"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eliezer Toledano - Impressor em Lisboa


No decurso das minhas modestas pesquisas bibliográficos sobre os primeiros livros impressos em Portugal, não consegui deixar de ficar fascinado pelas edições judaicas.
Na verdade é de salientar, que apenas no curto espaço de nove anos, de 1487 a 1496, produziram várias obras, na sua grande maioria de caracter religioso, o que se compreende facilmente pelo espectro da expulsão que sobre eles pairava, e todas elas com grande qualidade tipográfica.
É este fascínio que quero compartilhar convosco...




Mas vejamos o que nos diz Maria Calado (Vice-presidente do CNC) no seu artigo «Rota dos Judeus 2 - Costa de Prata» publicado no «Diário de Notícias» em 1 de Agosto de 2006, sobre a importância cultural dos Judeus no nosso país:

“No séc. XV, Portugal tornou-se o mais importante centro da cultura sefardita. Acolheu, temporariamente, os grandes sábios judeus da época, entre os quais Isaac Aboab, o líder espiritual da comunidade judaica da Península Ibérica, Salomão Ibn Verga, autor de Schébet Yehudah (A Vara de Judá, crónica em que narra a vida dos judeus na península), e Abraão Saba, exegeta, pregador e cabalista. Guedelha Palaçano, que foi rabi-mor no tempo do rei D. Afonso V, ocupou uma posição privilegiada no panorama político e cultural português do século XV, familiarizando-se com os textos clássicos e os valores do humanismo quatrocentista. Escreveu em Lisboa um tratado sobre a Providência Divina, mas a maior parte do seu trabalho foi desenvolvida após a saída do país, em 1483, acusado de participar na conjura para depor o rei D. João II. Viveu alguns anos na Corte de Castela e em 1492 instalou-se em Itália, onde permaneceu até à morte, em 1508. Os filhos de Isaac Abravanel, todos nascidos em Lisboa, foram homens cultos e respeitados pelo seu saber. O mais famoso deles, Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu, deixou uma importante obra literária e filosófica.
Ainda no domínio da cultura literária, destacaram-se
Eliezar Toledano, Samuel Gacon, Samuel d'Ortas e Abraão d'Ortas, nomes ligados aos primórdios da Imprensa em Portugal. A Samuel Gacon se deve a edição do primeiro incunábulo português, uma impressão do Pentateuco, feita na sua oficina em Faro, em 1487. A oficina de Eliezer Toledano funcionou em Lisboa, produzindo, entre 1489 e 1492, pelo menos oito obras conhecidas em hebraico. Do mesmo modo, em Leiria, a oficina familiar de Samuel d'Ortas e seus filhos também executava trabalhos de impressão. Foi daquele prelo que saiu a primeira edição do Almanach Perpetuum de Zacuto, em 1496.
No campo artístico ficou a dever-se aos judeus o aperfeiçoamento da iluminura. Algumas escolas de copistas instaladas em Lisboa e nas principais cidades formaram grandes artistas que ilustraram algumas das obras de temática judaica e outros manuscritos importantes da época.
Entre os copistas mais importantes encontramos
Samuel de Medina, Eleazar Gagosh e Samuel Musa Filho.”


Tipografia


O «Comentário ao Pentateuco» , do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nahmanides) foi o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, impresso por Eliezer Toledano em 1489, com o patrocínio de David Ibn Yahya. O livro foi produto de vários artesões, que trabalhavam sob a direcção do médico, estudioso e tipógrafo Eliezer Toledano, em cuja casa funcionava a tipografia.
Esta edição da exegese de Nahmanides é um dos primeiros comentários impressos para a Tora. O texto bíblico não é incluído com o comentário, o leitor teria de fazer referência a outro livro para o texto da Bíblia.



Moses ben Nahman [ Nahmanides ], de Gerona, 1194-1270
[ Hidushei ha-Torah ]
Lisboa, Eliezer b. Jacob Toledano,16 Julho 1489


Conhecido como Nahmanides, Moisés ben Nahman nasceu em Espanha e morreu na Terra Santa.
Uma das grandes mentes da erudição judaica durante a Idade Média, foi autor de mais de 30 obras. Este volume, um comentário sobre o Pentateuco, é considerado a sua obra-prima. A primeira edição foi impressa em Roma cerca de 1480. Esta segunda edição foi o primeiro livro impresso em Lisboa.

Conhece-se um exemplar na British Library e outro na Biblioteca de UCLA (este está quase completo, o que é raro para um incunábulo hebraico). Na Biblioteca da UCLA, este é o livro impresso mais antigo na colecção de estudos judaicos.


Pormenor da impressão

O texto hebraico é de uma composição de belas e nítidas letras. O texto da página de título está enquadrado por uma cercadura gravada em madeira, várias folhas apresentam igualmente as inicias enquadradas por gravados em madeira.


Página inicial do «Livro dos Números» – Ba- Midbar – o quarto livro
dos cinco livros de Moisés

ELIEZER B. ABRAHAM IBN ALANTANSI, era proprietário de uma tipografia e médico em Hijar, Espanha. Os livros produzidos pelas prensas de Eliezer são caracterizados pela sua perfeição técnica e bela decoração. Animais finamente gravados, frutos, flores e linhas ornamentais realçavam o fundo preto e, o mesmo equilíbrio entre o preto e o branco, é mantido na composição das iniciais. Estas gravuras em metal são trabalho de Alfonso Fernández de Córdoba, um ourives, cinzelador de caracteres e impressor em Valência.



