"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sábado, 3 de novembro de 2012

As Palavras do Silêncio



 Busto de Camões de Andries Pauwels (sec. XVII)

Estamos em tempos de mudança e nada melhor do que abrir com este belo soneto Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades de Luís de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Este título As Palavras do Silêncio – título um pouco estranho pela sua contradição – prende-se com as mudanças que se veêm na nossa sociedade e que se deverão reflectir neste espaço.

Este título acaba por simbolizar o desejo de mudança no conteúdo e objectivos deste blogue.

O silênco porque este tem passado deve-se a querer escrever algumas palavras que me têm ocupado o pensamento e me têm obrigado a reflectir sobre a sua continuação.

São precisamente estas palavras/pensamentos que se foram reunindo ao longo destes meses de silêncio construindo penosamente, na minha mente, um texto de reflexão que vos pretendo apresentar hoje.

Quando comecei a publicar os meus primeiros textos pretendi divulgar a nossa bibliofilia e estimular o coleccionismo do livro antigo.


ARRONCHES, Marquês de – Panegyrico al-Rey Nuestro Señor Don Pedro II de Portugal

Alguns destes mostram algumas obras importantes da nossa bibliofilia, enquanto outros são de apontamentos bio-bibliográficos sobre autores, nem sempre dos mais conhecidos, mas cuja obra me parece merecer a nossa atenção.

Outra das ideias, sempre defendida, foi a de promover livros de aquisição relativamente acessível pelos seus preços embora já de alguma escassez no mercado bibliófilo.

Obviamente que as grandes raridades, sempre que surgiam no mercado, não deixaram de ser referidas.

Como sou um bibliómano assumido, se calhar mais do que um bibliófilo, não deixei de referir alguns autores estrangeiros que fazem parte do meu universo literário e das minhas paixões bibliófilas.


BRONTE, Charlotte – Villette
Published in London by Smith, Elder & Co. 1853
3 volumes complete. First edition.

(Claro que alguns destes já não serão tão facilmente coleccionáveis, mas também não era esse o meu propósito…)

Entretanto agudizou-se a crise politico-económica em Portugal, que se estende igualmente um pouco por toda a Europa, e com ela a perda de poder de compra com as sucessivas medidas de austeridade que atingem cada vez um maior grupo de portugueses.

Comecei a interrogar-me se seria lícito propor a aquisição de livros ou manuscritos bibliófilos (se calhar mesmo os livros que se vão publicando já será difícil…), quando muitas famílias conhecem as dificuldades do desemprego, quando crianças vão para a escola sem tomarem o pequeno-almoço pois os seus pais têm grandes dificuldades, ou quando se tem de cortar noutras despesas mais essenciais na vida diária de cada um.


Manifestação de 29 de Setembro de 2012
Terreiro do Paço – Lisboa

As manifestações de descontatamento popular sobem de tom, enquanto as economias familiares têm de “inventar “ soluções para se manterem equilibradas.

Cada vez há mais empresas a fecharem e com isso o número de desempregados vai aumentando.

Os jovens recém-formados procuram desesperadamente um emprego compatível com a suas habilitações, mas batem a portas que não se abrem – a única saída é a emigração…e o país vai ficando mais pobre!
(e era este um dos grupos que eu gostaria de atrair para estas “lides”…)

Triste com este quadro do meu país, retirei-me um pouco para a minha “vida de aldeia” – um pouco ao gosto do nosso Alexandre Herculano quando se retirou da vida pública e política para a sua quinta de Vale de Lobos – e dediquei-me a cuidar dos meus pássaros (lá vou ter outra vez os defensores dos direitos dos animais à perna…), a cultivar o meu pequeno jardim e a realizar experiência hortícolas.

Tem sido uma experiência enriquecedora de conhecimentos – com alguns sucessos, mas igualmente com alguns desaires – pois é uma área onde me comecei a iniciar.

Claro que isto me tomou algum do pouco tempo que tenho para escrever, mas diga-se em abono da verdade que a preguiça e a desmotivação para o fazer eram francamente maiores!

No entanto, o blogue nunca esteve abandonado, se calhar nem nunca lhe prestei tanta atenção como neste período. (quero dizer “olhar com olhos de ver” como se diz por cá…)

Regularmente consultava-o para avaliar o que se lia, quando se lia e quem lia o quê.

Pude verificar, que apesar de ter um número de seguidores que me dão um certo orgulho, em realidade estes são mais uma manifestação de agrado pelo que leram até então, mas que não seguem regularmente as minhas publicações.

