irritada” (30 de Janeiro de 1881).

Para celebrar Camões e Bocage, publica o poema em 4 cantos – “A Fome de Camões” – para celebrar o tricentenário do poeta (1880) e “A Morte de Bocage”, (1881). Nestes dois últimos livros reflecte sobre o destino fatal do poeta de missão, com que ele próprio se identificava.

Datam igualmente de 1881 os panfletos poéticos “A Traição” e “O Herege”, pondo em causa o trono na pessoa do rei D. Luís, as Instituições burguesas e a Igreja, o que gerou um verdadeiro escândalo literário e político. Aliás, o primeiro texto leva-o à prisão do Limoeiro, onde escreve uma carta publicada no número comemorativo da Tomada da Bastilha de «O Século» (14/7/1881). A edição do almanaque «O António Maria» de 7 de Julho de 1881 é dedicada por Bordalo Pinheiro a Gomes Leal.


Gomes Leal
Caricatura de Bordalo Pinheiro

Na linha desta "poesia como voz da Revolução" (como o anunciara Antero de Quental nas «Odes Modernas»), os folhetins satíricos "A Orgia" (1882), "A Morte do Atleta" (1883), "A Noviça", e "O Remorso do Facínora"; "A História de Jesus para as criancinhas lerem" em 1883 (tendência agora calma e cristã) ; "Fim do Mundo" (volume com as suas poesias de combate) (1899); "Mefistófele em Lisboa"(1907) e "Retratos Femininos" ( novas sátiras e quadros da vida urbana) .
Outros poemas da sua autoria são “O Renegado: A Antonio Rodrigues Sampaio, carta ao velho pamphletario sobre a perseguição da imprensa” (1881), “O Anti-Cristo” (1884 e 1886), “Serenadas de Hilário no Céu” (1900), “A Mulher de Luto” (1902), “A Senhora da Melancolia” (1910). Publica até tarde. Data de Março de 1915 o poema “A Dama Branca” que vem a lume na Águia.


LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES Fim de um Mundo : Sátyras Modernas.
Porto: Livraria Chardron, 1899 ~ Com ano 1899 no rosto e 1900 na capa ~ Brochura original ~ XVII+436p+1fb ~ 19x13x3cm. 1ª edição

A partir de “Anti-Cristo” (1886), e com “A Mulher de Luto”, depois da sua viagem a Madrid em 1878, por ocasião do casamento de Afonso XII, (1902), a poesia de Gomes Leal torna-se mais negativa, de uma certa inspiração ocultista, provavelmente devido à decadência física e moral sofrida pelo poeta.

A sua poesia oscila entre os três grandes paradigmas literários do final do século XIX: romantismo, parnasianismo e simbolismo. De 1899 a 1910, compõe e publica quase diariamente.

Quando a mãe morre, em 1910, converte-se ao catolicismo, o que tem influência na sua escrita, mudança que se manifestou na sua obra, em livros como "A Senhora da Melancolia".


LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES - A Senhora da Melancolia : Avatares de um Ateu.
Lisboa: Livraria Moderna, 1910 ~ Vinhetas na capa e em fecho de cada um dos poemas ~ Brochura original ~ 23p ~ 21x13x1cm. ~ 1ª edição.

Começa aqui o período mais difícil da sua vida, do ponto de vista económico, foi recolhido em 1913 por uma pessoa piedosa. Dormia de casa em casa, ou nos bancos da praça pública, e chegou mesmo a ser apedrejado pelos garotos da rua, até que Teixeira Pascoaes e outros escritores lançaram um apelo público para que o Estado lhe atribuísse uma pensão. Este objectivo foi conseguido quando o Parlamento votou que lhe fosse atribuída a pensão, no valor de 600$00 reis que, apesar de diminuta, foi o seu sustento até à morte.

A fase final da vida de Gomes Leal foi marcada por um grande fervor religioso, associado à degradação física e moral consequente do seu alcoolismo. Morreu em Lisboa no dia 29 de Janeiro de 1921.

Apesar de se mover literária e pessoalmente nos círculos próximos da Geração de 70, não integra o grupo dos “Vencidos da Vida”, referindo, porém, o apreço que Eça de Queirós e Antero de Quental lhe dedicam, num comentário feito pelo próprio Gomes Leal na obra “A Morte do Rei Humberto” (1900).


LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES – A Morte do Rei Humberto e os Críticos do "Fim d'um Mundo".
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1900 ~ Prólogo do Autor ~ Brochura original ~ 102p+1fb ~ 19x13x1cm. 1ª edição

Gomes Leal tem aliás o cuidado de se distanciar das correntes estéticas da altura, fazendo-o nomeadamente na Nota a “Claridades do Sul”, acrescentada e publicada na segunda edição, em 1901. Na Nota a “A Morte do Rei Humberto”, Gomes Leal afirma ter publicado antes de “Fradique Mendes” na «Revolução de Setembro» e assevera ter sido contactado por Antero de Quental para assinar textos daquele pseudónimo (1), o que recusou. Na referida Nota, menciona que Cesário Verde lhe tece louvores à poesia de “Claridades do Sul”.

Esse sentido pós-romântico não se trata evidentemente, e apesar de uma certa herança de Herculano, dum tom funéreo e grandiloquente, nocturno, essa linguagem poética que o próprio Herculano e, antes dele, Bocage, foram buscar a Young e às suas “Nigths”.

Assim, desde o início da sua obra poética, Gomes Leal revela uma curiosa tendência heteróclita. Para essa tendência contribuem, se dúvida, os modelos do romantismo português, paralelamente a modelos estrangeiros, à frente dos quais está Baudelaire.

As marcas de Herculano, também já referidas, no respeitante aos primeiros poemas de Gomes Leal e que se exprimem, em termos de grande exaltação lírica, no folheto que lhe dedica, quando da sua morte: “À memória de Alexandre Herculano (Preito à memória do grande escritor, por ocasião do seu óbito em 13 de Setembro de 1877)”.
Gomes Leal reúne Garrett e Herculano num mesmo preito patriótico, em 1897, num texto em poesia, bastante polémico: “O estrangeiro vampiro. Carta a El-Rei D. Carlos I”.

A perspectiva do poeta enquanto ser incompreendido e infeliz surge em vários textos de Gomes Leal, composições poéticas em que o sujeito lírico se assume como alguém singularmente distante do comum dos mortais. Não se distanciando da visão romântica do poeta, Gomes Leal define-se como um génio inadaptado à sociedade, num misticismo visionário. Inúmeros são os exemplos desta perspectiva do “poeta proscrito e infeliz”, como “Soneto dum poeta morto”, “Aquele Sábio”, “El Desdichado” e “Noites de Chuva” de “Claridades do Sul”.

