"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O primeiro livro impresso em Portugal (2)


Portugal conhece a Imprensa em 1487.
Durante muito tempo foi considerado com o primeiro livro impresso em português a «Vita Christi», em 1495, até que V. Pina Martins, em 1965, dava a conhecer o «Tratado da Confissom», impresso em Chaves.
Rosemarie Erika Horch, do Brasil, tenta provar que afinal foi o «Sacramental» de Clemente Sanchez Vercial, uma vez que se poderia reconstituir o seu colófon, por informação bibliográfica posterior, e atribuindo-lhe a data de impressão em Chaves a 18 de Abril de 1488.
O «Sacramental», obra pastoral redigida entre 1421 e 1425 em língua castelhana, trata da forma como deve viver o homem medieval, abordando a alimentação, as relações familiares, as relações sociais, a relação com Deus, o trabalho, o descanso, a saúde, a doença e a sexualidade, faz dele um documento indispensável para o estudo da sociedade medieval portuguesa, foi um dos livros mais lidos durante o século XV.
Foi proibido pela Inquisição no século XVI e consequentemente queimado. Teve várias edições impressas em língua castelhana e portuguesa.
O «Sacramental» de Clemente Sánchez de Vercial, obra pastoral redigida entre 1421 e 1425 em língua castelhana, depois dos livros destinados ao ofício religioso, foi o livro mais impresso na Península Ibérica, desde a introdução da imprensa até meados do século XVI.

Das edições em português, duas foram impressas no século XV (Chaves, 1488 (?); e Braga (?), ca. 1494-1500 e duas no século XVI (Lisboa, 1502; e Braga, 1539).

Mas já antes se conhecia o «Pentateuco», de Faro, impresso por Samuel Porteira Gacon em 1487.


«Sacramental» de Clemente Sánchez de Vercial (edição de 1539)
Frontíspicio


«Sacramental» de Clemente Sánchez de Vercial (edição de 1539)
Página interior

Não existe qualquer dúvida de que os hebreus foram os primeiros impressores em Portugal.
Desde 1487, quando se imprimiu, em Faro, o «Pentateuco» hebraico, até à expulsão dos judeus por D. Manuel, I em Dezembro de 1496, imprimiram-se vários livros hebraicos.
O primeiro judeu a fugir de Espanha foi Samuel Gacon que se fixa em, Faro. E a razão é fácil de descobrir. Em Espanha, após a publicação do Manual inquisitorial de Torquemada (1484), advinhou-se a perseguição aos judeus.

Um judeu atento deveria pôr-se a caminho ... e foi o que Gacon fez!

De Sevilha, no sul de Espanha, romou a Faro, no sul de Portugal. Faro era então a primeira povoação portuguesa importante, quase na fronteira, e porto de mar movimentado quer para o comércio com Espanha e o Mediterrâneo quer para o norte de África. Foi por aqui que entraram os impressores judeus, os quais, depois avançaram para Lisboa e Leiria.
Eles procuraram, sobretudo, cimentar a sobrevivência da sua religião e da sua cultura ameaçadas. O tempo de perseguições, que se desenhava no horizonte, não lhes permitiu abrir-se com interesses económicos, facilmente previsíveis, à impressão de obras pragmático-funcionais em latim e em português. A tipografia aparecia como um instrumento de defesa na prática judaizante e de propaganda proselitista; ela funcionava como um talismã esotérico para consumo interno e fortalecimento dos judeus.

No que se refere a Chaves é difícil de se entender. Chaves era e é povoação fronteiriça, mas não foi sede primeira de imprensa em português por ser lugar de passagem e albergaria de peregrinos para Compostela. De facto, o arcebispo de Braga, D. João Peculiar (c.a de 1175) ali construíra uma albergaria para peregrinos de São Tiago. Ora se os livros se destinavam ao clero e não aos peregrinos, tal impressão só se entende pela acção dos arcebispos de Braga. A razão da sua impressão em Chaves dever-se-ia à facilidade de fazer vir ali, mesmo na fronteira, impressores itinerantes de Espanha. Portanto nada custa a aceitar que o arcebispo de Braga por meio dos clérigos da Colegiada de Chaves, criada em 1434 pelo arcebispo D. Fernando Guerra, se tenha servido de impressores de Oviedo (conforme opina o Prof. Dr. José Marques) fazendo-os vir à cidade fronteiriça de Chaves. Deste modo a maior e melhor diocese de Portugal fazia a descoberta da imprensa que, no ano anterior, chegara a Faro, e punha-a, desde logo, ao serviço da religião e da pastoral da fé.

Como já foi dito, os impressores judeus estavam distribuídos por três centros:

Faro(1487-1492):
Samuel Porteira Gacon
«Pentateuco» (1487) e «Talmud» (1492?)

Lisboa (1489-1492):
Elieser Toledano
(judeu vindo de Toledo) – «Comentário ao Pentateuco» (1489); «Comentário à Ordem das Orações» (1490?); «Caminhos do Mundo», «Livro do Temor», «Segredos da Penitência» (1490?): «Pentateuvco» (7 de Agosto de 1491); «Provérbios de Salomão» (1492?) «Isaías e Jeremias» (1492) «Leis da Matança» (1492?)