A leitura inicial de um dos meus textos reduz-se a escassas dezenas, mas ao fim de um mês as mais “trabalhadas” chegam rapidamente às centenas.

A grande maioria dos leitores “descobre” o blogue por pesquisas realizadas na internet, mas surge um grupo curioso de leitores dos paises do leste europeu e do Japão (se assim posso dizer atendendo à lingua em que é escrito – o português – que é geralmente considerado difícil e não muito falado para além dos paises lusófonos), que sistematicamente “vasculham” a divulgação dos catálogos que publico (e duvido muito que a tradução do Google os elucide bem!)


Manuel Alegre

Mas voltando à poesia (e todos os que me leêm conhecem o meu gosto por ela) trago-vos um outro poema, este de Manuel AlegreO Livreiro da Esperança incluído em Praça da Canção:

Há homens que são capazes
de uma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito.
Outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

claro que aqui não no contexto em que ele foi escrito, pois que se relacionava com os tempos de censura que o país então vivia, como se pode concluir pela leitura deste artigo: O Livreiro da Esperança – Carlos Alberto Oliveira Martins, fundador da Livraria Martins, 1927-2012 de Orlando Cardoso, mas sim de todos aqueles livreiros que nós visitamos e com quem conversamos na “esperança” de encontrar algo que concretize a ralização de um dos nossos sonhos bibliófilos.

Só que se estes também vão rareando, e tem-se verificado o encerramento de algumas livrarias que eram marcos da nossa cultura, sobretudo em Lisboa.

E quero aqui deixar uma referência muito especial à Livraria Barateira, onde muitos de nós se iniciaram nesta coisa dos “livros velhos/esgotados” (o primeiro passo para muitos de nós), que encerrou as suas portas.


Livraria Barateira – Lisboa
©Creative Commons

A esperança de realizarmos os nossos sonhos torna-se cada vez mais difícil face às grandes dificuldades financeiras que todos nós atravessamos.
(senão pelo menos a grande maioria…)

Perante este quadro, pergunto-me:
Vale a pena continuar com os “meus escritos” sobre catálogos e leilões de livros/manuscritos ou, face ao seu desfasamento da realidade social, devo suspender a sua publicação?

Claro que tudo quanto possa escrever sobre a divulgação do livro enquanto objecto de estudo e de cultura continuará a ter o seu cabimento, mas para isso falta-me um pouco de “engenho e arte”!

São estas algumas das minhas dúvidas que gostaria de partilhar convosco.
(se calhar não será por acaso que muitos dos blogues de bibliofilia estão “mudos” há alguns meses, apenas se mantendo activos aqueles que estão ligados a livreiros-antiquários, pois é uma forma de divulgarem as suas obras para venda …só que eu não tenho nada para vender!)


Catalogue autumn 2012
Bauman Rare Books

Como exemplificativo do que escrevi, reparare-se num dos muitos catálogos que entretanto recebi – Catalogue autumn 2012 da Bauman Rare Books.
Claro que sendo desta conceituada livraria americana os seus preços, como já é habitual, não serão acessíveis, mas também todos conhecem o meu fascínio por estes.
Propositadamente escolhi algmas das obras de valor mais elevado, pelo que vejamos este conjunto de obras de Francisco de Goya, (que a maioria dos bibliófilos não desdenharia de ter nas prateleiras das suas bibliotecas)

Francisco de Goya
Retrato feito por Vicente López Portaña em 1826

Comecemos por ler a Introdução no Catálogo a este soberbo conjunto de livros:

The four books of Francisco Goya

"Goya produced four major series of etchings in his lifetime. The first, Los Caprichos (Caprices), the artist finished and published as a rather ambitious book of 80 captioned allegories in 1799. He withdrew the prints from sale after only two days, however, perhaps after being threatened by the Inquisition—priests and other representatives of the Catholic Church are not portrayed very sympathetically in this series. Undeterred, Goya continued to experiment with etching and aquatinting techniques, and for his next sequence he turned to a more popular topic, one that surely would find an audience in Spain: a series on bullfighting, La Tauromaquia, 33 prints which he finished and put on sale in his shop in 1816. However, very few in war-weary Madrid found Goya’s unromantic depictions of the darker aspects of the bullfight appealing. Only a few sets sold. The horrors of the Napoleonic wars in Spain (1808-1813) compelled him to create his most disturbing and forceful series of prints, Los Desastres de la Guerra. He finished this extensive sequence of 80 plates, but given the current state of political and religious repression—and perhaps discouraged by the failure of La Tauromaquia—Goya did not even attempt to sell these violent and macabre prints. Instead he went on to work on a similarly dark and even more enigmatic series, the unfinished group of 18 etchings known variously as Los Disparates (Follies) or Los Proverbios (Proverbs), which he produced in his seventies while recovering from serious illness.