A filiação de Gomes Leal em Baudelaire é um dos tópicos mais tratados, porque o poeta português se inspirou no mestre das correspondências. De facto, Gomes Leal trabalha com mestria a ideia das “correspondances” do romântico francês nos quatro sonetos de “Claridades do Sul” intitulados “O Visionário ou Som e Cor”.

A partir de “Claridades do Sul”, o sentido heteróclito da poesia de Gomes Leal, quer quanto às múltiplas influências estrangeiras, com predominância para o modelo de Baudelaire assim como a sua visão de radicada na cultura portuguesa mas de que e o poeta depende essencialmente. Só se poderá compreender com uma análise específica da sua relação com os principais representantes da “Geração de 70” e, muito em especial, com a poesia de Antero de Quental.

Num curioso artigo publicado em «O Século» em 1881, Gomes Leal escreve sobre “Os Sonetos” de Antero de Quental: “A nós, só nos recorda os tercetos de Dante, (...), o “Sonho” de Byron, o “Corvo” de Edgar Poe, o “Livro de um fumador de ópio” de De Quincey e os terríveis tercetos de bronze (..) que se chamam as “Trevas” de Teófilo Gauthier”

Deve aqui acrescentar-se um outro modelo fundamental para a Geração de 70: Vítor Hugo e, sobretudo, a sua visão panteísta.
Através da referida influência de Antero, para quem “Les Châtiments” (1853) foram de uma importância relevante, este foi um ponto de partida para muitos dos poemas visionários e misticamente sociais de Gomes Leal.

Outra característica deste poeta, do final do século, prende-se com a preocupação que manifesta em relação aos seus leitores, nomeadamente na Nota à primeira edição e acrescentada na segunda edição de “Claridades do Sul” (1901). Aí debruça-se sobre a tarefa do escritor explicitando que a este compete “trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada desse vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao que dá a Natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.”

Gomes Leal é considerado um precursor do Modernismo Português, tendo sido referido por Fernando Pessoa como um dos seus mestres. Este dedica-lhe o soneto “Gomes Leal”, publicado pela Ática na edição das Obras Completas de Fernando Pessoa, em 1967.


Gomes Leal
Caricatura


Respondendo ao Inquérito Literário organizado por Boavida Portugal (realizado entre Setembro e Dezembro de 1912 e publicado em 1915), Gomes Leal afirma: “Em mim há três coisas: o poeta popular e de combate, nas sátiras e panfletos; o poeta do sonho e do mistério, na Nevrose Nocturna, nas Claridades do Sul, na Lua morta e na Mulher de Luto; e o poeta místico, na História de Jesus, na Senhora da Melancolia e no segundo Anti-Cristo.”

No número 2 da «ABC – Revista portuguesa» (22 de Julho de 1920), sob o título “O grande poeta Gomes Leal faz a sua biografia ao A B C, publica o soneto autobiográfico”, que transcrevemos, antecedido do seguinte texto:

“Gomes Leal, o poeta ilustre, que é uma glória nacional, quis dar ao A B C uma impressão da sua vida, da sua acção, das suas lutas. Em vez duma entrevista foram aos seus versos lapidares que chegaram a explicar como se passou uma infância, uma velhice e como a velhice chegou com as suas dores a focar essa cabeça coroada de louros. Só Gomes Leal poderia definir o que A B C desejava saber: a vida do primeiro poeta português.”

Outr’ora, outr’ora, em épocas passadas,
Tive uma santa Mãe de ideias maneiras,
Um recto Pai de barbas prateadas,
Tive prédios, jardins, fontes, roseiras.

Nos colégios, nas aulas, nas bancadas,
Não quebrei bancos, não parti carteiras;
Fiz bons exames, contas, taboadas,
Mais tarde amei patrícias feiticeiras.

Fui amigo do Eça e do Ramalho,
João de Deus, mais do excêntrico Fialho,
E tive que emigrar para o estrangeiro.

Chorei, gemi! Qual Dante nas estradas!
E ao regressar, por causas avanças,
- fui por três vezes parar ao Limoeiro.



Com este artigo, ainda que um pouco longo, tentei estabelecer a ligação dos valores que triunfaram na “Questão Coimbrã” e o despontar de novos ideais que se iriam impor na transição do século XIX para o século XX.
Desta análise ressalta um outro aspecto – o definitivo inter-relacionamento do pensamento nas diversas culturas europeias.

Saudações bibliófilas.



Bibliografia activa (alguns títulos):

O Tributo do Sangue (1873)
A Canalha (1873)
Claridades do sul (1875) (2)
A Fome de Camões: Poema em 4 cantos (1880) (2)
A Traição (1881)
O Renegado a António Rodrigues Sampaio carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa (1881) (2)
A morte do athleta (1883) (2)
História de Jesus para as Criancinhas Lerem (1883)
Troça à Inglaterra (1890)
A Senhora da Melancolia
(1910)


Bibliografia passiva:

Álvaro Manuel Machado – “Gomes Leal, Baudelaire e o Pós-Romantismo Finissecular”, in Intercâmbio, publicação anual do Instituto de Estudos Franceses da Universidade do Porto, 1992
Álvaro Manuel Machado – Poesia Romântica Portuguesa, Lisboa, ICALP, 1982
Eugénio Lisboa (Coord.) – Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Mem Martins, Publicações Europa-América / IPLL, [1990]. Vol. II, pp.311-313
Francisco da Cunha Leão e Alexandre O’Neill – Gomes Leal, Antologia Poética, Lisboa, Guimarães editores, 1959
Gomes Monteiro – O Drama de Gomes Leal. Com inéditos do poeta, Lisboa, editora Minerva, s/d
José Carlos Seabra Pereira – Decadentismo e Simbolismo na Poesia Portuguesa, Coimbra, Centro de Estudos Românticos, 1975
Ladislau Batalha – Gomes Leal na Intimidade, Lisboa, Lisboa Peninsular editora, 1933
Vitorino Nemésio – Destino de Gomes Leal, Lisboa, Bertrand, s/d


(1) Viria a ser criado por Antero de Quental, Eça de Queirós e Jaime Batalha Reis, a partir de 1869, na «Revolução de Setembro»

(2) acesso ao eBook do «Projecto Gutenberg»

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

«Livraria Castro e Silva» – Catálogo n.º 118




Como vem sendo hábito, a Livraria Castro e Silva editou mais um Catálogo. Trata-se do «Catalogo n.º 118 – Novembro 2009».

Como já vem sendo usual, depois de uma lista de vários raros e curiosos, apresenta o seu sempre excelente «Suplemento», onde nos podemos deliciar com obras manifestamente raras e com encadernações artísticas armoriadas (as mais apetecíveis de todas para a maioria dos bibliófilos).