Leiria (1492-1496):
Samuel d’Ortas
(provavelmente oriundo de França) e seus filhos«Provérbios de Salomão» (25 de Julho de 1497), «Profetas Primeiros» (26 de Janeiro de 1497) e «Caminho da Vida» (12 de Junho de 1495)

Todos estes judeus vêm certamente de Espanha fugidos à Inquisição de Fr. Tomás de Torquemada.(1486) que já em 1484 publicara o 1º código inquisitorial de claro pendor anti-judeu. Aliás, o acontecimento decisivo para a sua vinda para Portugal deve ter sido a perseguição dos Reis Católicos (1487).
O rabi Elieser Toledano foi o tipografo que mais livros imprimiu em Portugal e trás no sobrenome a matriz da sua proveniência. Parece mesmo que estava, desde 1485, ligado aos impressores de Hijar (Aragão).
Todos imprimiram em hebraico e só Abraão d’Ortas imprimiu em latim o «Almanach perpetuum» (1496) do judeu Abraão Zacuto.
É evidente a temática religiosa dos livros impressos em hebraico.

Nos primórdios da imprensa predomina na Europa os incunábulos latinos. Este predomínio do latim explica-se facilmente pelo gosto clássico do Renascimento e pela influência da Igreja que fazia do latim a sua língua oficial. As línguas vernáculas europeias ainda estavam no período de formação e afirmação pelo que não se prestavam para divulgação das ciências do tempo.

Neste capítulo, destacam-se dois impressores alemães, que já imprimiam em latim, João Gherline era um tipografo itinerante que trabalhou em sucessivamente Barcelona 1496, Galiza, Braga, 1492-1494 e Salamanca.
Valentim Fernandes de Morávia, veio de Sevilha (1493) e demorou-se longamente em Portugal. Ao seu serviço terá ido a África e morreu em 1519. Foi o único alemão que adaptou o seu nome ao idioma português. A ele se deve «Vita Christi» de Ludolfo da Saxónia, impresso a expensas da rainha D.ª Leonor, viúva do rei D. João II. É considerado o mais belo incunábulo em língua portuguesa. Em 1512 imprimiu as «Ordenações» do rei D. Manuel I.

«Vita Christi» de Ludolfo da Saxónia

É aqui que nos aparece o primeiro impressor português, Rodrigo Alvares, natural de Vila Real, mas a exercer na cidade do Porto.
A 4 de Janeiro é publicado, no Porto, o primeiro livro totalmente português. Trata-se das «Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto» livro produzido pelo primeiro impressor português: Rodrigo Álvares.
«As Constituições que fez ho Senhor dom Diogo de Sousa», acabadas pelo «mestre de emprentar livros» em 4 de Janeiro de 1497, são uma impressão com 32 fólios.

«Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto»

Os incunábulos portugueses e latinos têm, mais uma vez se deve realçar, um caracter religioso: devocional, litúrgico, moral e jurídico. Só o «Almanach perpetuum» de Abraão Zacuto podia apresentar algum interesse para o espírito geográfico-cientifico que então animava os portugueses.
Quanto aos patrocinadores das edições aparecem bispos diocesanos, os Estudos Gerais e particulares; o rei e a coroa mal aparecem.
A ideologia religiosa promoveu a Imprensa em Portugal, mas também a ideologia religiosa a limitou e cerceou.

No entanto, são deste período, alguns dos exemplares de melhor aspecto e qualidades gráficas que se produziram em Portugal.
Nos finais do século XVI e início do século XVII a Imprensa vai conhecer um período menos opulento.

Bibliografia:

BESSA, Paula Virgínia de Azevedo – «Pintura Mural na Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Meijin»

DIAS, Geraldo A. J. Coelho – «A Ideologia Religiosa e os Começos da Imprensa em Portugal»

Veja-se como complemento e documentação gráfica:
http://tipografos.net/historia/imprensa-em-portugal.html

Saudações bibliófilas.

4 comentários:

Galderich disse...

La historia incunable de los diferentes paises es siempre muy particular y llena de lagunas en función de los incunables que nos faltan.
Creo que has hecho un gran resumen de la incunablifilia portuguesa. Gracias por el esfuerzo.

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.
Gracias por compartir tan interesantes noticias, afortunadamente la denominación de primer libro no siempre es definitiva, como el caso que nos platicas. ¡Que experiencia más increíble debe de ser encontrar un impreso del que no se tiene noticia!
Muy bella tipografía la que nos muestras, el "Vita Christi"simplemente asombroso.
Saludos bibliófilos.

DIEGO MALLÉN disse...

¡Amigo Rui, qué despiste!

Al ver el mismo nombre del artículo no me había dado cuenta que era segunda parte.

¡Qué maravillas nos ofreces de la imprenta primitiva portugesa! Preciosa tipografía gótica, el juego de las tintas… los libros impresos en la península ibérica desde el nacimiento de la imprenta hasta mediados del XVI tienen un inmenso atractivo: por su contenido y por la belleza de su edición.

¡Preciosísimo y rarísimo Sacramental, Vita Christi!

Saludos bibliófilos.

rui disse...

Amigos
Es un placer compartir con vosotros los míos modestos libros y los míos escasos conocimientos de bibliofilia, pero es más importante, al menos en la mía opinión, divulgar lo que los portugueses hicieran en literatura desde el inicio de la imprenta…es esta la razón de los dos artículos que escribí.
Yo estoy seguro con errores y incompleto, pero hay sido lo que logré encontrar.
Creo que nuestra literatura y nuestros impresores son mal conocidos en lo extranjero (¡para no decir mismo en su propio país!)
¡Diego te agradezco el enlace para Sothebys, lo video es simplemente asombroso!
Hablando de nuevo de los judíos, en las mías modestas buscas, pudo constatar que los judíos fueran los impresores más activos en Portugal en los primordios de la imprenta, y se pensarnos que ellos producirán sus obras solamente entre 1487 y 1496 (su expulsión definitiva de Portugal) su significado es mayor.
Gracias por vuestro interés y ayuda
Saludos bibliófilos.