GOYA Y LUCIENTES, Francisco José de. El sueño de la razón produce monstruos

After his death in 1828, Goya’s reputation languished. Fortunately his son boxed up all of his copper plates. It wasn’t until the 1850s and 1860s that La Real Academia de Nobles Artes de San Fernando published all of the series using Goya’s original plates: Desastres de la Guerra and Los Disparates for the first time ever (aside from scattered artist proofs). Care was taken in producing these editions, and only a few hundred copies of each were run offso as not to damage the copperplates. The delicately shaded background areas Goya achieved through his mastery of aquatint (etching the plates with acid) and lavis (painting acid directly onto the plate) are particularly susceptible to degradation with subsequent printings. Thus it is especially important with these four books to obtain first edition copies—and even copies from early in the print run rather than later—whenever possible. The shading and ‘coloring’ Goya managed to obtain is indescribable, and must be seen in person to be fully appreciated, as even today’s refined photographic and digital printing technology cannot faithfully capture the subtle varieties of tone that contribute to the drama of these images.

Each of these books is incredibly hard to find in first edition. The Royal Academy of San Fernando only printed 300 copies of Los Disparates (Proverbios), and only 500 copies of Los Desastres de la Guerra; presumably the Academy printed an equally limited quantity of La Tauromaquia, which is virtually unobtainable in first edition.

Of the first book published by Goya, Los Caprichos, only about 300 copies were printed, and it appears that the artist sold no more than 27 copies in the first four years of its publication. The opportunity to obtain all four works at once is truly a once-in-a-lifetime opportunity."



4. GOYA Y LUCIENTES, Francisco José de. Los Caprichos. [Madrid, 1799]. Small folio (12 by 8 inches), contemporary full mottled brown calf gilt, red morocco spine label. Custom clamshell box. $525,000.

First edition, superb copy, of Goya’s rarest book, Los Caprichos, one of only a few copies sold in Madrid by Goya himself, and in its most desirable first state, without the scratch on plate 45, indicating it was one of the first copies printed.



5. GOYA Y LUCIENTES, Francisco José de. Colección de las diferentes suertes y actitudes del arte de lidiar los toros, inventadas y grabadas al agua fuerte por Goya [Tauromaquia]. Madrid, 1855. Thirty-three etched and aquatinted plateson heavy wove paper; original printed paper front wrapper with etched portrait of Goya and original printed paper rear wrapper with table of contents bound in appropriately. BOUND WITH: Eight etched and aquatinted plates (portrait of Goya and seven additional bullfighting scenes) on heavy laid paper with Arches watermark. [Paris, 1876]. Oblong folio, contemporary brown cloth boards with gilt lettering, expertly rebacked and recornered in calf, retaining the original stitching. Housed in custom half morocco clamshell box. $140,000.





Rare second edition of Goya’s magisterial survey of the “fiesta nacional”—33 dramatic etched and aquatinted plates of bullfighting scenes in early impressions from the original plates etched by Goya. This copy bound with the seven additional plates published for the first time in the 1876 third edition.



6. GOYA Y LUCIENTES, Francisco José de. Los Desastres de la Guerra: Colección de ochenta láminas inventadas y grabadas al agua fuerte por Don Francisco Goya. Madrid, 1863. Two volumes. Total of 80 numbered and titled copperplate etchings done with dry point, burin, aquatint and lavis, on wove paper with watermark J.G.O. and palmette. Oblong folio (13-1/2 by 9-3/4 inches; each image approximately 8 by 6 inches), contemporary half red morocco gilt. $225,000.





First edition, second issue, of “the most brutally savage protest against cruelty and war which the visual imagination of man has conceived”—one of only 500 copies in the first printing. Fine, early impressions, with tonal variations in the lavis that disappear in later editions.



7. GOYA Y LUCIENTES, Francisco José de. Los Proverbios. Madrid, 1864. Oblong folio (19 by 13 inches), 19th-century three quarter straight-grain morocco, marbled boards and endpapers, top edge gilt. Housed in a custom clamshell box. $130,000.



First edition of Goya’s allegorical series of 18 etchings with aquatint—one of only 300 copies in the first printing. “This edition is very well printed; the impressions are richly inked and tone is usually left on the highlights” (Harris).

E termino com esta obra de uma das autoras inglesas da minha preferência – Jane Austen.