Catalogo n.º 118
http://www.castroesilva.com/Catalogos/Cat118.pdf


Aqui ficam alguns exemplos que certamente despertarão a vossa curiosidade. E creio poder demonstrar, uma afirmação minha anterior, de que temos livros capazes de ombrear com o que de melhor se encontra nas bibliofilias doutros países.



158. HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASIL. Edição monumental comemorativa do primeiro centenário da independência do Brasil. Direcção e coordenação literária de Carlos Malheiro Dias. Direcção cartográfica do Conselheiro Ernesto de Vasconcelos. Direcção artística de Roque Gameiro. Litografia Nacional: Porto. MCMXXIV (1924). Em 3 volumes. De 39x28 cm. Com 275, 458 e 395 pags. Encadernação do editor. Profusamente ilustrado com gravuras extra texto reproduzindom obras de pintor Roque Gameiro.



379. ENCADERNAÇÃO ARTISTICA ARMORIADA. MAÇÓNICA. SEC. XVIII. IL PIMANDRO DI MERCVRIO TRIME- gisto, tradotto da Tommaso Benci in linga Fio - rentina. IN FIRENZE 1549. Con priuilegio di Papa Paolo III. & Carlo V. Imp. & del Duca di Fiorenza. De 17x10 cm. Com (xvi)-119-(vii) pags. Encadernação do século XVIII inteira de chagrin vermelho finamente dourada com cercaduras e entrelaçados nos cantos e no super libris armoriado em ambas as pastas. O super libris armoriado apresenta a cartela do maior grau de dignidade religiosa (cardinalícia) contendo simbologia maçónica: o leão e a estrela de seis pontas. A página de rosto com identicos ex libris oleográficos maçónicos. Exemplar com miolo afectado por manchas de humidade e com restauro marginal das primeiras folhas. Encadernação limpa e bela excepto pequeno dano na capa posterior. Obra hermética traduzida do grego em italiano.




383. FERREIRA. (Manuel) NOTICIAS SUMMARIAS DAS PERSEGUIC,ÕES DA MISSAM DE COCHINCHINA, principiada, & continuada pelos Padres da Companhia de JESV OFFERECIDAS PELOS MESMOS MISsionários. A ELREY NOSSO SENHOR D. PEDRO II. EM LISBOA. Na Officina de MIGUEL MANESCAL, Impressor do Santo Officio, da Serenissima Casa de Bragança, & de Sua Eminencia. Anno 1700. De 30x21 cm. Com (x)-458-(ii) pags. Encadernação da época inteira de pele com ferros a ouro por nervos e no rótulo vermelho. Carimbo oleografico da casa de Cadaval no ante rosto e ex libris armoriado. Inocêncio V, 423 “P. MANUEL FERREIRA (3.º), Jesuita, cuja roupeta vestiu a 7 de Junho de 1647. Foi por duas vezes missionario na India, onde dizem baptisára mais de vinte mil gentios. - N. em Lisboa, no anno de 1630; e nada consta quanto á epocha da sua morte. Parece que ainda vivia ao tempo da publicação da obra Sem o nome do auctor. - Na Bibliogr. Universal de Roret, tomo I, pag. 147, equivocadamente se inculca este livro como impresso em 1690, quando tal edição não ha, sendo primeira e ultima a que deixo descripta. Vem esta obra qualificada de rara no Catalogo da livraria de Lord Stuart, n.º 1125”



386. GESSNER. (M.) LA MORT D' ABEL; Poeme, en cinq chants, traduit de l' Allemand de... par M.Huber. Nouvelle Édition, revue & corrigée. A Amsterdam, 1760. In -8º peq. de XXVIII - 344 págs. Encadernação da época, inteira de chagrin vermelho com elaborado trabalho a ouro nas pastas e lombada. Guardas em papel marmoreado de origem. Corte das folhas dourado e cinzelado. Bom exemplar. Ex -libris de António Augusto Pereira da Silva, professor em Lamego.



389. MANUSCRITO - ANTIFONÁRIO CORAL DO SÉCULO XVIII, em pergaminho, iluminado. In-fólio monumental (64 x 45 cm.) de 220 fls. nums. Sólida encadernação inteira de carneira setecentista, sobre tábua, com profusas ferragens em metal dourado nas pastas, de estilização concheada e floral formando cantoneiras e motivos centrais, repetindo- se toda esta composição metálica na pasta posterior. Dois fechos de metal mas já sem os atilhos de coiro, em ambas as pastas. As folhas em pergaminho encorpado, em muito bom estado de conservação. Pautas de cinco linhas de cantochão a vermelho, as notas e letras a negro, cada página contendo cinco pautas. Várias capitulares, com dimensões diversas, a vermelho, negro, azul, violeta, laranja e amarelo, algumas iluminadas e decoradas com motivos florais e um mascarão. Destaque para as desenhos iluminados de razoáveis dimensões, (entre 19 x 18 cm e 26 x 22 cm), que marcam o início de algumas orações ou salmos, representando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém ( fl.8), a acção de graças na última ceia, ( fl.61), um anjo ajudando Jesus em Getsamani, (fl.104), apresentação de Jesus a Pilatos ( fl.114), e Jesus no sepulcro, ( fl.171). Com a invulgar e valiosa indicação final de ter sido executado entre 5 de Dezembro de 1755 e 11 de Abril de 1756. Peça muito bela, bem conservada, certamente de um mosteiro português.


Saudações bibliófilas e votos de boa leitura.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Questão Coimbrã



Nos primeiros anos do terceiro quartel do séc. XIX, após a longa crise da implantação do liberalismo em Portugal e sua adaptação à estrutura histórica do país, o Romantismo português propriamente dito já tinha dado quanto dele se podia esperar.



Almeida Garrett


Depois da morte de Almeida Garrett – vulto impar deste período com intensa actividade política e literária, renovador do teatro em Portugal – , a insurgência inerente ao movimento romântico personificara-se em Alexandre Herculano, cuja obra foi, fundamentalmente, «a primeira tentativa de uma história crítica de Portugal». Mas a rebeldia por ele representada desapareceu com a sua retirada para Vale de Lobos. Restava António Feliciano de Castilho, em redor do qual se agruparam em Lisboa as hostes ultra-românticas. Castilho, porém, era exactamente o contrário dum rebelde. Grande purista, mestre do idioma, dotado de escassa imaginação criadora, nunca fora realmente romântico, embora seja em regra mencionado como terceiro mentor do movimento. Formado na dissolução do neoclassicismo arcádico, que nunca abandonou, encarnava uma peculiar adaptação das formas externas do Romantismo a um espírito pseudo-clássico. Fórmula esta que chegara nessa altura a entronizar-se como gosto oficial do constitucionalismo. Era ele, pois, o obstáculo com que havia de tropeçar a nova rebeldia da geração intelectual que por volta de 1865 se organizava em Coimbra. Esta geração já desde 1861 dava provas do seu pendor para a rebeldia à disciplina universitária com ruídos, tumultos, irreverências e revoltas – que indicavam claramente a inconformidade da juventude académica com os valores oficiais da sociedade em que vivia.