Bíblia. Pentateuco. Hebreu
[ Hamishah humshei Torah ]
Híjar, Eliezer ibn Alantansi, por Solomon b. Maimon Zalmati, 19 Julho - 17 Agosto 1490



A cidade de Híjar, em Aragão foi, foi depois de Guadalajara, o segundo maior centro de impressão hebraico em Espanha. Esta folha de pergaminho único é um fragmento da primeira edição espanhola do «Comentário a Onkelos de Targum e da Rashi», que acompanham o texto bíblico não anotado (as vogais foram adicionadas, mais tarde à mão, nesta cópia). O último livro datado da tipografia de Híjar, publicada menos de dois anos antes da expulsão, também é o último livro Hebraico datado conhecido como impresso em Espanha.

ELIEZER TOLEDANO impressor, cuja a primeira obra impressa - «Comentário ao Pentateuco», tem a data, no colófon de 16 de Julho de 1489, e mostra como local de impressão Lisboa.
Eliezer como o seu homónimo, era também médico e usava na impressão dos seus livros a cercadura, letras iniciais e tipos de impressão encontrados nas obras da tipografia de Hijar. Torna-se, portanto óbvio, poder assumir-se a identidade destas duas impressoras, especialmente porque a actividade de Hijar, de ELIEZER B. ABRAHAM IBN ALANTANSI, terminou aproximadamente na altura em que se iniciou o trabalho em Lisboa.
A distância entre Lisboa e Hijar é de aproximadamente 400 milhas, com Toledo a meio-caminho; não é surpreendente que o recém-chegado tomasse um nome diferente do que ele tinha no seu local de partida.
Este facto pode ser tido em paralelo com muitos exemplos do Judaísmo Europeu durante a Idade Média até ao final do século XVIII, mas não se pode tomar como facto consumado, enquanto não vierem mais factos à luz das investigações.

Deixo aqui imagens do segundo livro impresso, em Lisboa, por Eliezer Toledano.
Trata-se de um livro de oração:



David b. Joseph Abudarham, de Sevilha, fl., séc. XIV.
[ Perush ha-Berakhot ve-ha-Tefilot ]
Lisboa: Eliezer Toledano, 25 Novembro1489.


Como todos os outros livros, os de oração judeus, foram distribuídos durante séculos na forma de manuscrito, até que edições impressas, no período do incunábulo, foram gradualmente substituindo as cópias manuscritas. O interesse intelectual na liturgia judaica era tal que um comentário sobre o livro de oração foi um dos primeiros livros publicados em Portugal no século XV.



Escrito em 1340, o «Comentário da Abudarham sobre a liturgia completa da Sinagoga», incluindo as regras de intercalação, foi o segundo livro impresso em Lisboa.



Espero que tenham apreciado esta digressão pelos primórdios da impressão em Portugal, e pelas edições hebraicas, tanto como eu gostei de as divulgar.

Para os mais curiosos, e entusiastas sobre a impressão hebraica, deixo aqui dois “links” que me parecem interessantes.

Jewish Publishing:
http://www.nawpublishing.com/expansionpages/ephemera/jewish_publishing.htm

Alphabet, The Hebrew:
http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=1308&letter=A&search=alphabet

Saudações bibliófilas.

4 comentários:

Marco Fabrizio Ramírez Padilla disse...

Rui.
Excelente complemento de los artículos anteriores, que viene a darnos una mejor idea de los orígenes de la imprenta en Portugal.

Saludos bibliófilos y gracias por el trabajo de investigación.

rui disse...

Marco
¡Te agradezco mucho tu comentario!
El artículo es el resultado de una modesta investigación que, a pesar de estar seguro que contiene muchos errores, intenté ser la más completa posible, para traer un aporte por la divulgación de un período de la imprenta un poco mal conocido y con cuestiones no bien clarificadas (…yo creo que lo mismo ocurre en otros países)
Tu comentario consiguió hacerme entender que mi modesto trabajo, pero hecho con grande placer, por lo menos interesó a alguien
Saludos bibliófilos

DIEGO MALLÉN disse...

Amigo Rui: acabo de leer este nuevo artículo tan interesante como los anteriores. (¿Disculpa, estoy en la playa, y no llevo el PC conmigo!). La belleza de las impresiones de Toledano es extrema. Nos das una visión completísima del nacimiento de la imprenta en Portugal (tan unida a la de España) y también del papel importantísimo que en ello representó la cultura hebrea y los judíos establecidos en la península ibérica.

¡Saludos bibliófilos!

rui disse...

Amigo Diego

Gracias por tu comentario.
Intenté simplemente compartir lo poco que conozco sobre un tema, muy querido y atractivo para mí, y llamar la atención sobre las impresiones hebreas, que lo creo están un poco olvidadas, (hay siempre el problema de la escrita, que pocos conocen… como yo) pero son muy perfectas en su composición.
¡No tienes que pedir disculpa, disfruta la playa y vacaciones en buena compañía!

Saludos bibliófilos