Jane Austen

Quem não gostaria de possuir a 1ª edição da sua obra-prima: Pride and Prejudice?



29. AUSTEN, Jane. Pride and Prejudice. A Novel. In Three Volumes. By the Author of “Sense and Sensibility.” London, 1813. Three volumes. 12mo, contemporary three-quarter mottled calf rebacked with original spines laid down custom clamshell box. $79,000.

First edition of Jane Austen’s second and most popular novel, one of the most sought-after titles in English literature, in contemporary binding.

Aqui deixo estas minhas dúvidas/preocupações que me levam a reconsiderar o conteúdo do blogue na esperança de ouvir as vossas opiniões.

Entretanto vou estudar a melhor forma de manter o contacto com todos aqueles que sentem alguma curiosidade em me lerem, desculpando-me por este texto fugir em muito ao que publiquei e revelar um pessimismo em relação ao futuro da nossa grande paixão, mas é o que neste momento realmente sinto.

Obrigado pela vossa leitura e comentários.

Saudações bibliófilas


Nota: A título excepcional indiquei o preço das obras referidas, por me parecer ter total cabimento nas conjecturas deste texto.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

VERITAS Art Auctioneers – Leilão 12: Livros e Manuscritos


Penso que a presente época de leilões irá encerrar com este e, em face da qualidade das obras presentes, poderemos dizer que fechará com “chave de ouro”.



No seu comunicado de imprensa de 10 de julho de 2012 Catarina Alfaia escreve sobre este evento:

¶ Atlas de Ptomoleu no primeiro leilão de livros e manuscritos

“Uma majestosa edição quinhentista do Atlas de Ptolomeu protagoniza aquele que é o primeiro leilão de livros e manuscritos organizado pela VERITAS - Art Auctioneers, que terá lugar no próximo dia 18 de Julho, em Lisboa, pelas 21h00.

Com o número de lote 194, é uma obra de extrema raridade encadernada de época (a lombada terá sido alvo de restauro provavelmente no século XVII) e ilustrada com 50 mapas - 49 dos quais de página dupla. Esta obra inclui um conjunto de vinhetas e gravuras atribuídas a Albrecht Durer e integra o leilão com uma base de licitação de 10 a 20 mil euros.

Luís Gomes, responsável pela selecção de livros e manuscritos deste leilão, salienta também a preciosa edição da obra de Dante Alighieri (1529, lote 79) e «o primeiro livro impresso com caracteres “Didot” (“Virgílio”, 1798, lote 265), edição de grande aparato gráfico usada numa exposição universal para divulgação dos famosos caracteres tipográficos».

Do conjunto, merecem ainda particular destaque um raro exemplar da “Colleçaõ de algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno de 1755” (Lisboa, 1757, lote 185), a colecção completa em 15 volumes da primeira edição dos Sermões do Padre António Vieira (lote 265) e a dissertação que António de Oliveira Salazar apresentou em 1916 para o concurso de assistente na Universidade de Coimbra (“O ágio do ouro”, lote 212).

Os 268 lotes que compõem o catálogo deste leilão de Livros e Manuscritos (disponível em www.veritasleiloes.com) podem ser vistos na galeria VERITAS Av. Elias Garcia, 157A/B, em Lisboa, de 12 a 16 de Julho, entre as 10h00 e as 22h30.”

Do conjunto de obras presentes para este leilão, cujo catálogo foi organizado por Luis Gomes, destaco aquelas que me despertaram o meu interesse – algumas pela sua temática outras pela sua encadernação – e, obviamente, não esquecerei as grandes raridades.



Lote 33. BIEL, Emílio, (1838-1915), (ed.) – A arte e a natureza em Portugal. Album dephotographias com descripções; clichés originaes; copias em phototypia inalteravel; monumentos, obras d’arte, costumes, paisagens. Porto : Emilio Biel & c.ª - Editores, 1902. 8 vols. de formato oblongo (30x40 cm) Il. Encadernações de editor.



Bom exemplar. Com alguns pequenos defeitos (manchas) nas encadernações.
Obra ilustrada com mais de 300 reproduções fotográficas de grande formato.





Lote 54. Carta Executoria de Hidalguia – Carta Executoria de Hidalguia patente em nome de Carlos III (1759-1788) certificando o estatuto de nobreza e Brazão de armas de Don Thomas Ortiz, Morales, Sarmiento, y Romero da cidade de Sevilla En Madrid à once de Diziembre de 1775. Manuscrito sobre pergaminho. In-fólio (31x23 cm) de 17 ff. Enc. Encadernação original em carneira encarnada com ferros a ouro nas pastas e lombada, guarda em seda encarnada para protecção do brasão de armas iluminado. Frontispício iluminado com o brasão de armas da família, em página inteira.