Alexandre Herculano


A chamada «Questão de Coimbra» ou do «Bom senso e Bom gosto» foi a primeira manifestação importante dessa mocidade, conhecida hoje nos manuais pelos nomes de «Geração», «Escola» ou «Dissidência de Coimbra» e também «Geração de 70», e que, com a adição de novos elementos afins, havia de realizar novas demonstrações dos seus intuitos reformistas da vida pública nacional, reagindo contra a degenerescência romântica e o atraso cultural do país.

Com esta polémica famosa, que foi uma das mais importantes polémicas literárias portuguesas e a maior em todo o século XIX, como explica Margarida Vieira Mendes, "alastrou de forma explosiva, de Novembro de 1865 a Julho do ano seguinte, em cartas, crónicas e artigos de imprensa, opúsculos, folhetins, poesias e textos satíricos, alusões em conferências (...) ou mesmo discursos parlamentares" (in Dicionário do Romantismo Literário Português, Editorial Caminho, 1997) podemos dizer que se inicia o espírito contemporâneo nas letras portuguesas.



António Feliciano de Castilho


Castilho tornara-se um padrinho oficial dos escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro ou Manuel Joaquim Pinheiro Chagas. Dispunha de influência e relações que lhe permitiam facilitar a vida literária a muitos estreantes, serviço que estes lhe pagavam em elogios.

Em redor de Castilho formara-se assim um grupo em que o academismo e o formalismo vazio das produções literárias correspondia à hipocrisia das relações humanas, e em que todo o realismo desaparecia, grupo que Antero de Quental chamaria de «escola de elogio mútuo».



Manuel Joaquim Pinheiro Chagas


O motivo da «Questão» foi aparentemente trivial. Nesse ano de 1865, Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, um dos jovens corifeus da roda lisboeta do cego patriarca literário, publicara o «Poema da Mocidade», ingénua biografia lírica em quatro cantos, típica do saudosismo ultra-romântico.
Solicitado a apadrinhar com um posfácio esta obra, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao Editor António Maria Pereira, censurar um grupo de jovens de Coimbra.
Na Carta, entre grandes elogios, indigitava o jovem poeta para uma cadeira de Literatura no Curso Superior de Letras, introduziu incidentalmente referências ironicamente adversas a Antero e a Teófilo, aludindo aos «altos» rumos metafísicos da poesia dos dois «mancebos».
Atacava a moderna escola de Coimbra e a sua poesia ininteligível, ridicularizando o aparato filosófico e os novos modelos literários de que ela se nutria ("temporal desfeito de obras, de encómios, de sátiras, de plásticas, de estéticas, de filosofias e de transcendências"), numa referência às teorias filosóficas e poéticas expostas nos prefácios a «Visão dos Tempos» e «Tempestades Sonoras» (ambas de 1864), de Teófilo Braga, e na nota posfacial das «Odes Modernas», de Antero de Quental (de Julho de 1865)



Antero de Quental
Fotografia, A. desconhecido, ca. 1864


Sentindo-se visado, Antero de Quental respondeu com o panfleto «Bom-senso e bom-gosto carta ao excelentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho » (1), em que definiu "a bela, a imensa missão do escritor" como "um sacerdócio, um ofício público e religioso de guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras", que exige, por um lado, uma alta posição ética, por outro lado, uma total independência de pensamento e de carácter. Como consequência, e numa clara alusão a Castilho, Antero repudiava a poesia que cultiva a "palavra" em vez da "ideia"; a poesia decorativa dos "enfeitadores das ninharias luzidias"; a poesia conservadora dos que "preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir"; em suma, a poesia que "soa bem, mas não ensina nem eleva". Estavam marcadas as posições: de um lado os intelectuais conservadores; do outro a nova geração, aberta às recentes correntes europeias.

Seguiu-se “Bom-senso e bom-gosto Folhetim a proposito da carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor Antonio Feliciano de Castilho “ de Pinheiro Chagas, que acorreu em defesa de Castilho.



Teófilo Braga


Ao mesmo tempo, Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto “As theocracias litterarias Relance sobre o estado actual da litteratura portugueza”, no qual afirmava que Castilho devia a celebridade à circunstância de ser cego. Neste folheto, Teófilo Braga escreve: “Sobre tudo uma das primeiras condições da arte é a verdade; e a verdade nunca se encontra aonde não ha caracter. A arte sem a verdade dá as ampliações rhetoricas, insuffladas de synongmos, a que entre nós se chama estylo classico, á Frei Luiz de Sousa, em que se relê depois de lêr, e se torna a lêr, em que se voltam de mil maneiras as formas arredondadas, em que não ha um pensamento, e em que prima o sr. Castilho. E esta sua prosa é muito portugueza na dicção; portugueza de dois séculos atraz, quinhentista pela fórma intertelada e urbana, seiscentista pelo requinte, e sobre tudo dissonante para quem conhece a verdadeira eurythmia da lingua, pela mistura insólita e desnatural da gravidade academica com as locuções desenfadadas e legitimas do nosso povo.”



Teófilo Braga
Caricatura (2)


Pouco depois Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho no folheto «A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais». Neste texto, Antero repudiava uma vez mais "as literaturas oficiais, governamentais, subsidiadas, pensionadas, rendosas, para quem o pensamento é um ínfimo meio e não um fim grande e exclusivo" e preconizava uma literatura que "se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço onde se há-de receber esse misterioso filho do tempo - o futuro".

Seguiram-se intervenções de uma parte e de outra, em que o problema levantado por Antero ficou esquecido. Provocou grande celeuma o tom irreverente com que Antero se dirigiu aos cabelos brancos do velho escritor, e a referência de Teófilo à cegueira dele



Ramalho Ortigão


Foi isto o que mais impressionou Ramalho Ortigão, que num opúsculo intitulado «A Literatura de Hoje» (1866) censurava aos rapazes as suas inconveniências, ao mesmo tempo que afirmava não saber o que realmente estava em discussão.
Este opúsculo deu lugar a um duelo de espadas do autor com Antero de Quental, a quem apodou de cobarde por ter insultado o velho António Feliciano de Castilho. Ramalho ficou fisicamente ferido no duelo travado, em 6 de Fevereiro de 1866, no Jardim de Arca d'Água.
Note-se, porém, que neste folheto Ramalho marcou uma atitude de independência, criticando também a fuga de Castilho à luta das ideias.