Portada com selo real enquadrado por estandartes, emoldurados por bonito trabalho de miniatura, profusamente colorido, com motivos vegetalistas. Capitulares iluminadas, texto enquadrado por cercadura constituída por duas linhas encarnadas, em todos os fólios. Com vestígios de mancha de água, à margem de todos os fólios junto à goteira (lado direito do livro quando fechado), visíveis no material de suporte (pergaminho).



Ainda assim, é uma bela e rara peça de colecção.



Lote 67. CHERVILLE, Gaspard Georges Pescow, Marquis de, (1821-1898) – Le gibier poil – Les quadrupèdes de la chasse, description - moeurs - acclimatation - chasse. Paris : J. Rothschild, Éditeur, 1885. In-8vo. (20 cm) de [6], 229, [4] pp. Il. Enc.

Bonito livro de caça com encadernação editorial em percalina decorada com motivos cinegéticos a ouro e a cores nas pastas e lombada. Bom exemplar. Ilustrado com 30 ilustrações a água-forte, em extratexto, e 74 ilustrações no texto por Karl Bodmer.



Lote 76 COSTA, Cristovão da, – Trattato di Christoforo Acosta Africano medico, & chirurgo. Della historia, natura, et virtu delle droghe medicinali, & altri semplici rarissimi, che vengono portati dalle Indie Orientali in Europa, con le figure delle piante ritratte, & disegnate dal vivo poste à luoghi proprii. Nuouamente recato dalla Spagnuola nella nostra lingua. Com due indici, vno decCapi principali, l’ altro delle cose di più momento, che si ritouano in tutta l’Opera. Venetia : Presso à Francesco Ziletti, 1585. In-4to. (24 cm) de [50], [2 brancas], 342 (aliás 340) pp. Enc.



Muito bom exemplar, encadernação da época em pergaminho, com o titulo caligrafado a lombada, vestígios de atilhos. Apresenta na guarda branca, no rosto e nas páginas 25 e 105 um ex libris a óleo (carimbo). Completo apesar de existir um erro de paginação: da pág. 296 passa para a 299.



Primeira edição italiana, a original foi publicada em castelhano (Burgos, 1578). Profusamente ilustrado no texto com xilografias, algumas de página inteira, representando toda a sorte de plantas exóticas. Inclui um capítulo, ilustrado, sobre o elefante. Livro de grande beleza e raridade.

Inocêncio 2, 68 ; Palau 1, 55.





Lote 79. DANTE ALIGHIERI (1265-1321) – Comedia di Danthe Alighieri poeta diuino: cõ l’espositione di Christophoro lãdino: nuouame[n]te impressa: e con somma dilige[n]tia reuista & eme[n]data: & di nuouissime postille adornata. [No colofon] Stãpato in Venetia per Iacob del Burgofrãco, Pavese. Ad instãtia del nobile messere Lucantonio giuta, Fioretino. Nellanno del nostro signor. M.D. XXIX. A di XXIII. di genaro. (23 Jan. 1529) Venetia : Jacob del Burgofraco, 1529. In-4to. (30 cm) de [12], CCXCV, [1] ff. : ill. (xilogravuras). Enc.





Apesar de alguns defeitos menores – pequenos furos de traça marginais em alguns fólios, 4 rabiscos infantis a lápis de cor azul e encarnado em outros tantos fólios, pequenos restauros antigos, rosto e últimos fólios – o exemplar encontra-se em bom estado de conservação.



Rosto com os títulos impressos a preto e encarnado dentro de uma cercadura xilográfica, retrato do autor em página inteira e inúmeras vinhetas alegóricas no corpo do texto. Preciosa e raríssima edição deste universal e intemporal clássico.

Adams D-92.



Lote 131. HERCULANO, Alexandre, (1810 –1877) – A voz do propheta. Ferrol (e Lisboa) : Typ. Patriotica de Carlos José da Silva e Companhia, 1836 (e 1837). 2 Opúsculos. In-8vo. (20 cm) de 35, [1] pp. e 32 pp. Cart.

Cartonagem recente. Exemplar em razoável estado de conservação, com falta da capa de brochura do primeiro opúsculo. Primeira edição, rara.



Lote 144. LACERDA, Bernarda Ferreira de, (1595-1644) – Soledades de Buçaco por Doña Bernarda Ferreira de Lacerda. A las religiosas carmelitas descalças del convento de S. Alberto de Lisboa. Lisboa : Mathias Rodrigues, 1634. In-8vo. (13 cm) de [frontispício], [7], 121, [7] ff. Enc.

Encadernação antiga em inteira de pele castanha, restaurada, com rótulo e ferros a ouro na lombada. Exemplar com restauros. Obra composta por vinte romances octossílabos em castelhano e várias poesias em castelhano, português, latim e italiano. Inocêncio considera esta obra pouco vulgar e estimada.

Inocêncio 1, 355-356.





Lote 160. MARRACCI, Lodovico, (1612-1700) – Alcorani textus universus ex correctioribus Arabum exemplaribus (...) descriptus (...)ex Arabico idiomate in latinum translatus; Appositis unicuique capiti notis, atque refutatione: His omnibus praemissus est Prodromus Totum priorem tomum implens (...) auctore Ludovico Marracci, Patavii (Padua) : Ex Typographia Seminarii, 1698. 2 vols. em 1. In-fólio (36 cm) de [4], 45, [5], 46, [2], 81, [3], 94, [10], 127, [11] ; [8], 17, [3], 838, [12] pp. Enc.





Muito bom exemplar, encadernação coeva inteira de carneira com nervos, rótulo e ferros a ouro na lombada, corte das folhas carminadas. Edição bilingue, latim e árabe, impressa a duas colunas. Tradução e comentários de Ludovico Marracci, esta edição, pela sua qualidade, serviu de base a muitas das edições subsequentes. Esta edição está entre as mais belas e importantes edições do Corão impressas até ao século XIX. Raro.

Brunet III, 1307.



Lote 161. [MASCARENHAS, José Freire de Monterroyo, (1670-1760)] – Relaçam de hum prodigio sucedido em huma das cidades da provincia do Paraguay, neste anno passado de 1735. Traduzida fielmente de outra mandada do proprio paiz a hum cavalheiro da primeira grandeza de Hespanha. Lisboa Occidental : Na Officina de Antonio Correa Lemos, 1736. Opúsculo. (20 cm) de 6, [2] pp. Ilustrado com 1 gravura. Cart.



Exemplar em bom estado de conservação. Inocêncio atribui a autoria deste opúsculo, publicado anónimo, a Monterroyo Mascarenhas, que teria sido autor de outros do mesmo género, quaisquer deles raríssimos.

Inocêncio 4, 349.



Lote 171. MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat, baron de La Brède et de, (1689-1755) – De l’esprit des loix, ou du rapport que les loix doivent avoir avec la constitution de chaque gouvernement, les moeurs, le climat, la religion, le commerce, etc. (...) Nouvelle edition corrigée par l’auteur, & augmentée (...). Genève : Chez Barrillot & Fils, 1750. 3 vols. In-8vo. (17 cm) de [2], XXVIII, 447, [1] ; [2], XXIII, [1], 427, [3] ; [2], XXII, 609, [3] pp. Encs.



Encadernações modernas em inteira de carneira com rótulos e nervos na lombada. A primeira edição saiu em 1748 e foi automaticamente colocada no Index ainda assim, esta obra foi um sucesso editorial, com edições quase simultâneas por toda a Europa. Bom exemplar, pouco vulgar.



Lote 180. Oficio de la Semana Santa. Segun el Missal, y Breviario Romano. Que se publicaron por mandado de Su Santidad Pio V. y se reconocieron por comission de Su Santidad Clemente VIII. y Urbano VIII. Amberes : Emprenta Plantiniana, 1725. In-8vo. (17 cm) de 539, [1] pp. Il. Enc.

Bom exemplar deste devocionário impresso a duas cores, preto e encarnado e ilustrado por 5 gravuras de página inteira abertas em cobre. Magnífico trabalho de encadernação oitocentista, que resulta num espectacular rendilhado a ouro sobre pele encarnada.



Lote 194. PTOLEMEU, Cláudio, (ca. 90 – ca. 168) – Claudii Ptolemaei geographicae enarrationis libri octo Bilibaldo Pirckeym hero interprete Annotationes Ioannis de Regio Monte in errores commissos a Iacobo Angelo in translatione sua. [no colophon, que falta a este exemplar: …Argentorati, Iohannes Grieningerus, communibus Iohannis Koberger impensis excudebat. Anno a Christi nativitate M.D. XXV (1525) tertio Kal. Apriles]. Atlas, in-fólio (41 x 27 cm), de 82, [98 que correspondem a 50 mapas],[46 (de 48)] ff. Il. Encs.