Camilo Castelo Branco


Outro combatente das hostes de Castilho foi Camilo Castelo Branco, que, em «Vaidades irritadas e irritantes» (1866 ), com o seu temível sarcasmo polémico, veio atacar a nova geração, – que lhe haveria de dar motivo para ulteriores refregas — não suscitou reacções.

Na realidade nada foi acrescentado aos dois folhetos de Antero durante os longos meses que a polémica durou ainda. Eça de Queiroz, em «O crime do padre Amaro», de forma implícita, toma parte pelos jovens literários.



Eça de Queirós


Os artigos, folhetins e opúsculos em apoio de uma e de outra parte multiplicaram-se, até que, a partir de Março de 1866, a polémica começou a declinar em quantidade e qualidade.

No entanto, a rotura provocada pela Questão Coimbrã iria abalar irreversivelmente as estruturas socioculturais do país, ao lançar as sementes para um debate de ideias e um projecto de reforma das mentalidades que norteariam a intervenção da que viria a ser a “Geração de 70”. Este grupo que se sublevou contra Castilho era o mesmo que, acrescido de personalidades com tendências paralelas, havia de tratar, em 1871, nas «Conferências Democráticas do Casino», de colocar Portugal a par da actualidade europeia, ligando-o «com o movimento moderno», estudando «as condições de transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa».

Esta polémica foi a mais importante da nossa história literária, pois nela participaram, numa ou noutra das frentes, praticamente toda a intelectualidade da época e fez emergir uma geração nova, protagonista de uma revolução cultural e literária cuja amplitude ultrapassaria até a do próprio Romantismo. Hoje, já com a perspectiva que dada pela distância histórica, essa geração surgida à vida pública na famosa «Questão» avulta como uma das mais brilhantes constelações que a cultura portuguesa produziu em qualquer época. O carácter regenerador e de revisão de valores, o entusiasmo colocado na reforma do estilo da vida e da literatura do país, o europeísmo cultural, a preocupação com as raízes históricas da decadência, fazem dela um antecedente da grande geração espanhola «de 98», que lhe é devedora em muitos aspectos fundamentais – influência esta que justificaria um estudo.



Antero de Quental


Em jeito de conclusão, leia-se o que Antero de Quental escreveu na sua «Carta a W Storck»: «Quando o fumo [da Questão] se dissipou, o que se viu mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 ou 20 rapazes, que não queriam saber nem da Academia nem dos Académicos, que já não eram católicos nem monárquicos, que falavam de Goethe e Hegel como os velhos tinham falado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e Proudhon como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes bárbaros e ciências desconhecidas, como glótica, filologia, etc.; que inspiravam talvez pouca confiança pela petulância e pela irreverência, mas que, inquestionavelmente, tinham talento e estavam de boa fé, e que, em suma, havia a esperar deles alguma coisa, quando assentassem. Os factos confirmaram esta impressão; os dez ou doze primeiros nomes da literatura de hoje saíram (salvo dois ou três) da Escola Coimbrã, ou da influência dela»


Saudações bibliófilas.


Bibliografia:

A bibliografia desta «batalha» literária, em que intervieram as figuras mais destacadas das letras nacionais, está recolhida, veja-se: Inocêncio – «Dicionário Bibliográfico Português», VIII, 404-408; Teófilo Braga – «Modernas Ideias na Literatura Portuguesa», II, pp. 179-184; «Catálogo da Biblioteca de F. Palha», pp. 166-171; J. de Araújo – «Antero de Quental - In Memoriam», Apêndice, pp. X-XV).


(1) Ficam aqui algumas versões em eBook do «Project Gutenberg – Online Book Catalog» para uma melhor compreensão dos factos.
Quero enaltecer o esforço e a grandiosidade deste projecto e apelar ao contributo de todos para o seu êxito.

(2) Teófilo Braga é activo na política portuguesa desde 1878, ano em que concorre a deputado pelos republicanos federalistas. Exerce vários cargos de destaque nas estruturas do Partido Republicano Português. Em 1 de Janeiro de 1910 torna-se membro efectivo do directório político, conjuntamente com Basílio Teles, Eusébio Leão, José Cupertino Ribeiro e José Relvas. A 28 de Agosto de 1910 é eleito deputado por Lisboa, e em Outubro do mesmo ano torna-se presidente do Governo Provisório. A 29 de Maio de 1915, foi eleito pelo Congresso, com 98 votos a favor, contra um voto de Duarte Leite Pereira da Silva e três votos em branco. Presidente de transição, face à demissão de Manuel de Arriaga, cumprirá o mandato até ao dia 5 de Outubro do mesmo ano, sendo substituído por Bernardino Machado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

«Bauman Rare Books» - Catalogue November Holiday 2009





Acabou de sair mais um Catálogo desta prestigiada Livraria americana. Como sempre com bons livros, ainda que este me pareça estar mais vocacionado para aquisição de prendas para oferecer pela quadro natalícia que se avizinha – “será que as bolsas estão mais cheias do que penso?” – do que reuna um lote excelente de livros de alta bibliofilia.

No entanto, só o seu "folhear" é um prazer para a visão. Sempre se encontram livros, ou encadenações, que não sendo das nossas temáticas preferidas não desdenharíamos de possuir nas nossas bibliotecas.


Página do Catálogo

Claro que se nos deparam alguns exemplares bastante interessantes, sobretudo na literatura ilustrada do século XIX, mas em relação ao anterior este perde um pouco, pelo menos é essa a minha opinião.


Página do Catálogo

Deixo algumas páginas como exemplificativo. Chamo no entanto a atenção para estas três obras.
A de Charles Darwin por se comemorar este ano o Bicentenário do seu nascimento:
150. DARWIN, Charles. The Descent of Man. London, 1871. Two volumes. Octavo, contemporary full brown calf. $6500.
A de Charles Dickens por ser um dos seus títulos mais raros e procurados.
154. DICKENS, Charles. A Tale of Two Cities. London, 1859. Octavo, early 20th-century full tan polished calf gilt, custom slipcase, $7500.
E, já agora, como homenagem simbólica à literatura Americana, este livro de John Steinbeck, que é sem sombra de dúvidas o seu título mais apetecível para qualquer coleccionador.
196. STEINBECK, John. The Grapes of Wrath. New York, 1939. Octavo, original pictorial cloth, dust jacket; custom chemise and case. $12,500.


Página do Catálogo

Como nota final, e não vamos atentar tanto no valor absoluto, mas sim no seu valor bibliófilo, podem-se aceitar estes preços. Claro que para quem conheça o tema e os colecciona.
Eu procuraria livros portugueses ...

Saudações bibliófilas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Uma explicação bibliófila, ou umas (quase) memórias ...


Para um amigo
de Beja



Sala de Entrada da
Livraria Nova-Ecléctica - Lisboa

Depois de alguns artigos e divulgação sobre Livreiros- Antiquários e suas actividades, e, com efeito, Novembro promete ser um mês que “vai mexer” muito com a bibliofilia e mesmo com a actividade editorial em geral.

No campo editorial, perspectivam-se alguns lançamentos interessantes de que destaco: «Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao XXI» (Porto Editora), sob coordenação c de Jorge Reis-Sá e Rui Lage (por se tratar de um título português, mas estão na forja, várias traduções para serem lançadas neste mês). (1)

No campo bibliófilo ultimam-se alguns leilões e, a maioria das Livrarias, tenta dar um novo visual as suas páginas na Internet com apresentação das suas ultimas aquisições.

Outras ainda, como o caso da «Livraria Nova-Ecléctica» em Lisboa, enriqueceram recentemente o seu já precioso acervo. a merecer uma visita atenta e demorada. Será certamente um prazer uma conversa, sempre bastante proveitosa, com o seu proprietário Alfredo Gonçalves. (2)

Aproveito, enquanto todos nós fazemos as nossas contas e elaboramos as nossas estratégias coleccionísticas, para reflectir um pouco sobre a estrutura e objectivos deste Blog, passados que são seis meses sobre o seu nascimento.

Esta reflexão é fruto duma crítica que me foi feita sobre a apresentação visual do mesmo, e tenho pena que mais não surjam.

Passo a explicitar o porquê daquilo que aqui se encontra, não porque isto seja importante para meu “ego”, que é bem pequeno, mas por facilitar a sua compreensão e, deste modo, a própria evolução do mesmo.


Camilo Castelo Branco

1) O retrato de Camilo está lá pela simples razão de ser um autor de que gosto, mas sobretudo, por este se prestar a variadíssimos estudos e reflexões bio-bibliográficas e bibliófilas, como já escrevi e tenho mais para escrever.
Assumo ser uma atitude de risco, pois outros com maior capacidade e formação do que eu próprio, já disseram quase tudo ... mas eu gosto de correr riscos!

No século XIX, pelo qual tenho uma paixão muito especial, há alguns escritores que me fascinaram sempre: Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Almeida Garrett (os mais conhecidos), mas também o Luz Soriano e o Joaquim Martins de Carvalho (estes pelos seus escritos históricos).

Todos se prestam a reflexões bibliófilas e a pequenas anotações históricas (para mim claro!) que os insiram nos eventos seus contemporâneos da nossa História, como eu gosto de fazer, e como já se aperceberam certamente, quer pelos artigos quer pelos comentários.
Escolhi o Camilo por questões sentimentais.


António Gedeão


«Pedra Filosofal»

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarela voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In «Movimento Perpétuo», 1956 (3)


2) Quer o excerto do poema de António Gedeão quer o frase de Miguel de Sousa Tavares, resumem o substracto ideológico do Blog.
“A Pedra Filosofal” é um poema que me fascinou desde que o li pela primeira vez.
Resume em minha opinião toda a nossa história duma maneira notável!
E, para mais, tem outro aspecto curioso para mim : “Como é que um “sujeito” – Rómulo de Carvalho – que me “moeu o juízo” com os seus tratados de Físico-Químicas durante os meus estudos liceais, consegue escrever poemas tão belos e sentidos?”
(Opinião suspeita visto gostar muito de poesia!)


«Poemas Escolhidos»

O Blog para mim foi, e é, um “sonho” que realizei e que pretendo com ele mexer um pouco com as pessoas e conseguir fazer que algo “pule e avance” – a divulgação da nossa bibliofilia.

3) Quando citei a frase do Miguel de Sousa Tavares, que encontrei ao ler “Rio das Flores” (4), não é tanto pela admiração pelo Homem (ainda que goste bastante de algumas coisas que escreveu como “Equador”, “Rio das Flores” e “No teu deserto – Quase Romance») mas pelo significado da frase que sinto-a como algo inquestionável nas minhas entranhas enquanto cidadão do Mundo. Com efeito a liberdade só se deve temer por ela se poder tornar um vício!


«Rio das Flores»

Sinto-me livre naquilo que escrevo e realizo-me transmitindo aos outros os meus parcos conhecimentos. Isto, para mim tem um “sabor muito especial”, pois não podem saber, mas um dos primeiros “trabalhos bibliófilos” que escrevi, perto dos meus quinze anos, foi um estudo sobre as obras de José Gomes Ferreira que publiquei numa Revista do meu liceu – o “Liceu Camões” (5), mas foi primeiro censurado antes de publicado! (Nenhum era político, éramos apenas jovens com espírito livre!)


José Gomes Ferreira

Como ilustração do “meu primeiro trabalho”, deixo aqui um pequeno poema deste autor:


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


(Era uma revistazinha escrita e policopiada por nós: eu, o Fernando Baptista e o Costa Martins – o “núcleo duro” – no âmbito das chamadas “Actividades Circum-Escolares!”)


«Liceu Camões»
actual «Escola Secundária de Camões»

É evidente que liberdade em absoluto é algo que não existe, nem vale a pena enveredarmos por caminhos filosóficos existencialistas, tão em voga na minha juventude, com Jean-Paul Sartre – “L’Étre et le Néant”, Albert Camus – “O Mito de Sísifo” (com o seu estudo do Absurdo e do Suicídio) e mesmo o nosso Vergílio Ferreira, sobretudo, em “O Existencialismo é um Humanismo”.
Talvez a opção pela frase de Miguel de Sousa Tavares não seja a mais feliz, mas na altura em que elaborei o visual inicial do Blog foi o que tinha mais á mão (“preguicite” intelectual!).


Albert Camus

Quando subscrevo “Tenho medo que a liberdade se torne um vício” refiro-me ao facto de ter sentido na pele o que é a falta “das liberdades essenciais ao pensamento e à vida”, mas também, pela minha actividade profissional, que me obriga a cumprir um horário rígido e cheio de actividades, mas quando “saio para espairecer”, e a bibliofilia, a leitura, a escrita ou a música são excelentes para isso, por uma certa formação e visão humanística que sempre tive, gosto de me sentir o mais livre possível e, como o consigo, tenho medo de não querer voltar às minhas velhas rotinas, daí a expressão de “se tornar um vício”.

Nunca pretendi, ou gostei, de “atropelar alguém”, nem mesmo intelectualmente! Gosto sempre de escutar antes de me pronunciar, aceitar as críticas ... mas gosto, e julgo saber fazê-lo, de lutar por aquilo em que acredito!
Pois, e passe o chavão da frase, “a minha liberdade termina, quando começa a liberdade da outra pessoa!”