Apresenta algumas manchas marginais em alguns fólios bem como algum (pouco) trabalho de traça, intonso. Encadernação de época (com a lombada restaurada provavelmente no século XVII), com pastas em madeiras recobertas de carneira com ferros a seco nas pastas, vestígios de fechos. Ilustrado com 50 mapas, 49 de página dupla e de apenas uma página, e por inúmeras vinhetas e gravuras que enquadram o texto atribuídas a Albrecht DURER que é também o autor da carta de ventos que aparece no verso do fólio 69.



Apesar da falta dos 2 fólios finais, onde deveria estar o colophon este é um bom exemplar. Obra de extrema raridade.



Lote 196. QUEVEDO Y VILLEGAS, Francisco de, (1580-1645) – Obras de Don Francisco de Quevedo y Villegas, (...) Tomo primeiro. [-tercero] Madrid : por Juan de Ariztia : a costa de Francisco Laso, 1724. 3 vols. In-4to. (21 cm) de [16], 608 ; [4], 603, [1 branca] ; [16], 1-74, [12], 97-301, [12] pp., Il. [1 grav. desd.], Encs.

Exemplar em razoável estado de conservação, apresenta algumas manchas desvanecidas, encadernações coevas inteiras de carneira mosqueada com rótulos, nervos e ferros a ouro nas lombadas.

Palau 14, 370.
Referência: BnF on-line http://catalogue.bnf.fr/



Lote 197. QUEVEDO Y VILLEGAS, Francisco de, (1580-1645) – El Parnasso español, monte en dos cumbres, dividido con las nueve Musas, castellanas. Donde se contienen poesias (…) [Las tres musas ultimas castellanas. Segunda cumbre del Parnaso español. (…)] Madrid : por Juan de Ariztia : a costa de Francisco Laso, 1724. 2 vols. In-4to. (21 cm) de [16], 558, [18] ; 338, [10] pp. Encs.



Exemplar em razoável estado de conservação, apresenta algumas manchas desvanecidas pelo tempo, encadernações coevas inteiras de carneira mosqueada com rótulos, nervos e ferros a ouro nas lombadas. Obra lustrada no texto com bonitas xilogravuras que representam as Musas Clio, Polymnia, Melpomene, Erato, Terpsichore, Thalia, Euterpe e Caliope.

Palau 14, 403.


Lote 204. RIGAUD, Lucas, (fl. 1780) – Le Règne végétal, divisé en traité de botanique générale, flore médicale et usuelle, horticulture botanique et pratique (...) histoire biographique et bibliographique de la botanique.(...). Paris : L. Guérin, [s.d. 1870–71?]. 17 vols. In-4to. (28 cm) Ilustrados. Encs.



Encadernações coevas meia francesa em marroquim encarnado com títulos e ferros a ouro nas lombadas. Bom exemplar, todos os volumes apresentam algumas pequenas manchas de acidez.
Colecção completa, 9 vols. de texto e 8 de gravuras.