«Peregrinaçam de Fernando Mendez Pinto,...»
Lisboa, Por Pedro Crasbeeck, 1614

4) Por último, creio que todos sentem uma certa “ausência de mecânica” na elaboração das mensagens. Estas surgem como que um pouco desconexas e sob temas aparentemente desligados.
É esta a principal razão do atraso dum artigo sobre Pedro Craesbeeck, prometido há algum tempo, e ainda não publicado.
De facto, este está delineado há cerca de dois meses, mas pesquisas posteriores fizeram-me repensá-lo, a aquisição de um livro impresso por ele, assim como outros que consultei, trouxeram novos elementos.
E, para complicar a situação, comprei recentemente um folio com duas leis impressas por António Craesbeeck de Mello em 1668 que me fez reavaliar a sua sequência posterior (existe, apesar de tudo, alguma sequência depois de encetado um assunto).

Entretanto vou escrevendo “livremente” o que me dita a minha inspiração de momento, o olhar mais atento sobre algum dos meus exemplares e. porque não, a recordação duma conversa com alguém que me trouxe reminiscências de tudo aquilo que aqui se faz.

Saudações bibliófilas

(1) «Os Meus Livros» n.º 81 – Ano 7 – Novembro 2009. pp. 71

(2) Fica aqui a promessa para uma minha "visita" mais demorada.

(3) Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente. Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).
Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção.
Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada.

(4) «Rio das Flores» - Miguel Sousa Tavares: Sevilha, 1915 – Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história do século XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário no Alentejo, Espanha e Brasil. Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos, somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade de um século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde o caminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço a pagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e o apelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de uma vida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguem percursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar da coerência e da felicidade.
Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho de pesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores, paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontade de mudar a ordem estabelecida das coisas. Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentando manter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada por décadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.

(5) Deixo aqui, por curiosidade, a lista de alguns dos alunos famosos ligados às Letras deste Liceu: Mário de Sá-Carneiro, Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão), Mário Dionísio (no qual também foi professor), Jorge de Sena, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira (no qual também foi professor), Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, Almeida Faria, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Manuel Lopes Fonseca (mais conhecido por Manuel da Fonseca), Manuel dos Santos Lima, João Aguiar, Baltazar Lopes da Silva, José Gomes Ferreira e Eduardo Prado Coelho.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

«La Librairie L'intersigne» e Alain Marchiset




Alain Marchiset na sua Livraria

Quero partilhar convosco o conhecimento que tenho deste eminente e conceituado livreiro-antiquário francês.
Este artigo, visa como outros já publicados, fazer a divulgação de livreiros-antiquários, onde se podem adquirir livros que irão seguramente enriquecer as nossas bibliotecas.

Quando falo em “enriquecer”, falo mais no significado que este termo tem para o bibliófilo e não para o “investidor”, pois é sempre com alegria que acolhemos nas prateleiras das nossas estantes um modesto exemplar, o qual nos interessou por algum aspecto em particular.
A inserção desta Livraria mantém o espírito que transmiti recentemente a um amigo: “[No Blog] tenho como propósito a divulgação de livros e autores, mas também de estimular o seu coleccionismo em 1.ª edições, parece-me pouco correcto falar apenas de raridades, só para os ricos ou grandes bibliófilos, como alguns fazem.”

«La Librairie L'intersigne» foi fundada em 1985 por Alain Marchiset, que tinha já uma sólida experiência profissional, tornou-se membro da “Compagnie Nationale des Experts” em 1992. Esta é especializada em livros curiosos e raros sobre Ciências Ocultas e Ciências Humanas, mas, em especial, Alquimia, Astrologia, Filosofia, Psiquiatria, Medicina, Criminologia, Utopias, Franco-Maçonaria, Prestidigitação, Jogos e Curiosidades. Nestas áreas é uma Livraria reconhecida internacionalmente,

Começo por lhe dar a palavra, num discurso Quel avenir pour le livre ancien?, que fez na sede do SLAM (1), para onde fora convocada uma conferência de imprensa em fins de Novembro de 2002, e que contou com a presença de jornalistas especializados no mundo da arte, bem como funcionários públicos franceses do Ministério da Cultura, a "Direction du Livre", Arquivos e Bibliotecas Públicas.

Embora com alguns anos, mantém alguma actualidade e revela, sobretudo, uma visão alargada, senão mesmo visionária do futuro, sobre este tema.
Ficam aqui dois excertos, convidando-vos à sua leitura na íntegra, pois vale a pena.

« Bien entendu le livre en tant que support de l’écrit a déjà subi de notables mutations, citons par exemple:
- le passage du volumen au codex
- du manuscrit à l’imprimé
- de la xylographie au caractère mobile
- de la fabrication artisanale à la production industrielle
Mais, aujourd'hui la révolution annoncée semble plus radicale.
L’interrogation n’est pas aussi anecdotique qu’on pourrait le penser, car comme l’on sait, le livre a joué un rôle majeur dans la diffusion de la pensée, surtout en Occident. On ne développera pas ici l’exposé des rapports étroits qui unissent Humanisme, Réforme, et diffusion de l’imprimé; cela nous mènerait trop loin. »

« En ce qui concerne les libraires, j’ai tendance à penser que plus le décalage entre le livre de consommation courante et le livre ancien sera grand, plus ce dernier sera valorisé en tant qu’objet de convoitise et donc de collection. Dans cette perspective il restera toujours un champs marginal pour l’activité bibliophilique artisanale, et sa diffusion dans des cercles restreints d’amateurs plus ou moins éclairés. On l’a déjà constaté, le libraire de livres anciens a joué et continuera de jouer dans ce domaine un rôle majeur pour le maintien d’une production marginale de qualité. Grâce à la culture qu'il a de l'histoire du livre, le libraire de livres anciens a souvent une approche plus fine par rapport au livre contemporain, et s'intéresse souvent à des formes originales ou raffinées de publication.
La difficulté est de maintenir cette profession marginale, de continuer à transmettre cette qualité de savoir professionnel aux générations futures, et surtout d’assurer la survie financière de ce type d’activité. Heureusement le livre ancien n’intéresse pas les grands groupes financiers, encore que depuis quelques temps certains discours douteux sur le livre comme valeur de placement aient pu intéresser quelques spéculateurs plus ou moins avisés. »

Do acervo da sua Livraria deixo aqui três exemplos, como sempre um pouco ao acaso, mas de obras que me chamaram a atenção por alguma razão especial (autor, gravuras, encadernação,...) como exemplificativos do que se pode lá encontrar.
Aqui contradigo-me um pouco, pois os livros escolhidos não são dos mais baratos, mas a "beleza tem sempre o seu preço"!