Lote 261. VIEIRA, Pe. António, 1608-1697, S.J. – Sermoens do P. Antonio Vieira, da Companhia de Jesu, (...) Primeyra parte dedicada ao Principe, N.S. [gravura em madeira com trigrama da Companhia de Jesus] (...) Lisboa: na Officina de Ioam da Costa. 1679. In-4to. (21 cm) de [22], (1118 colunas 2 por página), [107] pp. - (...) Segunda parte. Dedicada no panegyrico da Rainha Santa ao serenissimo nome da princeza N. S. D. Isabel... Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1682. In-8vo. (21 cm) de [8], 470, [60] pp. - (...) Terceira parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1683. In-8vo. (21 cm) de [10], 574, [2] pp. - (...) Quarta parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1685. In-8vo. (21 cm) de [12], 600 pp. - (...) Quinta parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1689. In-8vo. (21 cm) de [12], 624 pp. - (...) Sexta parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1690. In-8vo. (21 cm) de [8], 595, [1 branca] pp. - (...) Septima parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1692. In-8vo. (21 cm) de [4], 558 pp. - Xavier dormindo, e Xavier acordado: dormindo, em tres orações panegyricas no triduo da sua festa, dedicadas aos tres principes que a Rainha Nossa Senhora confessa dever à intercessaõ do mesmo santo, acordado, em doze sermoens panegyricos, moraes, & asceticos, os nove da sua novena, o decimo da sua canonizaçaõ, o undecimo do seu dia, o ultimo do seu patrocinio... Oitava parte. Lisboa : na Officina de Miguel Deslandes, 1694. In-8vo. (21 cm) de [24], 536 pp. - Maria rosa mystica. Excellencias, poderes, e maravilhas do seu rosario, compendiadas em trinta sermoens asceticos, & panegyricos sobre os dous Evangelhos desta solemnidade novo, & antigo: offerecidas a soberana magestade da mesma senhora... I. Parte. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1696. In-8vo. (21 cm) de [8], 521(i.e. 554 erro de pag. Que segue 146- 178), 46 pp. - Maria rosa mystica. (...) II. Parte. Lisboa: na Impressaõ Craesbeeckiana, MDCLXXXXVIII (1698) In-8vo. (21 cm) de [8], 518, 32, 24 pp. -...undecima parte, offerecida à Serenissama Rainha da Grã Bretanha. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1696. In-8vo. (21 cm) de (frontis.), [18], 590, 23, [1 branca] pp. -... Parte duodecima dedicada á purissima conceiçaõ da Virgem Maria Senhora Nossa. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1699. In-8vo. (21 cm) de [20], 441 [1] pp. - Palavra de Deos empenhada, e desempenhada: empenhada no sermam das exequias da Rainha N. S. Dona Maria Francisca Isabel de Saboya; desempenhada no sermam de acçam de graças pelo nascimento do Principe D. Joaõ primogenito de Suas Magestades, que Deos guarde. Prègou hum, & outro o P.Antonio Vieyra (...) o primeiro na igreja da Misericordia da Bahia, em 11. de Setembro, anno de 1684 o segundo na Cathedral da mesma cidade, em 16. de Dezembro, anno de 1688. Lisboa: na Officina de Miguel Deslandes, 1690. In-8vo. (21 cm) de [16], 260 pp. -...Tomo XIV. Obra posthuma dedicada á purissimaconceiçam da Virgem Maria Nossa Senhora. Lisboa: por Valentim da CostaDeslandes, 1710. In-8vo. (21 cm) de [24], 350 pp. - Sermões varios, e tratados, ainda naõ impressos, do grande Padre Antonio Vieyra da Companhia de Jesus: offerecidos á Magestade DelRey D. Joaõ V. Nosso Senhor, pelo p. André de Barros (...) Tomo XV. E de vozes saudosas tomo II. Lisboa: na Officina de Manoel da Sylva, 1748. In-8vo. (21 cm) de [24], 434 pp.



Bom exemplar, encadernações coevas, à excepção do volume XIV.
Primeira edição dos sermões do Padre António Vieira, obra publicada em 15 volumes com vários títulos e datas – entre 1679 e 1748 – colecção completa. Raro conjunto.

Inocêncio 1, 289.



Lote 262. VIEIRA, Pe. António, 1608-1697, S.J. – Historia do futuro. Livro anteprimeyro prologomeno a toda a historia do futuro, em que se declara o fim, & se provaõ os fundamentos della. Materia, verdade, & utilidades da história do futuro. (...) pelo padre António Vieyra... Lisboa Occidental : Na oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1718. In-8vo, (21,5 cm) de [36], 379, [1 branca] pp. Enc.

Muito bom exemplar, encadernação coeva inteira de carneira com rótulo e ferros a ouro na lombada.
Primeira edição de um dos mais emblemáticos livros do Quinto Império, pouco vulgar.

Inocêncio 1, 287 : 8, 316.



Lote 265 Virgílio, (70-19 a.C.) – Publius Virgilius Maro. Bucolica, Georgica et Aeneis. Parisiis : in aedibus Palatinis, excudebam P. Didot natu major, 1798, Reip. VI In-fólio (50 cm) de XI, [1], 572 pp. Il. (23 gravuras abertas a cobre). Enc.



Magnífica encadernação, inteira de marroquim encarnado com guardas em seda e dourado à cabeça, assinada Império Graça.



Exemplar numerado, n.º 246 de uma tiragem total de 250, e assinado Didot l’Aîné. Edição de grande aparato gráfico, impressa com os então recentes, e agora famosos caracteres Didot, ilustrada com 23 gravuras, de autores vários, abertas em cobre. Muito bom exemplar, raro.

Brunet 5, 1294.

Aqui fica a minha leitura deste catálogo, como sempre subjectiva pelo meu gosto pessoal, pelo que só com a vossa leitura e consulta atentas do mesmo poderão fazer as vossas opções.

Como poderão verificar, se algumas das obras atingem estimativas que superam largamente a capacidade da grande maioria das nossas bolsas – que se encontram cada vez mais vazias – ainda encontramos livros com interesse em várias temáticas a preços que, apesar de tudo, podemos considerar aceitáveis...boa sorte!

Saudações bibliófilas.