Para mim, lamento apenas a distância, que me impede uma visita regular para uma conversa com um Livreiro de contacto fácil, profundamente conhecedor do seu ramo e, por incrível que possa parecer, sempre pronto a dar uma ajuda e um bom conselho.


Baltasar Bekker
Retrato no ante-rosto

BEKKER, Balthasar – Le Monde enchanté ou examen des communs sentimens touchant les Esprits, leur nature, leur pouvoir, leur administration et leurs opérations; et touchant les éfets (sic) que les hommes sont capables de produire par leur communication et leur vertu. Amsterdam, Pierre Rotterdam, 1694, 4 parties pet. in 12, ill. d'un portrait de l'auteur et de 6 gravures h. t., relié en 4 vol. demi-chagrin bleu XIXe, dos orné, deux coiffes sup. usées, tr. bleues. Edition originale très rare de cet ouvrage précieux pour l'étude de la sorcellerie à l'époque. C'est une des 2 éditions reconnues par l'auteur et portant sa signature. Bien complet du portrait de l'auteur, lequel était prodigieusement laid, ce qui le fit comparer souvent au héros de ses livres et dire à La Monnoye "Pour nous ôter du diable entièrement l'idée, Bekker supprime ton portrait". C'est sans doute pourquoi il manque souvent (dans l'exemplaire de Maurice Garçon entre autres, nº18). Les gravures représentent des personnages en costume d'époque se servant de la baguette divinatoire. Bekker entend démontrer que la sorcellerie, la magie, et les pouvoirs des esprits malins n'appartiennent qu'au domaine de la superstition. La Kabbale y est amplement démontrée et l'auteur donne l'invocation des intelligences qui président aux 4 parties du monde. L'ouvrage fut condamné par le Consistoire d'Amsterdam et valut à Bekker de nombreuses persécutions.
¶ Caillet nº915 - Dorbon nº268 - Bibl. Guaïta nº1147 - Cornell Univ. Witchcraft cat. p.54.


MIRABEAU, H. G. Riquetti, Conde de
«Observations d'un voyageur anglais
sur la Maison de la Force appelée Bicêtre»

MIRABEAU, H. G. Riquetti, Cte de – Observations d'un voyageur anglais sur la Maison de la Force appelée Bicêtre suivies de réflexions sur les effets de la sévérité des peines, et sur la législation criminelle de la Grande-Bretagne ... Avec une lettre de M. Benjamin Franklin. S.l., 1788, in 8º, de VII-1f. 128pp., cart. papier marbré moderne genre ancien, titre au 1er plat, légère mouillure en marge. Edition originale de ce très rare et violent pamphlet de Mirabeau. "Je savais, comme tout le monde, que Bicêtre était à la fois un hôpital et une prison; mais j'ignorais que l'hôpital eut été construit pour engendrer des maladies et la prison pour enfanter des crimes." Mirabeau dénonce de manière vive le système pénitentiaire français et conseille au corps judiciaire de se tourner vers l'Angleterre pour trouver des solutions : " en Angleterre, il n'y a qu'à corriger au lieu que chez nous tout est à refaire... Nous vivons au milieu d'une foule d'oppressions et de misères qui nous laissent à peu près indifférents..."
¶ Tourneux III/15251.


LA FOLIE, Louis Guillaume de
«Le philosophe sans prétention ou l'homme rare»
Frontispício

LA FOLIE, Louis Guillaume de – Le philosophe sans prétention ou l'homme rare. Ouvrage physique, chymique, politique et morale, dédié aux savants. Paris, Clousier, 1775, in 8º, de 350 pp., ill. d'un joli front. gravé représentant une machine volante et de 2 vignettes gravées par Boissel in t., pl. veau marbré époque, dos lisse orné, tr. rouges, qq. rares rousseurs sinon bel exemplaire. Edition originale de cette célèbre utopie scientifique, sorte de fiction astronautique originale qui décrit l'arrivée sur terre d'un habitant de Mercure dans une machine volante, dont la description est considérée comme la première anticipation de la dynamo (cf. Duhem Musée de l'aéronautique). Cet étonnant aérostat décrit et représenté en frontispice est aussi considéré comme la première machine volante "électrique" par Mohler et Nicolson ("The first Electrical Flying Machine", in Essays Contributes in Honor of W. A. Neilson, 1939 ). Rappelons que La Folie était chimiste et auteur de plusieurs innovations en matière de vernis et teintures. L'habitant de Mercure donne d'ailleurs ici de nombreuses explications concernant l'Alchimie, l'électricité, la gravitation, la géologie, etc... Rare et curieux ouvrage.
¶ Caillet nº5969 - Tissandier 8 - Duhem 128 - Cohen 546 - Versins utopie p.276 - Nicolson Voyage to the Moon p.195/200 - Wellcome III. 430.

Deixo o seu último Catálogo (já está em preparação um próximo). O «Catalogue n.º 115» , para formarem uma ideia do que se pode por lá encontrar.




Saudações bibliófilas ... e espero que gostem da visita.

(1) S.L.A.M. – Syndicat National de la Librairie Ancienne et Moderne, de que foi Presidente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Novidades do Mercado Bibliófilo para Novembro



Carta autografada de Emile Zola
Catologue 31 da «Librairie le Feu Follet»

O mês de Novembro começa com uma intensa actividade de oferta variada na área do livro antigo. Senão vejamos:


In-libris

in-libris propõe-nos mais um lote de livros usados e antigos de temática variada em:

A «Livraria Manuel Ferreira» colocou, na sua "Montra de Livros" , a obra: «História Literária do Porto através das suas publicações periódicas» de Alfredo Ribeiro dos Santos. Prefácio de Ferenando Guimarães. Edições Afrontamento. [2009]. In 4.º gr. de 520-IV pp. Encadernação editorial.
"Este livro é uma importante achega para, a partir de um dos lugares que é a cidade do Porto, se começar a ter uma visão bem fundamentada, minuciosa e abrangente do desenvolvimento dessa literatura tal como ocorreu nas páginas, tantas vezes esquecidas, das revistas ou outras publicações periódicas"


«História Literária do Porto
através das suas publicações periódicas»

A «Librairie le Feu Follet» apresentou o seu «Catalogue 31 – Novembre 2009», com um interessante conjunto de livros com dedicatórias dos seus autores, tipo de coleccionismo com os seus entusiastas.


Catalogue 31

Proponho, pelo menos, um relance breve pelos mesmos, pois a actividade promete ser intensa.

Entre nós, estão na forja mais alguns leilões. Tive ocasião de tomar conhecimento hoje de um, já em fase de preparação do respectivo Catálogo, em conversa com o proprietário duma Livraria que tem um acervo excelente "de fazer nascer água na boca"... fica apenas a notícia vaga para estimular a curiosidade.

Boa consulta com as minhas saudações bibliófilas.